
Quase 2600 utentes das duas unidades de saúde familiar de São João da Madeira vivem com diabetes – patologia que progride de forma discreta e apenas costuma revelar sinais quando o quadro clínico já ganhou gravidade.
A diabetes é descrita como uma doença “silenciosa” que “só dá sinais quando já é demasiado tarde”. A caracterização é recorrentemente exteriorizada por especialistas que acompanham o impacto global desta patologia, que afeta cerca de 830 milhões de pessoas em todo o mundo. No Centro de Saúde de São João da Madeira, as duas unidades de saúde familiar acompanham aproximadamente 2575 doentes diabéticos – indicador que, segundo profissionais do setor, acentua a pressão sobre os cuidados primários.
A prevalência nacional atingiu, em 2023, o valor mais elevado de sempre – 14,2% da população –, de acordo com o Relatório Anual do Observatório Nacional da Diabetes “Diabetes: Factos e Números”, divulgado pela Sociedade Portuguesa de Diabetologia. O documento sustenta que persistem níveis elevados de subdiagnóstico e atribui parte desse cenário à falta de integração dos dados provenientes do setor privado.
Carlos Moreira, médico coordenador da área da diabetes na USF Vale do Vouga, realça que os números locais seguem a tendência nacional. Na sua unidade há 1240 doentes em vigilância e, na USF São João, os responsáveis indicam 1335 pessoas acompanhadas. O clínico fundamenta que a doença tem aumentado de forma progressiva nos últimos anos, tanto em São João da Madeira como no país, e afiança que “fala-se que, em 2050, a diabetes poderá assumir proporções quase pandémicas”.
O médico enfatiza a necessidade de reforçar os cuidados alimentares. Sublinha que os hábitos têm mudado – “estamos a perder um bocadinho da dieta mediterrânica” – e associa esse padrão à fast food, à obesidade e ao sedentarismo. Notou que “as pessoas, adultas e jovens, estão cada vez mais paradas”, ao contrário de décadas anteriores, quando a atividade física diária era mais expressiva. Afirma que os números das duas ULS se alinham com os valores registados a nível nacional.
Sustenta que a doença é mais frequente em pessoas idosas, dado que a idade aumenta a probabilidade de desenvolvimento destas patologias, embora lamente o aparecimento crescente de casos em pessoas muito jovens.
Questionado sobre falhas no diagnóstico, rejeita essa leitura. “Não falo em falhas. As próprias pessoas estão mais atentas e nós temos melhorado muito no diagnóstico e no controlo da diabetes”. Explica que a USF dispõe de oito médicos e que todos realizam consultas de acompanhamento aos seus utentes. O plano de vigilância prevê, no mínimo, duas consultas anuais – uma médica e outra de enfermagem – ajustadas ao controlo clínico de cada pessoa.
Essas consultas incluem análises específicas à glicemia, bem como avaliação do colesterol, tensão arterial, peso e perímetro abdominal. É também realizada observação dos pés, considerada essencial para prevenir complicações como o pé diabético. O clínico reforça a importância de contrariar o sedentarismo e de melhorar a alimentação, não apenas para prevenir a diabetes, mas também outras doenças associadas.
“A prevenção é sempre o melhor remédio”
Assinala a interrupção dos rastreios anuais de retinopatia, anteriormente assegurados por uma equipa da ARS Norte. “Não sei o que se passou, mas isso deixou de ser feito e era muito importante”, refere. Recorda que, há cerca de dois anos, foi transmitida a possibilidade de retomar o rastreio, que era realizado com recurso a um retinógrafo deslocado para a unidade. Até que tal regresso ocorra, qualquer suspeita é encaminhada para consultas de oftalmologia.
Quanto à distribuição da doença por género, indica que há mais mulheres do que homens com diabetes, embora a diferença não seja muito expressiva. Considera que as mulheres “procuram” mais cuidados de saúde e aderem melhor às consultas.
Conclui sublinhando que as complicações da diabetes são, sobretudo, de natureza cardiovascular, envolvendo tensão arterial, colesterol e outros fatores associados, e enfatiza que “a prevenção é sempre o melhor remédio”.
A Junta de Freguesia de São João da Madeira retomou, em outubro de 2015, «A Picadinha» – iniciativa criada para apoiar moradores dos bairros sociais no controlo da tensão arterial, glicemia, colesterol, apneia do sono e na realização de ações de sensibilização. O serviço decorre mensalmente na Biblioteca da Junta de Freguesia, em Fundo de Vila, em colaboração com a Escola Superior de Enfermagem de Oliveira de Azeméis, que disponibiliza dois estudantes de enfermagem para os rastreios.
Recorde-se que, em 2004, foi criada a «Associação Aprender a Viver com Diabetes», que durante vários anos manteve atividade, “entre altos e baixos”, mas acabou por encerrar devido à falta de apoios e ao reduzido número de sócios.
O relatório do Programa Nacional da Diabetes referente a 2025 indica que os 936.987 utentes com diabetes tipo 1 e tipo 2 registados nos cuidados de saúde primários representavam 8,9% das pessoas inscritas no Serviço Nacional de Saúde no final de 2024. A Direção-Geral da Saúde recorda que o Programa Nacional para a Diabetes sofreu diversas reformulações na última década e passou, em 2012, a integrar o grupo de Programas de Saúde Prioritários – movimento que a autoridade de saúde fundamenta com o impacto crescente desta doença crónica na população portuguesa.
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