Sociedade

“Éramos ‘abalroados’ por martelos!”

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A noite de São João é uma das mais aguardadas do ano e, por São João da Madeira, esta continua a ser procurada pelos residentes da cidade e, também, por pessoas de concelhos limítrofes. É difícil imaginar esta noite sem os martelos de plástico

Há 12 anos que o comerciante Quintino Ferreira vende os objetos típicos do São João na cidade de São João da Madeira. O negócio foi uma herança dos falecidos pais. Sempre foi feirante. “Fazia festas, feiras, vinha para o Porto, para aqui”, enumerou o comerciante, em entrevista ao jornal “O Regional”. “Sou de S. Roque e fazia todo o sentido participar nesta festa”, afirmou, acrescentando: “Este é um negócio imprevisível. Por exemplo, no ano passado, vendi os martelos todos. Costumo sempre trazer sacos pequenos, médios e grandes.”
Se, em 2023, Quintino Ferreira vendeu cerca de 220 martelos, este ano não teve a mesma sorte. “[foi] Fraco. Não há poder de compra; cada vez está pior”, lamentou. “O contexto social e económico influencia bastante”, reforçou. Até ao momento em que “O Regional” entrevistou o feirante, apenas 50 martelos tinham sido vendidos. “Em relação aos anos anteriores, as vendas estão aquém do desejado”, comentou.
Apesar de achar que os jovens continuam a perpetuar as tradições de São João, Quintino Ferreira considerou que estas estão a “deteriorar-se” ao longo do tempo. “As empresas estão a fechar; o setor do calçado está de rastos. É claro que, depois, as pessoas não têm poder de compra”, opinou. “Muitas pessoas que visitam as festas ou estão no fundo de desemprego, ou com o rendimento mínimo, ou de baixa. É normal que não comprem tanto”, observou, acrescentando: “Estas festas pagam a fatura dessas consequências.”
A escolha do martelinho
Foram vários os grupos de jovens e famílias que, observando as tendas da festa, perguntaram aos comerciantes o que tinham e qual o valor de cada item. Foi o caso de um grupo de jovens que, junto a Quintino Ferreira, observou os vários martelos de plástico à disposição. Raúl Silva, natural de Oliveira de Azeméis, tenta, sempre que pode, vir à noite de São João com os amigos. Há mais de três anos que a frequenta. “Não sei se é por não ter fogo-de-artifício, mas, hoje [domingo à noite passado], notei menos pessoas na festa”, considerou Raúl Silva. “Mesmo assim, quem é de cá vem na mesma; acho que não compensa tanto ir ao Porto, até porque lá existe mais população e a confusão é, naturalmente, maior. Aqui é melhor”, afirmou.
Para o oliveirense, andar na noite de São João na cidade é mais “seguro” do que em outras festas populares, como o caso do Porto. “Eu diria que é uma noite pacífica. O convívio é bom, as pessoas são simpáticas e estão todas na brincadeira; é um bom sítio para frequentar, mesmo que a tradição dos martelos, por exemplo, já não seja a mesma”, apontou, recordando uma noite de há três anos, em que Raúl Silva se lembra de ter visto mais pessoas na folia com este objeto tão característico do São João. “Honestamente, não sei porquê. Não sei se é porque as pessoas já não se dão ao luxo de gastar dinheiro nisso, até por causa da situação financeira”, completou.
Joana Gonçalves ia comprar um martelo, mas acabou por não o fazer. Não tinha na cor que queria. “Comprei [martelos] há dois anos, nestas mesmas festas. Tento nunca falhar a estas festas”, contou a visitante. Não se lembra da primeira vez que veio à noite de São João na cidade, mas, graças aos avós, desde muito jovem que essa tradição lhe foi passada. “Os meus avós moram muito perto daqui e começaram a incutir-me, digamos assim, esta tradição. Sempre gostei muito da folia dos martelinhos; na altura, via-me muito o enxofre, o que era muito engraçado”, recordou. Das memórias que Joana Gonçalves guarda da noite de São João, vem-lhe à mente uma multidão de folia. “Antes, a cada cinco segundos, éramos ‘abalroados’ por martelos!”, contou, entre risos.
Em relação à própria programação das festas, Joana Gonçalves acrescentou que não considerou o cartaz como sendo o mais apropriado para as camadas jovens. “É claro que quem gosta das festas da terra vem na mesma, mas, secalhar, vêm por causa dos divertimentos e não por causa dos concertos. É importante chamar artistas que cativem os mais velhos, mas, em simultâneo, também tem que se pensar nos jovens”, opinou. Apesar de tudo, Joana Gonçalves garante que gosta da noite de São João e das festas na cidade. “Vou continuar, sempre, a vir cá. É muito divertido e sinto-me bem acolhida”, declarou.
A opinião de outro jovem, Filipe Amaral, vai ao encontro do referido por Joana Gonçalves. “Gosto de visitar as barraquinhas todas e do convívio, principalmente. Já gostei mais dos martelinhos e, realmente, antes as pessoas participavam mais… Acho que já não há tanto gosto em fazer isto”, observou. “Olhamos à nossa volta e vê-se pouca ação nesse aspeto”, afirmou. Se, antes, qualquer pessoa podia ser ‘vítima’ das marteladas de São João, Filipe Amaral acrescentou que, atualmente, as pessoas já não brincam tanto com estranhos. “A vida está difícil para todos e isto pode desanimar as pessoas”, considerou.
Gonçalo Santos e Maria Carreira também gostam da noite de São João na cidade, também instigados pelas tradições familiares. “Para mim, a tradição é vir em grupo a esta festa. Não estou ligado à tradição dos martelinhos e às folias do São João, mas não deixamos de frequentar esta festa popular”, admitiu Gonçalo Santos. “As pessoas são novas e as tradições acabam por se adaptar à atualidade. As pessoas perpetuam isto, de uma forma ou de outra, para estarem juntas nesta noite”, afirmou.
Para Maria Carreira, a hipótese de optar pelas festas populares do Porto esteve fora de questão. “Seria longe, em véspera de dia de trabalho, enquanto que, por São João, é mais calmo e as pessoas não estão ‘amontoadas’; prefiro assim”, justificou. “Em relação à tradição, ela prevalece de alguma forma. A minha mãe é educadora de infância em São João da Madeira e os miúdos já estão, desde o infantário, com esta temática”, partilhou, comentando que são as crianças que motivam os familiares a participarem nesta festa popular. “A tradição mantém-se através dos mais novinhos”, concluiu, confiante.

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