A nível nacional, o seu nome destaca-se entre os comediantes. Nesta entrevista, o sanjoanense Pedro Neves não foge às perguntas e vai direto aos assuntos. Em março, esteve 54 dias em isolamento, depois de ter sido contaminado com o coronavírus. O ex-presidente da Assembleia de Freguesia de S. João da Madeira entende que os sanjoanenses não se devem lembrar do seu trabalho, uma vez que não fez “nada de tão extraordinário”. Apesar de se assumir um social-democrata, entende que “o PSD vive um desnorte há vários anos” e, atualmente, não perde tempo com a política, que “deve ser sempre a prazo”. O antigo professor do ensino secundário é o único trainer português do Jack Canfield e garante que, por si, o Festival Gargalhão continuará este ano. Está agendado para a última semana de outubro.
Jornal ‘O Regional’ – Pedro Neves testou positivo para a Covid-19 em março. E esteve 54 dias em casa, sem sequer sentir febre. Que sinais tinha, afinal, para fazer o teste?
Pedro Neves – Fiz o teste porque o Fernando Rocha teve o cuidado imediato de me informar da sua situação. Como tínhamos estado juntos nos EUA, liguei para a linha Saúde24 a dar conta dessa situação e, imediatamente, recomendaram que fizesse o teste e ficasse em isolamento.
O pior dos sintomas que tive foi o de fadiga extrema. Durante bastante tempo não conseguia estar ativo mais de 5 horas por dia. Era um cansaço físico como acho que nunca vivi. Fiquei também afetado da minha voz. Aliás, perdi mais de um tom de voz com o Covid-19.
O Fernando Rocha tornou público que a recuperação “não foi nada fácil”. Como foi o processo de recuperação no seu caso?
Felizmente não sofri tanto como o Rocha. Ainda antes de regressar dos EUA, tinha tomado a decisão de ficar em quarentena 15 dias em casa (não vá o diabo tecê-las, pensava eu).
Como nunca tive febre, dores ou sintomas violentos, tomei a decisão de definir muito bem como passaria o pouco tempo em que me sentia ativo e usei esse tempo para criar conteúdos e colocar nas redes sociais. Só quando fiquei curado comuniquei ao público e as pessoas ficaram espantadas porque, como viam sempre vídeos meus, achavam que eu estava bem!
Tem noção de como se contagiou?
Não faço a mínima ideia e não penso muito nisso. Tinha feito vários espetáculos em Portugal para centenas de pessoas e estive num dos maiores aeroportos e numa das maiores cidades do mundo, portanto, pensar onde poderei ter apanhado o vírus é perda de tempo.
Isso quer dizer que a sensação de ter contaminado alguém não o acompanha…
Não, de forma alguma.
Que grande lição devemos tirar do impacto deste vírus no mundo?
Que é altamente democrático. Que atinge todos, ricos, pobres, remediados, de todas as etnias, dos países menos desenvolvidos aos mais desenvolvidos. Que rapidamente expôs toda a fragilidade humana, que faz com que nos possamos reinventar e que, no meio do caos, surjam exemplos incríveis de cidadania e superação.
“Foi duro estar 54 dias em isolamento”
A situação em Portugal parece estar a ficar controlada. Acha que as pessoas estão ainda a respeitar as normas da DGS ou grande parte já se esqueceu que o vírus ainda está entre nós?
Grande parte das pessoas está a cumprir. Quanto às outras… só se prova que o vírus mais difícil de combater é o da estupidez humana!
Acredito que vamos ultrapassar isto, mas não deixo de pensar que, se surgir uma segunda vaga no último trimestre do ano, teremos o colapso total da economia global.
No seu caso pessoal, e sendo um homem de afetos, como tem lidado com esta situação nos últimos meses?
Foi difícil. Foi duro estar 54 dias em isolamento, a 1500 metros de casa da minha mãe e não poder estar com ela numa altura em que é muito importante estarmos juntos (perdemos o meu pai há muito pouco tempo).
Quanto ao resto da família e amigos, as redes sociais e as videochamadas atenuaram a vontade de estarmos presencialmente. Os abraços passaram a ser virtuais, à distância, de forma muito higiénica!
A política foi sempre uma das suas grandes paixões. “Os políticos não conhecem a realidade do país”, disse recentemente numa entrevista. Porquê esta afirmação?
Porque é uma constatação. Os partidos de direita e centro-direita não fazem visitas a fábricas ou empresários que estejam em dificuldades e os partidos de esquerda parece que têm pavor às fábricas e empresas que demonstrem resultados e sucesso (conhecem todos, apenas, uma parte da realidade). Como pode um ministro da educação conhecer a realidade das escolas portuguesas se cada vez que visita uma a escola prepara-se de forma diferente para o receber?
