Sociedade

“Este comboio tem de ser tratado com mais respeito”

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Apesar das muitas reclamações, o Vouguinha continua a ser utilizado por muitos sanjoanenses, não só para se deslocarem à feira de Espinho, mas como meio de transporte, “mais barato”, para idas ao médico ou mesmo para quem estuda.

Chegou a horas à Estação de S. João da Madeira e, ao contrário do que parece ser a crença popular de que estará em decadência, a Linha do Vale do Vouga, entre Oliveira de Azeméis e Espinho, continua a ter grande afluência. Não só à segunda-feira, em que boa parte dos passageiros aproveitam a boleia do Vouguinha para uma ida à feira de Espinho, mas também no resto dos dias.
Este é um comboio de outro tempo, de carruagens velhinhas que circulam numa linha de bitola estreita. E mesmo que as condições de segurança e conforto deixem a desejar, ainda são muitos os sanjoanenses que continuam a recorrer ao Vouguinha. Seja para ir para a escola ou para o trabalho, enquanto o sonho de uma ligação direta à cidade do Porto continua a ser o desejo daqueles que o frequentam com regularidade.
Pouco depois das 10 da manhã, da última segunda-feira, cerca de 40 pessoas aguardavam, na estação desativada em S. João da Madeira, a chegada do comboio que trazia duas automotoras, ambas grafitadas, com capacidade de 50 lugares cada.
Matilde Barbosa, Beatriz Gonçalves e Ana Paiva são amigas e escolheram o último dia 22 para passarem umas boas horas na praia. “Este é para nós o melhor transporte para Espinho e mais económico. De autocarro é mais dispendioso e não temos grandes alternativas”, refere Matilde. Apesar de considerar que a viagem é de aproximadamente uma hora, mas “o tempo até passa bem porque vamos a conversar”, lamentando apenas o estado em que as automotoras se encontram, as carruagens vandalizadas, o que acaba por retirar a visibilidade para o exterior. ” Nós já nos habituamos a esta imagem, mas este comboio tem que ser tratado de outra forma, pois parece, na verdade, um monte de latas todo pintado. Este comboio merece mais respeito”, refere Beatriz. Por seu turno, Ana defende que “este meio de transporte é muito utilizado por pessoas que vão para o trabalho e por jovens estudantes” que encontram nele um transporte mais “económico”.
Fonte oficial da CP assegura que “a média de passageiros entre Espinho Vouga e S. João da Madeira, em 2023, rondou os 360 passageiros”, não avançando, quando questionada pelo ´O Regional’, com os números, nesse mesmo ano, de utilizadores que partem de S. João da Madeira.

O “Vouguinha”, como é conhecido o comboio da Linha do Vouga, faz este ano 117 anos e continua a atravessar paisagens únicas, de mar, de floresta e paisagens verdes, numa linha que foi inaugurada por D. Manuel II, durante a apoteótica viagem que fez ao Norte, pouco depois do regicídio.
Muito já se escreveu sobre esta linha e sobre este meio de transporte que tem sofrido avanços e recuos, mas parece continuar a ser um meio de transporte que reporta muito dos passageiros para “boas memórias” e, apesar de não ser o “mais confortável”, continua a ser escolhido por muitos passageiros.
Francisco Silva está de férias em Portugal e entrou na segunda carruagem em S. João da Madeira, na companhia da Mãe para passarem o dia em Espinho. Sempre que vem de França faz questão de viajar neste comboio porque, além das memórias que tem de infância, entende que este é um meio de transporte “familiar”, caracterizando mesmo “um encontro de partilha e convívio entre as pessoas que circulam neste comboio”, já que, “mal nos sentamos, conversamos uns com os outros. Novos e velhos, e isso não acontece, por exemplo, nos autocarros”, assegura.

Poderá ter acesso à versão integral deste artigo na edição impressa n.º 3990, de 30 de maio de 2024 ou no formato digital, subscrevendo a assinatura em https://oregional.pt/assinaturas/

 

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