Tenho mesmo de escrever – obituário –
Estava ainda digerindo o recheio do sucesso,
Usando de uma glória, ao desossar um entrecosto,
Da nascente poesia do primeiro livro impresso,
Quando ouvi a má notícia já era ainda sol malposto.
Partiu mesmo, mesmo agora, é a última caminhada
Do meu amigo Ribera, com noventa e oito anos;
Levou consigo o tempo, tempos, de rapaziada,
Foi-se o mais dos anciães, o príncipe dos decanos.
O entrecosto estacou quando era ingerido,
Não passou o estreito aberto, a boca que se abrira,
E um aperto de morte, no soluço desmedido,
Travou o garfo de súbito suspenso o acto assumido.
O momento de glória vivido ainda há momentos,
Diluiu-se no vazio, surgido do infinito,
o tempo de reação perdeu-se em sentimentos
de um amargo bilioso de rejeição, de maldito.
Adiantou-se na marcha entre os escombros por ser
Alguém que fez desta vida a razão para se existir,
Uma luz de bem estar, otimismo no viver,
Neste mundo nosso e dele, alegre sempre a sorrir.
Velha carcaça esta agora invólucro de uma alma amiga,
Atirada entre os ciprestes para os sepulcros de dor,
Vai iniciar a partida rumo as estrelas e nos diga
Se é mais uma viagem mas connosco ao de redor.
Parte em paz António amigo, mas espera algures nos céus
Pela nossa companhia e num só todos assim,
Sorrindo, ledos, felizes, a presença de um Deus
Onde de certo estará à espera no seu jardim.
F.S.L.
