Sociedade

“A primeira fotografia publicada do 25 de Abril é minha”

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Alfredo Cunha, um dos fotógrafos que melhor eternizou o nascimento da democracia portuguesa, inaugurou, no Centro de Arte Oliva, a exposição e apresentou o livro “25 de Abril de 1974, Quinta-feira”.

É considerado um dos fotojornalistas portugueses mais conceituados. Aos 20 anos, Alfredo Cunha foi repórter fotográfico do jornal ´O Século´, em abril de 1974, e encontrava-se em Lisboa, onde fez uma das melhores reportagens da revolução. É de sua autoria a célebre fotografia de Fernando Salgueiro Maia, ícone do 25 de Abril, e de muitas outras fotos da revolução, que podemos ver na exposição “25 de Abril, 1974, Quinta-feira”, inaugurada no último sábado, dia 20 de abril, no Centro de Arte Oliva, em S. João da Madeira, e que tem patente 59 fotos e vídeos. Pode ser visitada até 16 de junho.
“Eu fui muito feliz há cerca de 50 anos e continuo a ser. Feliz no trabalho, com as pessoas que fui encontrando e fiz muitos amigos nesta profissão. O 25 de Abril de 1974 foi um dos dias mais felizes da minha vida”. E, nestes 50 anos, “não há dia que não me lembre desse momento, que representa o nascimento de uma utopia e da nossa liberdade. A primeira fotografia do 25 de Abril, publicada no jornal «O Século», é minha e isso é uma honra para mim”.
É desta forma que o fotógrafo Alfredo Cunha começa por comentar aos jornalistas, olhando para aquele que diz ser o maior retrato de sempre “da minha vida”, referindo-se à maior lona do pais exposta na fachada do edifício municipal de S. João da Madeira, que exibe a imagem icónica de Salgueiro Maia. Aí pode ver-se a fotografia do capitão, captada pelo fotógrafo e trabalhada pelo conhecido artista Vhils, numa tela com 19 metros de altura por 13 metros de largura. “Eu já fiz melhores fotos, mas esta é a foto, a magia e o sucesso da mesma é do Salgado Maia. Aquele olhar é de alguém com angústia e de incerteza, mas de muita determinação”, assegura.
A exposição, com curadoria de Aníbal Lemos, apresenta “uma visão multifacetada do evento histórico”, dividida em três partes distintas: “Guerra”, com texto de Carlos Matos Gomes, militar de abril e da guerra colonial; “Dia 25 de Abril”, com texto de Adelino Gomes, repórter que testemunhou os acontecimentos em Lisboa; e “Depois de Abril”, com texto de Fernando Rosas, historiador e protagonista destes anos de transformação e intervenções de Vhils sobre imagens icónicas de Cunha – para a capa e separadores.
O grande álbum de fotografia sobre o 25 de abril de 1974, pela lente do jornalista, tem o mesmo nome da exposição. “Inicialmente, pensei chamar-lhe viva a liberdade” também apresentado na sessão, dando o mote para uma explicação durante a visita sobre esta data histórica.
O autor da exposição e do livro assumiu ainda aos jornalistas que a escolha das imagens foi um processo “dificílimo” e que, ainda hoje, encontra imagens do seu vasto arquivo que, no seu entender, deveriam estar no livro ou mesmo na exposição.

Duas Nikon F de 24 milímetros e cerca de 40 rolos fotográficos

Há 50 anos, na madrugada de uma quinta-feira, o jovem fotógrafo, cheio de sonhos, foi surpreendido por um comunicado do Movimento das Forças Armadas. “Nós sabíamos que ia haver qualquer coisa por esses dias, uma vez que tinha falhado o 16 de março”. Os militares estavam na rua. Estava em curso um golpe militar. Saiu de casa e passou o dia a fotografar e a correr de um lado para o outro. Com duas Nikon F de 24 milímetros e cerca de 40 rolos fotográficos, Cunha conseguiu fazer, através das suas lentes, algumas das imagens mais icónicas do golpe militar liderado por jovens capitães e que derrubou quase meio século de ditadura.
Ser jornalista naquele momento era do “melhor”, porque estava tudo a acontecer. “O povo estava feliz, os soldados também, mas aquele foi, na verdade, um dos dias mais felizes da minha vida”, assumindo ter feito, ao longo da sua vida, “reportagens de guerra bem mais perigosas”, a foto do Salgueiro Maia é a “foto com alma e que me deu tudo”.
Na inauguração os presentes acompanharam o fotojornalista numa visita, que contou algumas histórias por trás de cada fotografia.

“Muitas das doenças eram uma fuga à guerra”

Jorge Vultos Sequeira, Presidente da Câmara Municipal de S. João da Madeira, aproveitou a inauguração para apelar aos sanjoanenses, mas, em particular, aos mais jovens para visitarem esta exposição. “Vão perceber que este dia foi maravilhoso, inicial, inteiro e limpo”. A imagem transporta os visitantes para um dia “histórico e que nos conferiu o maior período de liberdade”.
Para o curador da exposição, agora patente na cidade, é a “narrativa daquilo que aconteceu no 25 de Abril”. Aníbal Lemos encontrava-se, na altura, na Guiné, na sala de observações do hospital e só soube da revolução um dia depois, à tarde, quando um médico de serviço entra de pijama a gritar «revolução, revolução». “Sei que arranquei o soro e vim cá para fora também festejar, lembrando que muitas das doenças eram uma fuga à guerra”.

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