
Jornal O Regional – É atualmente Diretora de Informação e Programas do Porto Canal. Assumir funções de coordenação e de direção tão jovem e sem experiência anterior nesses cargos, que desafios lhe colocaram?
Daniela Assunção – O maior desafio neste tipo de cargos de chefia, mais ou menos intermédias, é sempre gerir pessoas. Gerir pessoas implica estar apto para gerir várias vidas: com filhos, com pais, mães ou avós. Gerir e fazer conciliar, tentando o equilíbrio (quase perfeito) de conciliar as vidas profissional e pessoal. Não queremos ter alguém na redação ou na produção descontente, porque isso reflete-se no trabalho, trabalho que é para fora, para os outros e que obriga a alguma empatia e tranquilidade. Portanto, é importante que as vidas todas estejam alinhadas.
Como é que tem sido a experiência?
Tem sido uma boa experiência. Na altura, quando fui convidada, a primeira questão que me assolou foi “Será que consigo?”. Mas, como em tudo na minha vida, sou de me propor e depois considerar, ponderar e fazer balanços.
Já se passaram cinco meses, e tem sido uma experiência diferente e muito enriquecedora, sobretudo porque estava já confortável como coordenadora geral de informação. Já geria bem os jornais, convidados e emissões especiais. Aceitar o cargo de direção foi “adotar” também o entretenimento. Uma experiência nova, que fez com que eu saísse da minha zona de conforto, que voltasse a fazer pesquisa e reconhecimento da área que via, mas que desconhecia com profundidade.
Que futuro gostaria que o Porto Canal tivesse?
Um futuro de consolidação de crescimento do caminho que temos vindo a trilhar ao longo destes 18 anos.
Cresceu em S. João da Madeira. Como foi crescer nesta cidade? Que memórias guarda dessa fase da sua vida?
Foi crescer em liberdade, em S. João da Madeira. De andarmos na rua, depois da escola, para irmos à Praça ou ao Jardim da Cidade. Das festas na cidade e do canguru que até hoje, fica “hospedado” no mesmo lugar. Das marchas populares ou dos carnavais que terminavam no estádio Conde Dias Garcia.
Memórias de amizades que se mantêm até hoje. Memórias da escola, do baile de finalistas e das festas no secundário.
A recomendação da psicóloga escolar terá sido decisiva para a decisão de seguir jornalismo. Lembra-se do momento em que percebeu que este poderia mesmo ser o seu caminho?
Lembro-me de entrar no gabinete da psicóloga, certa de que queria ser professora de Inglês e Alemão, mas de saber que isso me ia separar da minha melhor amiga, que queria seguir comunicação.
Depois de responder a um questionário, no final, não restaram dúvidas: comunicação social era o caminho a seguir. E assim foi.
O 10º ano foi ainda de adaptação, mas depois adorei toda a componente prática que fomos conseguindo ter, ao editar vídeos e fazer reportagens.
Na reta final do secundário, decidi que era o Jornalismo que queria e candidatei-me apenas a dois cursos que tinham a vertente de Jornalismo.
Trabalhou na Rádio Voz do Caima. Foi uma boa escola?
Foi uma ótima escola. Começou como uma aventura, quando ainda estudava na universidade. Iniciei com pequenas intervenções, ao editar jornais, e, depois, rapidamente, e, durante alguns meses, fazia um programa de discos pedidos. Adorava. Senti que as pessoas esperavam por aquela hora para enviarem a mensagem a quem mais gostavam, e outras que só mandavam mensagem a agradecer a companhia.
Que papel reconhece aos órgãos de informação locais?
Olhando para o panorama da comunicação social, facilmente se percebe que há temas locais que passam despercebidos, e isso pode ser perigoso, sobretudo numa altura em que nas redes sociais se somam opiniões sobre tudo.
Os órgãos de informação locais são importantes para combatermos esse centralismo e esquecimento do que se passa nas comunidades locais. Como vamos escrutinar, se não tivermos conhecimento?
O jornalismo de proximidade ainda é uma mais-valia?
Acho que esta pergunta cabe também na resposta anterior. O jornalismo de proximidade, embora escasso, deve ser uma ferramenta essencial.
Primeiro, porque é o primeiro meio de ligação direta às comunidades, às vezes de caráter mais pessoal. Em segundo lugar, porque são fundamentais para o combate à desinformação. Estar mais próximo é também estar mais “dentro dos temas”, acompanhar de perto as fontes e evitar a falta de informação.
São também importantes para darem visibilidade a setores, acontecimentos e\ou pessoas que não cabem nos grandes órgãos de comunicação social. Funcionam também como fiscalizadores do poder local, que, muitas vezes, se imiscui da transparência que lhe é obrigada.
“Hoje em dia, são poucos os jornalistas que conseguem fazer jornalismo”
Se tivesse todo o dinheiro disponível e os meios técnicos e humanos necessários para produzir a informação e os programas que gostaria, em que apostaria?
Apostaria em programas de turismo e de notícias da região, mais viradas para os acontecimentos das freguesias (a festinha do pão, o simpósio da agricultura, etc.), e não tanto das cidades. Uma espécie de jornal local, com reportagens diárias com, por exemplo, o único morador de uma aldeia ou da festa da vila, com maior número de emigrantes.
Como olha para o jornalismo que é feito, hoje, em Portugal? E quais são os maiores desafios que a área enfrenta neste momento?
