Ri tanto que cheguei muito perto de mim próprio

Ao nível das obras de crónica e reportagem, mesmo tratando-se de uma colaboração que aconteceu entre abril de 1971 e junho de 1972 no semanário Notícia, que se publicou em Luanda, esta coletânea de colaborações de Herberto Helder foi um incontornável acontecimento cultural de 2018: “em minúsculas”, Herberto Helder, 2018.
É bem provável que este rol de crónicas e reportagens tivesse caído no esquecimento, era a faceta obscura daquele que, depois de Fernando Pessoa, e talvez em ex aequo com Mário Cesariny, é uma das figuras supremas da lírica portuguesa do século XX. De certo modo, está aqui a sua curta experiência angolana, e o que ele escreveu no prestigioso semanário ilustrado de Luanda é já uma marca de água do seu estro, está aqui todo o seu olhar trocista, denunciador de mazelas humanas, o seu empolgamento por mistérios, o seu estar cá e estar lá, porque umas vezes passeia-se em Nambuangongo, outras vezes pelas diferentes ‘casas’ de Almada Negreiros, entre Lisboa e Bicesse, acima de tudo a sua construção e desconstrução das frases, uma alquimia que lhe era peculiar.
Há crónicas de muita paródia com vitríolo, o que ele diz sobre o jornalismo mais ninguém se atreveu a escrever, e estávamos na reta final do Estado Novo. Logo: “A literatura é a mais corrosiva das lepras jornalísticas. É querida dos frustrados que naufragaram nas redações da imprensa generosa”, imagine-se isto num texto sobre pescarias e pescadores. E com o mesmo à vontade, como se fosse um defensor dos consumidores, logo a seguir fala das andanças mal sucedidas de Manuel Joaquim Pereira que comprou um Mercedes-Benz em Munique, uma fraude completa, com muitos expedientes burocráticos na envolvente. Também não deixa em paz médicos negligentes, percorre atentamente mercados, fala no modo de fazer vinho e, a propósito de Hemingway observa o que distingue o jornalista do escritor, bem como os aproxima: “A matéria do jornalista é a mesma do escritor. Acontece, também, ser diferente a perspetiva. Trata-se de matéria bruta e viva aquela onde mexe o jornalista e lhe justifica o estilo. O escritor, não raro, vai até ao mundo por ínvios caminhos, e o seu estilo ganha as sinuosas complexidades dessa relação com os factos e os acontecimentos”.
Dentro da sua veia parodística, recorda uma frase que fez o seu tempo, quando os livros traziam páginas lacradas, os editores punham uma advertência como esta: “Se o livro estiver todo aberto, rejeite-o, pois é indício de que já foi lido. Defenda a sua saúde não manuseando livros usados”. E para não perder tempo, já que não tem pés nem cabeça a transmissão de doenças infectocontagiosas a remexer papel, termina assim a sua crónica: “De guilhotinas precisavam eles, esses editores infectocontagiosos”.
Mesmo publicando em Luanda, entrevista em Lisboa, como o fez com Carlos do Carmo, e foi de Lisboa, principalmente, que nos deixou um dos mais espantosos textos que se escreveram sobre Almada Negreiros, a quem lhe atribui três casas simultâneas: uma em Lisboa, que até tinha televisor, livros, poltronas e sofás, outra que não era bem casa mas um ateliê onde, debaixo de poeiras calmas, respirava manuscritos e desenhos e a terceira em Bicesse. “Quem não apanhasse todas ficava na mesma situação de quem não apanhasse nenhuma. Porque o que era preciso era entender o sistema do jogo, o sentido que havia ali nas bolas centrífugas”. Segue-se o seu preito de homenagem, fora Almada Negreiros quem lhe ensinara a intimidade da revista Orpheu, “com a mansamente minuciosa loucura de Fernando Pessoa, a vitalidade esmagadora de Amadeo de Souza-Cardoso, a brusca e fermente passagem de Sá-Carneiro, a esquizofrenia luminosa de Ângelo de Lima, a alarmante e divertida pirotecnia de Santa-Rita Pintora. O retrato de Orpheu feito por ele faiscava de uma ponte à outra. A gente percebia tudo o que se tinha passado. E passara-se alguma coisa muito importante”.
Fará recensões sobre a poesia de Jorge Luís Borges, a história trágico-marítima contada por Bernardo Gomes de Brito, evocará com emoção as cartas de José Bação Leal, dirá que Luanda era um cabaré, recordará partidas de futebol, visitará teatros da guerra colonial angolana, a sua crónica “Os Domingos de Nambuangongo” é uma peça antológica. De todas as entrevistas haverá uma inconfundível, é já um certo jogo de espelhos por onde se espraiará uma boa parte da sua obra poética, é a entrevista que fez a Nelson Ned, Herberto Helder foi ouvi-lo no cinema Império, e assim descreve: “A voz – forte, bem modulada, treinadíssima, invade o espaço, bate naquela massa sentada. Uma voz que infatigavelmente narra o amor e a solidão. E talvez as pessoas principiem a deixarem romper, através de camadas ressequidas, o fervor, o medo, o desejo, o desamparo secretos. Comovem-se. Por momentos, o pequeno cantor ganha. Nele, cada um se consola, se ama, se compadece de si mesmo. Não é piedade, não. Não é piedade por aquele que canta. É a um pouco aterrorizada piedade que cada um tem por si próprio”. Nelson Ned excede-se acima do homem com um metro de altura, quando confidencia: “Há quem pense que uma boa parte do meu êxito provém do facto de eu ter apenas um metro de altura e possuir a mesma tonalidade de um Tom Jones, por exemplo, que tem um metro e noventa. Não o creio. Não se trata aqui de um fenómeno curioso. Também não se trata de piedade. O público não sente piedade, nem que a deseje tão pouco. O público não ia aplaudir Ray Charles por ele ser cego. Aplaudia-o porque ele era um grande da música”.
E nada como nos despedirmos neste cronista que viu o seu trabalho interrompido por um terrível acidente que o recambiou para Lisboa, detetando o veio da sua poesia nestes textos aparentemente despretensiosos, só este fragmento, que nos recorda a sua poesia descomunal: “Elas parecem correr sobre linhas curvas, as cabeças. Podemos querê-las numa espécie de ilimitado palco, entrando por esquerdas altas, representado o antigo auto da fascinação. Obscuras razões fazem prevalecer, para além de uns lapsos de moda, a abundância da coroação pelos cabelos”.
De leitura obrigatória.

Beja Santos

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