
Entre o som da água das regas, o canto dos pássaros e o cheiro a terra húmida, as hortas comunitárias da cidade transformaram-se num ponto de encontro para quem encontra prazer nas pequenas coisas. Situadas junto às comunidades do Parrinho/Mourisca e de Fundo de Vila/Orreiro, estes espaços foram criados pela Câmara Municipal para permitir que qualquer pessoa, mediante inscrição, possa cultivar o seu próprio pedaço de terra e, com ele, um ritmo de vida mais saudável e ligado à natureza.
O projeto, inserido no programa “Da Terra à Terra” e financiado pelo Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), nasceu com o propósito de valorizar ambiental e urbanisticamente estas zonas periféricas, promovendo a agricultura biológica e o fortalecimento do espírito comunitário. A ideia passou por oferecer um espaço verde partilhado, onde cada sanjoanense possa plantar, aprender e conviver.
Quem por lá passa durante a manhã encontra movimento. São sobretudo pessoas aposentadas que, com tempo e paciência, se dedicam à terra. “Isto é uma verdadeira mais-valia”, dizia Rosa Pinho, uma das utilizadoras, enquanto regava as couves que há um mês plantou. “Ajuda-nos a ocupar o tempo, a aprender coisas novas e até a poupar um pouco. Além disso, é um espaço onde nos sentimos úteis, onde há sempre algo para fazer.”
Outros vêm apenas ao fim de semana, aproveitando as folgas para cuidar dos talhões. Uns regam, outros colhem, outros simplesmente observam o crescimento lento das plantas. “É o meu momento de pausa”, partilhou Fátima Correia que ajuda a família na horta. “Venho porque gosto. Os meus familiares têm a horta, mas agora não conseguem vir tantas vezes, então trato eu das plantas. É bom estar ao ar livre, mexer na terra, sentir que fazemos parte de algo.”
O que se cultiva depende da estação e da imaginação de cada um. Pimentos, couves, tomates, flores e pequenas árvores de fruto enchem os canteiros de cor. A época do verão foi fértil, e agora, com a chegada do outono, os residentes preparam o terreno para o frio. Alguns aproveitam para adubar, outros para planear novas sementeiras. A preparação nem sempre é fácil. “No início, a terra estava muito seca, cheia de pedras. Tivemos de escavar e corrigir o solo”, recordou Armando Santos. “Mas valeu a pena. Com esforço e dedicação, tudo começou a crescer. Quando vemos o primeiro fruto, sentimos uma grande alegria.”
Entre as fileiras de plantas, é fácil perceber que o valor das hortas vai muito além da produção alimentar. Muitas pessoas recorrem a estes espaços por não terem quintal ou jardim em casa. “Moro num apartamento, sem varanda. Aqui encontro o meu pedaço de campo”, dizia Fátima Correia. “A minha família sempre viveu em casas com terreno, e senti falta disso. Esta horta devolveu-me essa ligação.”, referiu outra morada de Fundo de Vila.
A dimensão comunitária é visível em cada gesto. Há quem partilhe sementes, quem empreste ferramentas, quem troque conselhos sobre pragas ou regas. As conversas fluem entre o som dos regadores e o virar das enxadas. Para alguns, é também uma forma de combater a solidão. “Venho cá quase todos os dias. Mesmo que não tenha nada para fazer, gosto de estar aqui e falar com as outras pessoas”, contou um dos frequentadores habituais. “Isto anima-nos. Faz bem ao corpo e à cabeça.”
Nem todos os talhões são usados para cultivo alimentar. Alguns transformaram-se em pequenos jardins, cheios de flores e ervas aromáticas. Na Mourisca, há mais quem prefira embelezar o espaço, criar um recanto pessoal onde possa simplesmente estar. Entre os utilizadores há também pessoas com dificuldades de comunicação que, segundo os restantes, encontram ali um refúgio de calma e pertença. “Há quem venha só para cuidar do terreno e ficar em silêncio. Cada um vive a horta à sua maneira.”
De acordo com a Câmara Municipal, “a área total das duas hortas comunitárias é de 3721 metros quadrados.” Na Mamoinha, os trabalhos de criação do espaço terminaram em 2024, e “54 talhões foram entregues a 13 utilizadores.” As primeiras colheitas já aconteceram, e os resultados confirmam os objetivos do projeto em promover uma alimentação mais saudável, reduzir custos familiares e, acima de tudo, melhorar a qualidade de vida de quem participa.
Além do cultivo, têm sido realizadas “ações teóricas e práticas de sensibilização e formação em Agricultura Biológica e Compostagem Comunitária, distribuídos materiais informativos e dinamizados workshops.” Foram também instaladas 13 ilhas de compostagem comunitária, com módulos de acesso partilhado e painéis explicativos.
O projeto, financiado pelo PRR, destina-se sobretudo às populações dos complexos habitacionais das zonas abrangidas, onde se verificam situações de maior vulnerabilidade social. Mas qualquer munícipe interessado pode candidatar-se. Para muitos, é uma forma de regressar às origens e reencontrar o prazer do trabalho na terra. “Sou do tempo em que tudo se plantava. Voltar a mexer na terra é como voltar à infância”, confidenciou Armando Santos. “Aqui não há pressas, tudo tem o seu tempo e nós aprendemos com isso.”
“Há quem venha para trabalhar, há quem venha para respirar, há quem venha para conversar um bocadinho. No fim, todos colhem alguma coisa”.
Num tempo em que a vida urbana tende a afastar as pessoas da natureza e umas das outras, estes pequenos terrenos devolvem o contacto com o solo, o convívio e a paciência de ver algo crescer.
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