
Francisco Matos tem 82 anos e um olhar profundo sobre a cidade, que deu origem ao catálogo ‘Mostra-me como era… S. João da Madeira’ apresentado no passado dia 20 de dezembro, na Biblioteca Municipal.
As obras de Francisco Matos são uma espécie de viagem no tempo, em que o autor explorou lugares, saberes e rotinas de S. João da Madeira através de momentos que integram a memória coletiva dos sanjoanenses. Quando se reformou, há cerca de 20 anos, o sanjoanense abraçou uma paixão que surgiu na escola primária. Gostava de desenhar e de pintar. Na reforma, com mais tempo disponível, decidiu passar o desenho para a tela. “Estava a pintar situações que conhecia e que foram vividas por mim, desde o que é que acontecia na Praça até às brincadeiras na escola, envolvendo a história da cidade”, contextualizou o pintor, em entrevista ao jornal 'O Regional'. “Agora, vive-se muito à volta do telemóvel, mas naquela altura não havia nada disso; a gente entretinha-se a conversar, a jogar à bola… Fui reunindo todas essas memórias e passei-as para a tela”, explicou.
As pessoas, o movimento, os engraxadores, as passagens dos carros pela cidade, entre muitos outros pormenores, originaram cerca de 80 quadros. “Gostava que [essas memórias] ficassem [registadas]”, admitiu. O retrato visual e literário ‘Mostra-me como era… S. João da Madeira’ ficou assim incluído no património material e imaterial da cidade, através de um catálogo que salvaguarda as memórias de Francisco Matos para as gerações futuras.
Preservar essas vivências e paisagens no imaginário coletivo tornou-se importante para o sanjoanense, que deu como exemplo um quadro que ilustra o momento da comunhão solene. “Naquele tempo, era uma pobreza tremenda; as pessoas eram chapeleiros ou sapateiros e não tinham dinheiro para comprar muita coisa. Na altura da comunhão, as meninas iam com um vestido branco emprestado e os meninos usavam um fato de adulto, como aconteceu comigo. O fato dos meninos era desmanchado, digamos assim, e os meninos iam todos contentes com aquilo”, contou Francisco Matos. “Antes da procissão, dava-se o pequeno-almoço – café com leite e pão com manteiga – às crianças. O que acontecia era que, quanto mais depressa bebessem o café com leite, mais depressa as suas chávenas eram enchidas novamente; como a fome estava presente na altura, toda a gente bebia com rapidez”, descreveu, lembrando-se de uma menina que, com a sofreguidão de beber o café com leite, acabou por virar a bebida no seu vestido branco. Francisco Matos trabalhava com peles para calçado e, após a tropa, começou a trabalhar por conta própria nessa área. Hoje em dia, o octogenário mantém-se ativo, esperando que as suas obras perdurem no tempo para que os momentos passados, comuns à maioria das pessoas daquela época, não sejam esquecidos.
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