
O comércio tradicional em São João da Madeira atravessa um período de fragilidade crescente. Vários espaços comerciais com décadas de atividade encerraram nos últimos meses, incapazes de resistir ao peso do mercado imobiliário, à transformação nos hábitos de consumo e à ausência de sucessores dispostos a manter os negócios familiares. As ruas da cidade, outrora marcadas por montras emblemáticas, apresentam agora o silêncio das portas fechadas.
A Rua da Liberdade é hoje um dos muitos exemplos. Em pleno centro da cidade, quem por ali passa depara-se com cerca de quatro lojas seguidas encerradas. “Não dispomos de um registo oficial de lojas devolutas em São João da Madeira” – admitiu Paulo Barreira, presidente da Associação Comercial e Industrial (ACISJM).
Ainda em declarações a ´O Regional´, sublinha não existir um levantamento formal que permita quantificar os espaços atualmente devolutos. Ainda assim, acrescenta que “plataformas imobiliárias listam dezenas de imóveis comerciais” à venda no concelho, o que não equivale necessariamente a estarem vazios, mas sinaliza uma maior rotação e oferta no segmento. “O que podemos afirmar é que os pedidos de livro de reclamações ou de licenças SPAutores e PassMúsica diminuíram desde o início do ano” – revelou.
A situação é mais visível nas zonas periféricas da cidade, onde a ocupação comercial é menor. Já no eixo central – em torno da Praça Luís Ribeiro – ainda se regista maior dinâmica. Na Rua da Liberdade, contudo, a sucessão de encerramentos tornou evidente uma tendência de declínio. “Trata-se de uma observação de terreno e não de um recenseamento formal” – sublinhou o presidente da ACISJM.
Sobre as causas, Barreira aponta um fenómeno multifatorial. “Mudança de hábitos de consumo, maior peso do online, desalinhamento de horários entre oferta e procura no comércio de rua, ausência de uma política integrada de atratividade para o centro da cidade, falta de estacionamento de proximidade e bolsas de paragem rápida, concorrência de centros comerciais, e-commerce e pressões de custos como rendas e energia” – enumerou.
Questionado sobre o número de estabelecimentos encerrados desde o início do ano, o dirigente frisou não existir um valor fechado. “Acompanhamos casos reportados pelos associados, mas somos mais procurados para apoiar processos de abertura do que de encerramento” – explicou.
Quanto à reconversão dos espaços comerciais devolutos, a realidade mostra-se diversa. “Há casos pontuais de transformação de rés-do-chão, mas não temos esse levantamento porque não é da nossa competência. Defendemos prudência na reconversão em habitação, sobretudo em zonas ainda vivas comercialmente, para não fragilizar a continuidade do comércio de rua” – realçou Paulo Barreira.
A ACISJM defende uma regulação municipal que assegure equilíbrio entre comércio e habitação, ao mesmo tempo que apela a uma maior adesão ao comércio digital. “O digital complementa, não substitui a loja física. O que fideliza é a experiência e a relação com o cliente” – sustentou o presidente da associação.
Lojas dão vida a casas de habitação
Em São João da Madeira, os preços das habitações têm acompanhado a tendência de subida observada no resto do país. Este cenário tem levado muitos residentes a procurar alternativas para garantir o acesso à casa própria. Uma dessas soluções passa pela conversão de lojas em apartamentos – possibilidade que muitos proprietários ainda desconhecem, mas que atualmente já é viável.
Fonte da Câmara Municipal confirmou a ´O Regional´ que, nos últimos tempos, “tem vindo a registar-se um número acrescido de pedidos de reconversão em habitação de edifícios ou frações destinadas, originalmente, a comércio/serviços”. A generalidade desses pedidos de alteração de utilização incidirá, sobretudo, em frações autónomas integradas em pisos térreos de edifícios fracionados em propriedade horizontal, nos quais os pisos sobrelevados já se destinam maioritariamente a habitação.
Lojas resistentes que enfrentam desafios
Apesar do retrato sombrio, permanecem algumas lojas resilientes que desafiam o tempo e mantêm viva a identidade coletiva da cidade. Nestes espaços, a transação comercial cruza-se com a memória cultural.
“Cada loja que desaparece leva consigo um fragmento da nossa história local” – recordou um comerciante que pediu reserva de identidade. O mesmo acrescentou: “Vendemos o que vendemos. Não conseguimos competir com as grandes superfícies”, frisando ainda que “há clientes que, felizmente, continuam a preferir o comércio local”.
Um desses clientes é Manuel Tavares, 34 anos. Esta semana, em declarações a ´O Regional´, enquanto lia um jornal desportivo numa esplanada no centro da cidade, recordou “as boas lojas” que existiram e que agora estão devolutas e à espera de novo dono. “Lembro-me bem de muitas lojas. A Malisan era onde comprávamos as roupas de cerimónia, as fotografias eram tiradas no Estúdio Almeida” – referiu.
As memórias do sanjoanense não ficam por aqui. “A lindíssima loja de roupas Nova Era das mais bonitas da cidade. Sempre achei muito interessante a Casa Avenida, uma espécie de loja caseira, acolhedora, que encerrou não há muito tempo”.
Alguns comerciantes que resistem afiançam que a sobrevivência exige “adaptação”, mas insistem em preservar a autenticidade que os distingue.
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