
Para fugir dos tradicionais exercícios para deficientes, há quem opte por deixar a cadeira de rodas e as muletas de lado e se dedique à musculação e a vários exercícios autonomamente ou com a ajuda de um personal trainer.
São 11 horas da manhã de uma sexta-feira. O carro de Anabela Ferreira é estacionado junto do ginásio, em S. João da Madeira, num lugar a ela destinado, um espaço que frequenta, em média, quatro vezes por semana.
Aos 62 anos, ainda acarreta marcas de uma poliomielite, quando tinha apenas três meses. “Esta doença deixou-me com uma grande incapacidade na perna esquerda.
A falta de força foi sempre o principal problema”, começa por assegurar a ´O Regional’.
As caminhadas e algumas rotinas diárias estiveram sempre condicionadas. “A determinada altura, os médicos disseram aos meus pais que já não havia nada a fazer e que esta limitação me ia acompanhar pela vida fora”. E assim foi.
Esta sanjoanense não se recorda de ter feito algum tratamento específico para que a doença, que herdou logo nos primeiros dias de vida, não lhe fosse tão pesada. “Eu cresci com problemas no andar, não fazia as tarefas normais como as outras pessoas” e a vida “ensinou-me a saber lidar com este problema, arranjando mecanismos” para não deixar de fazer aquilo que pretendia e para lutar pelos sonhos.
Atualmente, tem um carro de mudanças automáticas. “Estive mais de 20 anos sem conduzir. Tinha carta de condução, mas não carro”.
Com o aparecimento dos carros elétricos, a vida de Anabela Ferreira começou a mudar e este foi um primeiro passo para muitos outros desafios. E é nesta altura que entra para o ginásio. “Eu sabia que ia ter muitas pessoas a olhar para mim, a dizer o que é que esta deficiente anda aqui a fazer”, mas isso não pesou na sua decisão. Estava na hora de pensar em si, na sua qualidade de vida e de não parar e muito menos de se sentir diferente das pessoas que frequentam o ginásio. “Senti que o meu corpo estava a ficar pesado, o cansaço físico estava a aumentar e bastava caminhar dois minutos para ficar aflita”, tudo isto porque “tinha deixado de trabalhar e os meus dias eram sempre iguais”. Numa passagem pelo ginásio, apercebeu-se que este seria o ideal para si, uma vez que o acesso era fácil e tinha um acesso específico para estacionar a viatura.
Teve, durante algumas semanas, treino com um personal trainer, para perceber “como e o que fazer” no interior do ginásio. Depois deste conhecimento, Anabela era “dona de si mesmo” e passou a tratar as máquinas por tu. “Claro que os olhares iniciais das pessoas aconteceram, outras perguntavam se eu queria ajuda”, o que assegura ser normal. Mas rapidamente estava integrada no espírito desportivo. “Eu cresci com o olhar das pessoas em todo o lado. Na escola, na rua, na praia”. Mas, atualmente, aquilo que quer dizer a quem olha para si é que, “apesar de eu ser diferente, nada é impossível” e o ginásio não é só para as pessoas ditas normais. “Eu também já aqui ando há muito tempo e já aqui anda um jovem com deficiência a treinar a quem dei todo o meu apoio”.
Recentemente, uma queda provocou-lhe uma fratura no pé, o que veio agravar a qualidade de vida. Voltou a recorrer ao serviço de um PT. Na fisioterapia que é disponibilizada pelo Serviço Nacional de Saúde (SNS), “o tratamento é muito curto e temos sempre alguém já ao nosso lado que espera pela minha máquina”. No ginásio, “tenho uma hora, com várias máquinas e com alguém sempre ao meu lado”, assegurando preferir assumir as custas, em prol de uma melhor recuperação.
“Este comportamento aumenta a autoestima destas pessoas”
Cláudia Batista, preparadora física de Anabela, revela a ´O Regional´ que o grande desafio passou por a “motivar para tudo. Chegou aqui com muito medo”. E utilizar a passadeira foi o primeiro de muitos desafios. “Depois, fomos de etapa a etapa, fomos melhorando a respiração, a nível cardiovascular, trabalhámos para ganhar massa muscular na perna, onde tem mais fraqueza, e para perder um pouco de peso”. Este acompanhamento junto destas pessoas permite, ainda segundo esta profissional, “aumentar a autoestima”, o que aconteceu no caso de Anabela.
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