
Camilo trouxe-me até às plantas aromáticas e medicinais e aqui vou ficar por uns tempos. Num mundo cada vez mais dominado pelo som e pela imagem, e pelos ruídos de quem deles abusa, lembrei-me de Almeida Garrett e do seu belo poema “Os cinco sentidos”, porque além da visão e da audição, temos também olfato, paladar e tato. Qualquer dos sentidos poderia ser abordado nesta coluna hortícola, mas hoje vou ficar pelo olfato e pelo paladar. São conhecidos os benefícios das aromáticas, por exemplo na substituição do sal na culinária, sobretudo na cozinha mediterrânica. Por isso, hoje centrarei as atenções numa das minhas aromáticas preferidas: os orégãos.
Sempre gostei muito do cheiro e do sabor dos orégãos. Quando cumpri o serviço militar, na bela cidade de Tomar, éramos frequentemente instados a fazer exercícios em terrenos não muito longe do quartel. Erva rasteira, mato, pedras, muitas pedras. Um dos exercícios era rastejar. Espingarda nas mãos, cotovelos apoiados no chão, pernas em posição de rã, e assim íamos progredindo. De vez em quando, passava-nos debaixo do corpo um cardo espinhoso ou uma urze agreste, o que aumentava a dificuldade da prova. Na escuridão de uma noite mais penosa, ao roçar o rosto pelo chão, chegou-me às narinas um cheirinho agradável a planta conhecida. Nem mais, cheirou-me a orégãos! Havia orégãos selvagens no mato do descampado. Entre a hipótese de ficar ali a consolar-me com o cheiro do orégão e a necessidade de concluir a prova, tive que escolher. Tateei a planta, arranquei um raminho, coloquei-o no bolso da farda e continuei.

E aquela plantinha seca transportou-me ao tempo em que a minha mãe preparava as azeitonas do ano inteiro. Depois de passarem algum tempo em água, de preferência água corrente, levavam sal, rodelas de limão e orégãos, muitos orégãos. Depois, as azeitonas eram colocadas numa talha e ali ficavam para irmos comendo durante todo o ano. Pão com azeitonas era uma das mais frequentes merendas camponesas. O orégão era o testemunho aromático da primavera, durante as quentes tardes de verão e as frialdades do inverno.
Há quem use orégãos em todos os tipos de comidas, mas há pratos que não os dispensam, algumas pizzas italianas, a “marinara” e a “romana”, e, em Portugal, os caracóis, petisco pouco nortenho, mas muito saboroso. E a salada de tomate ganha outra vida, se temperada com orégãos. Experimente! Se não tiver, posso oferecer-lhe alguns. O canteiro de orégãos da minha horta vai chegando para as encomendas.
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