
Confirmei há dias que, na cidade de São João da Madeira, apenas existe uma alfarrobeira. O excelente Inventário Municipal “Arvoredo em meio urbano”, diz-nos que, no espaço público de São João da Madeira, há 11.529 árvores, com direito a nome, localização e foto. Entre esta multidão arbórea, há apenas uma alfarrobeira. Eu conheço-a bem, estou a vê-la no momento em que escrevo estas linhas. Se o leitor se der ao trabalho de ler esta crónica, prometo desvendar o mistério da nossa alfarrobeira.
As árvores sanjoanenses, como todas as árvores, têm inúmeras proveniências e cada uma delas teria uma história para contar. Mas podemos adivinhar algumas: muitas terão vindo de um horto e foram plantadas por jardineiros; algumas terão nascido de semente e continuam no berço em que nasceram; outras terão sido plantadas por pessoas que gostam de árvores. Em qualquer dos casos, a plantação de árvores em meio urbano deve merecer sempre alguma reflexão, porque nem todas as árvores são adequadas a todos os lugares.
Se as árvores falassem, cada uma delas poderia contar a sua história. E haveria bonitas histórias para ouvir. Da minha janela vejo a alfarrobeira, um sobreiro, dois carvalhos, um azevinho, uma nespereira e muitos pinheiros mansos, estes plantados pela Câmara. Tenho o privilégio de conhecer a história de algumas destas e de outras árvores.
O sobreiro, talvez centenário, recorda-nos a história da antiga quinta da família Neves, onde hoje existe a Pista Alberto Batista, e da qual restam mais dois carvalhos. Mais abaixo, está uma nespereira, vinda de Vale de Cambra, plantada pela minha vizinha Emília.
E a alfarrobeira? Eu prometi que desvendaria a história da alfarrobeira. As árvores também refletem a história das terras em cujo solo se enraízam. Muitos sanjoanenses vieram de outras paragens - norte, sul, ilhas e até do estrangeiro - e enriquecem a cidade com o seu trabalho, os seus costumes e a sua cultura. Alguns também trouxeram árvores. A D. Zezinha Brandão é uma sanjoanense natural de Tavira. Esta alfarrobeira apareceu num vaso que enfeitava a rua onde morava a sua família. Quando nasceu, pensaram que era uma oliveira, mas, à medida que crescia, perceberam que era uma alfarrobeira. Chegou um ponto em que não era possível mantê-la no vaso. Foi então que a D. Zezinha decidiu trazê-la para São João da Madeira. Com o apoio dos vizinhos, plantou-a nos terrenos da Pista Alberto Batista. Agora, a pequena alfarrobeira tavirense vai crescendo, lenta mas seguramente, com honras de exemplar único na flora sanjoanense. É a embaixadora do Algarve no reino das árvores de São João da Madeira.
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