Sociedade

Festas de São João… na varanda

• Favoritos: 41


Nascida e criada em São João da Madeira, Carmen Silva vive há mais de 50 anos na cidade. Gosta bastante das Festas de São João e tem o privilégio de poder observá-las de sua casa, apesar de também se deslocar à rua para ver algum concerto, se assim o desejar. Em declarações ao jornal “O Regional”, recorda o São João de outros tempos. As memórias são de ruas cheias, multidões animadas e muitas marteladas na cabeça em quem passasse naquela rua. “Antigamente, havia mais gente e, por conseguinte, mais objetos tradicionais desta época; este ano, nem vi manjericos”, observou a sanjoanense. Diz que a tradição já não é a mesma. “Antes disto ser rua – era quase uma viela, com terra e muitos matos –, íamos com o alho-porro e o martelo para a estrada; lembro-me perfeitamente. Fui muitas, muitas, vezes”, enfatizou.
Agora, como descreveu Carmen Silva, as famílias vêm à festa na mesma, mas apenas para tomar um café, dar a volta ao recinto e andar nos carrosséis. “Comem umas farturinhas, vêm para cima… E está feito. Estou aqui, à janela, e não vi um único martelo”, declarou, referindo-se, inclusive, à própria noite de São João (de 23 para 24 de junho passado). “Quanto aos espetáculos, mediante o que está à disposição e refletido no cartaz, vamos escolhendo o que nos interessa ver ao longo dos anos”, acrescentou a sanjoanense. Foi assistir, na passada segunda-feira, ao concerto de Cuca Roseta. “É a única [artista] que gosto [da programação]”, admitiu, entre risos. Os netos de Carmen Silva, que também gostam do São João, juntam-se com os amigos e passeiam pelo recinto. “Vejo muita juventude; entre a meia-noite e a uma da manhã, vê-se muitos jovens entre os 14 e os 17 anos, que gostam de estar juntos e a conviver. Os familiares acabam por ir embora mais cedo”, considerou.
A vertente do entretenimento é fulcral nesta grande festa popular, aliada à vertente religiosa. “Nas Festas de São João, a procissão também é muito bonita. Este ano, achei que foi mal organizada; passaram os andores e eu, que sou católica, não conhecia metade dos santos. A maior parte não estava identificada”, lamentou Carmen Silva. Recordou que, antigamente, a procissão era ainda mais bonita porque mais crianças participavam ativamente. “Agora, as crianças ‘fogem’ das procissões… Começam a dizer que é uma ‘seca’; vejo isso pelos meus netos”, contou. No entanto, para a septuagenária, a vertente religiosa é a principal atração desta festa popular.

A visão dos sanjoanenses… da varanda

Há algo que incomoda profundamente Carmen Silva, assim como, segundo a própria, muitos residentes com quem fala habitualmente. “Nós estamos aqui, na varanda, a ouvir as marchas – que, já agora, foram impecáveis e repletas de gente”, exemplificou, adiantando: “Ouvimos a música da festa e, em simultâneo, a música das marchas. Ou seja, as músicas misturam-se e acaba por ser confuso. Quando as marchas estão a passar, a música da festa devia de parar.”
Apesar da mistura de músicas, a sanjoanense garantiu que o barulho, inerente às festas, não a incomoda especialmente. “Já estamos habituados. Adorava que, sempre que existissem atuações no Jardim Municipal, a música da festa parasse para conseguir ouvir bem aqui em casa”, admitiu, entre risos, apesar de saber que isso não seria viável para quem estivesse na outra ponta da festa e não a assistir aos espetáculos. “Vivo numa zona privilegiada em termos de visão para a festa; só não vejo os carrocéis”, disse, sem esquecer de mencionar a iluminação deste ano. “Inicialmente, achei que estava um bocadinho ‘pobre’. Depois, observei melhor e até transmite um efeito bonito para quem passa”, afirmou.

“Fico triste”

Ocasionalmente, Carmen Silva, do alto da sua varanda, repara numa ‘martelada’ entre as pessoas que compõem a multidão. Com pesar, declarou que a compra de brinquedos para os mais novos já não é tão vincada como no passado. Teme, até, pelos negócios dos próprios comerciantes. “Os comerciantes acabam por desistir, infelizmente. Antes, comprávamos um balão, um carrinho, um martelo… A tradição acaba por morrer um bocadinho sem este tipo de ações”, lamentou. Com nostalgia, recorda as ruas cheias, “como se fosse [a noite do] Porto”. “Fico triste”, reforçou.
Sempre fez a sua vida em São João da Madeira. Com 71 anos de vida, continua a gostar das Festas de São João, mesmo que estas já não sejam tão atribuladas e enérgicas como antigamente. Enquanto conseguir, vai continuar a assistir às festas da sua varanda, com uma vista desimpedida que lhe permite viver o espírito do São João sem sair de casa.

41 Recomendações
127 visualizações
bookmark icon