
Quando se fala na Festa da Cidade de S. João da Madeira, é difícil não pensar na procissão e, inevitavelmente, nos andores que enchem as ruas com cor, perfume e simbolismo. Por detrás desses arranjos florais, há trabalho, há fé e há mãos que os moldam com cuidado e intenção. Uma dessas mãos é Rosa Cardoso, florista que há 47 anos dá forma aos andores com arte e devoção.
Durante 30 anos, Rosa Cardoso, foi responsável pelos andores da Capela da Arrifana. “Fiz sempre, todos os anos. Mas há três anos deixei de os fazer como responsável principal. Devido a assuntos pessoais, tive receio de assumir uma responsabilidade tão grande e27 depois, no dia, não conseguir cumprir. Não podia correr esse risco”.
Ainda assim, a festa de S. João da Madeira continua a contar com a sua mão experiente. “Agora volto a fazer alguns para as festas da cidade. Perguntam-me sempre. E eu gosto. Já são muitos anos disto”.
A florista explica que o trabalho de ornamentação de um andor vai muito além do aspeto estético. “Cada andor tem de contar uma história. Seja uma pedra, uma flor... tudo tem de ter um porquê. Se alguém nos perguntar porque colocámos aquilo ali, temos de saber explicar.” E ainda, acrescenta: “Cada santo tem a sua história, e essa história tem de estar espelhada no andor. A imagem tem cor, tem simbolismo, tem expressão” e tudo o que rodeia essa imagem deve respeitar isso.
Há também uma evolução técnica que acompanha os tempos. “Há 30 anos, usávamos bolas de barro. As flores eram espetadas diretamente no barro. Hoje usamos esponjas florais, o que torna tudo mais leve. Claro que a esponja leva água, porque as flores precisam de se aguentar frescas durante a procissão”, contudo com o tempo, parte da água evapora e isso ajuda a reduzir o peso.
Mesmo assim, há desafios práticos. “Se no grupo de homens que leva o andor houver alguém mais alto, o peso vai todo para o mais baixo. Faz uma diferença enorme. É preciso equilibrar bem a altura e a força de quem o leva”.
Para Rosa Cardoso, a fé é inseparável do seu trabalho. “Sou católica praticante. Tenho muita fé na Nossa Senhora. Desde criança que é assim. E tudo o que faço com dedicação tem sempre um propósito ligado à fé.” Conta, por exemplo, que ornamenta há vários anos o andor da Senhora dos Milagres com hidrângeas. “São flores da época, nossas. E acho que ficam lindas com os tons de azul da imagem. Há uma harmonia ali que me toca.”
Outro exemplo é o andor do Santo Padre Pio. “Na nossa igreja não há imagem dele. Mas quando fui à canonização, trouxe uma réplica de São Giovanni. Depois pedi autorização para usar essa imagem na procissão. Não é da igreja, mas agora vai sempre na festa. E sou eu quem a veste e prepara.”
Ao longo das décadas, a florista viu mudanças não só nos materiais, mas também na forma como as pessoas se envolvem nas festas. “Nem todos os andores são feitos por floristas. Às vezes, são feitos por grupos ligados à igreja, por comissões de festas ou até por escuteiros. Mas há sempre quem recorra a floristas e cabistas para criar algo mais elaborado, mais pensado.” Nesse ponto, Rosa Cardoso salientou a importância do simbolismo retratado, acrescento que “não se trata só de fazer bonito. Trata-se de fazer com sentido.”
Hoje, aos 47 anos de dedicação à tradição, Rosa Cardoso não se vê a abandonar este ofício tão cedo. “Isto faz parte de mim. Não é só um trabalho. É um compromisso com a comunidade, com a fé” e com a história desta terra. E remata dizendo que “enquanto puder, vou continuar a fazer andores. Porque acredito que cada flor, colocada com amor e intenção, é uma oração silenciosa” que se oferece à cidade.
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