O maior desafio é fazer jornalismo. Hoje em dia, são poucos os jornalistas que, conseguem fazer jornalismo. Jornalismo é questionar e, às vezes, pouco ou nada se pergunta…pelos poderes invisíveis que existem, por desconhecimento…
Vimos, recentemente, na campanha para as últimas eleições, que poucas questões sobre o programa eleitoral foram respondidas. Gostava de ter visto, por exemplo, maior compromisso dos candidatos numa resolução para a VCI, ou respostas concretas sobre a passagem dos hospitais às Misericórdias ou até que projetos para a Linha do Vouga. Mas nada, ou muito pouco, foi dito sobre o assunto.
“Admito poder vir a experimentar novas áreas”
O que é que falta no jornalismo nacional?
Falta deixar de ser tão Lisboa. A região Norte e Centro podem não se ter apercebido, mas à exceção do Porto Canal, JN, rádios e jornais locais (que não têm agendas diárias) há poucos assuntos que merecem atenção na TV, rádio e imprensa escrita nacional.
Falo das televisões porque são a minha área. Basta reparar nos alinhamentos diários dos jornais das grandes TV’s e perceber que raro é o dia em que não são semelhantes. E, se estivermos a olhar com atenção para os locais das notícias, facilmente percebemos que grande percentagem anda à volta da grande Lisboa. Depois, segue-se o grande Porto, e raras vezes ouvimos falar de Bragança, Vila Real ou Chaves, a menos que aconteça uma tragédia. Esta é a marca que diferencia o Porto Canal, porque pode haver a Feira da Castanha de Valpaços ou a Festa do Alvarinho em Monção, é certo que vamos lá estar, para ouvir produtores e perceber como está o mercado, o setor e a região.
Perante os desafios atuais, vê-se ligada ao jornalismo no futuro ou admite poder vir a experimentar outras áreas?
Admito poder vir a experimentar novas áreas. Gosto da área das assessorias, o lado oposto ao do jornalismo. Por curiosidade, gostava de poder experimentar algo do género.
Já experimentou a docência...
Já lecionei, sim, aulas de Inglês nas AECS, no início do percurso profissional. Foi uma experiência diferente, gostei muito, mas não me via a dar aulas a vida toda.
Quais ou quem são as suas referências no panorama informativo nacional?
Na televisão SIC e SIC Notícias. Na imprensa escrita JN, Público, Eco, Negócios, Agência Lusa, Mensageiro de Bragança, Voz de Trás-os-Montes, O Minho e o E24… e, na rádio, ouço muito a Rádio Observador e a RR. Não posso esquecer de acrescentar o jornal centenário da minha cidade. O Regional, que leio todas as semanas.
Este é um meio saturado, considerando o número de jovens licenciados e as poucas ofertas de emprego em órgãos de informação?
Penso que já foi mais do que o que é. Quando saí da faculdade, em 2008, não havia vagas. Hoje em dia, com o nascimento frequente de rádios e TV’s, o mercado tem estado a mexer muito. Prova disso são os jornalistas a que vamos dando formação e que vão seguindo para vários canais nacionais.
Como lhe parece ser possível minimizar a precariedade e os baixos salários da profissão de jornalista?
Quando se perceber que fazer informação é sempre um custo e não gera lucro. Tem é que haver criatividade para se investir em áreas que, comercialmente, possam ser potenciáveis e que compensem, depois, o lado da informação que só acarreta custos.
Que conselho daria aos jovens estudantes de jornalismo ou de comunicação?
Diria que o jornalismo, e não comunicação, são coisas bem distintas, é uma profissão de futuro, desde que credível. Para isso, não podem deixar que se caia numa superficialidade de não estudar temas e assuntos, e se caia no erro de apenas “bons títulos” ou vídeos bem editados. Só isto já é meio caminho andado para que, depois, a liberdade de imprensa se mantenha.
Como tem sido a sua experiência em conciliar os papéis de mãe, mulher e profissional, e que estratégias tem utilizado para manter o equilíbrio entre estas diferentes áreas da sua vida?
Não é fácil, sobretudo porque trabalho a 50 km de casa, mas a regra é sempre manter o equilíbrio.
Nestes cargos temos de saber ao que nos propomos, o que ganhamos e o que podemos perder. Sabemos que vai ser necessário, de folga, responder a problemas de grelha ou a problemas técnicos, e que, rapidamente, o dia de folga se transforma em trabalho. Mas isto faz parte. A maior estratégia é ter um background familiar que serve de pilar para manter este equilíbrio. O meu marido e os meus pais são esses pilares que têm sido essenciais nesta gestão.
Sente que a sociedade portuguesa tem evoluído no apoio às mulheres que desempenham múltiplos papéis, ou ainda existem obstáculos significativos à conciliação entre vida pessoal e profissional?
Ainda existem alguns casos com resistência, mas penso que tem sido uma evolução natural.
Olhando para as gerações anteriores, houve uma grande evolução. Há um melhor acesso à educação e ao mercado de trabalho. Cada vez mais, as mulheres ocupam cargos de liderança e assumem papéis de destaque em várias áreas. A lei e as políticas públicas têm evoluído favoravelmente. Há uma maior sensibilização social para o papel da mulher na sociedade. Já não é só “do lugar na cozinha”.
Contudo, há ainda um longo caminho a fazer. As questões das desigualdades salariais é um dos exemplos, que dificultam mais e melhor a ascensão feminina. E, a somar a isto, a imagem da mulher perfeita, fomenta o estigma de que nós temos de ser competentes no trabalho, excelentes mães e cuidadoras, e ainda manter-se disponível emocional e fisicamente. Portanto, há ainda muito trabalho a fazer!
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