Retrato de uma violência sem rosto

Ele ou ela é educado/a, atencioso/a, carinho/a, protótipo do companheiro/a perfeito/a, mas dentro de quatro paredes transforma-se?
Irrita-se com facilidade e tem acessos de raiva?
Ameaça, humilha, bate, manipula?
Repreende se fala? Repreende se cala? Repreende se faz e se não faz?
Não respeita a sua liberdade e dignidade?
Promove o seu isolamento, afastando-o/a da família e amigos?
Pede desculpa e promete que nunca mais volta a acontecer?
Lamento informar, mas voltará a acontecer. Acontecerá as vezes necessárias e suficientes à satisfação dos caprichos narcisistas daquele ou daquela que agride. Tantas vezes, aliás, demasiadas vezes, termina em tragédia, em morte.
Quem ama, quem gosta, quem cuida – não agride, não humilha, não limita a liberdade, o espaço e a dignidade do outro.
Quem ama, quem gosta, quem cuida – respeita.
Vivemos na era da tecnologia, assente no primado do telemóvel e do computador, regida pelas redes sociais, com ascendente no Facebook e no Instagram.
Numa sociedade oca e balizada por princípios invertidos, aquilo que importa é a imagem, a fotografia que capta o momento, a selfie que agarra a beleza.
Tantas vezes, demasiadas vezes, esta fotografia, esta selfie que se publica na busca de likes, encapota o retrato desta violência sem rosto que atravessa gerações, ignorando sexo, idade, classe social, orientação sexual, formação, religião ou credo.
A violência doméstica assenta em raízes culturais, sexistas, com traços narcisistas e apoiada na máxima popular – “entre marido e mulher não se mete a colher”. É precisamente nesta máxima que reside o cerne da questão. A violência doméstica é crime público. Quer isto dizer que, o procedimento criminal não está dependente da apresentação de queixa por parte da vítima, bastando uma denúncia ou o conhecimento do crime (notícia do crime), para que o Ministério Público promova o competente processo.
Neste sentido, o procedimento criminal inicia-se com a notícia do crime, e pode ter lugar através da apresentação de queixa pela própria vitima, ou da denúncia do crime por qualquer pessoa ou entidade, numa esquadra da PSP, posto da GNR, Polícia Judiciária, ou diretamente nos serviços do Ministério Público.
Assim, recai sobre nós, sobre mim, sobre si, o dever de denunciar toda e qualquer situação que consubstancie este tipo de crime.
A violência doméstica pode e assume várias formas, a saber: a violência emocional, a violência social, a violência física, a violência sexual, a violência financeira e a perseguição.
Em todos os tipos, o denominador comum é a manipulação, o controle, a humilhação e a subjugação, latente numa tríade comportamental: aumento da tensão, ataque violento e lua-de-mel.
Desengane-se se acha que a violência doméstica tem apenas como público alvo as mulheres. A violência doméstica é sofrida também por homens, por crianças e por idosos.
Seja pobre ou rico, iletrado ou doutorado, homossexual ou heterossexual, ninguém está livre de se ver envolvido numa relação com estes contornos.
Contudo, cabe a cada um de nós estabelecer limites, fronteiras e barreiras, porque as pessoas só vão até onde nós permitimos, só entram até onde autorizamos.
Há que dizer basta e sair do conforto desconfortável que é viver sob o astro da violência. Não será fácil, mas com toda a certeza não é impossível. Há sempre solução.
Espero que 2019 seja o ano de todas as concretizações e de todos os basta, especialmente para aqueles que vivem em permanente desassossego.

Sónia Resende

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