
Anabela Canhola, diretora de Urgência do CHEDV, reconhece, que foi “emocionalmente muito difícil gerir” os serviços na altura crítica da pandemia, até porque o Centro Hospitalar entre Douro e Vouga foi das unidades com maior taxa de esforço no país.
Ser diretora da urgência é um desafio ou uma grande responsabilidade?
São as duas coisas. Um desafio, porque os dias no Serviço de Urgência são todos diferentes, mesmo sem o contexto do coronavírus, um desafio e uma responsabilidade muito grande para os profissionais e para esta equipa composta por 150 médicos e para toda a população que servimos. Neste momento, posso dizer que temos duas situações distintas na urgência. Uma pandemia que está a diminuir e o antigamente a voltar.
Qual foi a principal estratégia na urgência face a este contexto de pandemia, uma vez que o CHEDV gere ainda os hospitais de S. João da Madeira e de Oliveira de Azeméis?
Mal nos apercebemos da gravidade e de todas as medidas que tínhamos que tomar em termos de isolamento e procedimentos, tentámos, de imediato, centralizar todos os doentes covid na unidade sede do Centro Hospitalar, para que não fosse necessário dividir recursos. Essa foi a nossa maneira de estar, na altura.
Os tempos de espera em alguns hospitais chegaram a ser superiores a seis horas para os casos considerados não graves. Como foi na urgência da Feira?
Não tivemos praticamente tempo de espera. Há um ano, as pessoas não acorreram ao serviço de urgência com medo de ficarem infetados. Nessa altura, passamos para um terço dos nossos atendimentos, mantendo a equipa base. Todas as pessoas que vinham sem patologia covid eram rapidamente atendidas. Foi possível cumprir sempre os prazos legais de atendimento.
E as que chegavam com covid ou com suspeita da doença?
Também eram [atendidas], porque tínhamos as equipas dedicadas para os doentes covid e uma outra para os restantes doentes.
Mas o cenário acalmou no verão passado…
É verdade. Voltamos a uma certa normalidade, em que o número de doentes não covid foi crescendo. Tínhamos duas urgências distintas. Uma para covid e a outra para não covid, que funcionaram sempre muito bem.
Mas o cenário mudou nos primeiros meses deste ano, em que os números dispararam em Portugal e na região?
Completamente. Foram meses muito complicados com os números diários de infeções a aumentarem. Pedimos mesmo ajuda e transferimos muitos doentes graves para hospitais que contratámos. Em janeiro, tínhamos o hospital completamente cheio de doentes muito, muito graves. Fomos dos hospitais do país com maior taxa de esforço, e isso fez com que tivéssemos de pedir ajuda a hospitais da ARS Norte.
Isso quer, então, dizer que um doente com outro tipo de patologia tinha razões de queixa quando chegava às urgências, não só pelo tempo de espera?
Nós temos duas equipas completamente diferentes. A equipa não covid, que gere os seus doentes e o seu espaço. E a equipa covid, que faz precisamente a mesma coisa. No fundo, tenho duas urgências a funcionarem neste momento. São duas equipas distintas que trabalham na mesma urgência, e que vão intercambiando, porque o trabalho dentro da área covid, mesmo com poucos doentes, e pelo facto de estarem num ambiente fechado, com equipamento de proteção, máscara, luvas, fisicamente é muito cansativo. As equipas vão-se revezando e gerindo. Não há motivos para alguém reclamar pelo tempo de espera.
Mas sentiu que muitas pessoas tinham receio em frequentar o meio hospitalar?
Estamos, agora, a receber pessoas que tinham queixas, e noutra altura teriam procurado os cuidados de saúde e isso, na verdade, não aconteceu.
Os doentes crónicos e oncológicos tinham medo de serem infetados e, por isso, não vinham ao hospital. Na urgência da Feira, antes do covid, tínhamos 350 admissões por dia. Em abril de 2020 só tivemos 79, e isso faz toda a diferença. Neste momento já estamos nas 300 entradas. Eu compreendo esse medo. Ninguém sabia de nada relativamente a este vírus e a mensagem que passava, e muito bem, era para que as pessoas ficassem em casa. O medo é uma coisa terrível que nos limita muito.
Já disse que a situação está, por agora, mais controlada nas urgências. Como foi gerir este dia-a-dia no serviço de Urgência?
Não foi fácil. Nós passámos de 2020 para 2021 cheios de esperanças, achávamos que esta pandemia e os problemas ficavam para trás. E não foi o que aconteceu. Levámos um choque de uma avalanche de doentes covid. A equipa estava sem férias, encontrava-se muito cansada e emocionalmente é muito difícil. Não foi fácil pedir a estes profissionais, que tinham dado tudo um ano inteiro, para repetir todo esse esforço. Tenho a sorte de ter uma equipa coesa, muito esforçada, que trabalha muito bem, e que nos conhecemos muito bem, porque passámos mais tempo no hospital do que em casa. Emocionalmente, foi muito difícil gerir a urgência na pandemia.
Artigo disponível, em versão integral, na edição nº 3843 de O Regional, publicada em 13 de maio de 2021.
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