Grande parte daqueles que nos representam não foram na vida outra coisa que não políticos e muito poucos são os que saem de Lisboa para vir conhecer o país real.
Quantos políticos passam férias em Portugal, sem ser no Algarve?
“Sou social-democrata mas o PSD vive um desnorte há vários anos”
O Pedro Neves diz ser social-democrata, o PSD é que não… explique-nos esta sua afirmação.
É tão real que não carece de grande explicação. Sou social-democrata, mas o PSD vive um desnorte há vários anos. Conheço muito bem a estrutura do partido e conheço grande parte dos rostos que estão na política nacional, em representação do PSD. Se, em alguns casos, não os queria a liderar uma distrital, como posso querer que governem o país?
No entanto, esta é uma realidade transversal à política portuguesa, não é só no PSD. Pecam todos pelo mesmo, salvo honrosas excepções.
Acha que os sanjoanenses ainda se lembram do Pedro Neves, presidente da Assembleia de Freguesia?
Espero que não! Tentei servir aquele órgão autárquico com a maior seriedade e profissionalismo, no intuito de lhe dar uma dignidade que raramente é reconhecida pela população.
Fiz o melhor que pude com os recursos de que dispunha. Fiz o meu trabalho e saí.
A política deve ser sempre a prazo. Não fiz nada de tão extraordinário que merece ser lembrado!
Fez uma candidatura na Fundação Gulbenkian e, ao que se sabe, a sua profissão não foi considerada como sendo um artista. Isto revolta ou confirma a sua visão?
Não foi bem assim, o que disseram, de forma ardilosa e sub-reptícia, esquecendo que sou de letras (risos), foi que o que fazia não se enquadrava naquilo que a Fundação entende como arte… foi mais ou menos isto!
Só confirma a “Lisbonite” a que continuamos sujeitos e a permanente demonstração de que acima do Homo Sapiens está o “alfacinha superior”.
Esta semana, as salas de espetáculos abriram com novas diretrizes. Concorda com elas?
Honestamente, só não concordo com a falta de coerência. Enquanto houver Festas do Avante nos moldes habituais e a mim não me for permitido atuar num espaço ao ar livre na minha cidade, não há congruência, muito menos seriedade. Enquanto (em 1000 mts2) só podermos ter 200 pessoas a assistir a um espetáculo com cadeiras livres entre elas e, ao mesmo tempo, os aviões poderem andar cheios de passageiros, estão a brincar comigo enquanto cidadão (que não come gelados com a testa) mas, pior que isso, estão a brincar com o meu ganha-pão.
Mas abriram tarde demais?
Não sei, isso não sei!
O que quer dizer quando afirma que os artistas devem reinventar-se e não estarem à espera de subsídios?
Que os artistas devem ser apoiados pelas instâncias governamentais sempre que tal realmente se justifique. Devem, sempre que possível, criar produtos/peças/espetáculos que sejam vendáveis e auto-sustentáveis e devem, em casos como o que estamos a viver, ser ajudados por todos.
Fiz mais de uma centena de espetáculos solidários, totalmente gratuitos, ao longo da minha carreira e nesta pandemia só duas das entidades que ajudei quiseram saber se eu estava bem e se necessitava de alguma coisa.
“O festival continua agendado para a última semana de outubro”
Como é que os humoristas se podem reinventar nesta fase, garantindo rendimento?
Produzindo novos conteúdos, apostando na sua notoriedade nas redes sociais, tentando alcançar públicos que tradicionalmente não são nossos, mostrando que não estamos parados nem adormecidos. Alimentando a nossa rede de contactos para que, assim que seja possível, estejamos na primeira linha de pensamento dos que nos contratam!
Em S. João da Madeira, a nível de programação cultural, o que se pode fazer para ajudar os artistas nesta fase?
O nosso município, nesta fase, aguarda as indicações do Governo para perceber de que forma pode dar seguimento à sua programação cultural, de que maneira pode adequar os espaços disponíveis aos espetáculos assumidos. Ajuda, ainda assim, se comprar mais espetáculos e produções locais.
A Festa do Avante, a realizar-se em setembro, é uma afronta para os muitos festivais que se viram impedidos de realizar?
Sim.
Que se faça o comício e a atividade política para os militantes, mas nada mais. Acima disso, é afrontar todos os que querem produzir eventos e espetáculos e não o podem fazer.
O Pedro Neves é o diretor e produtor do festival Gargalhão, que todos os anos se realiza em novembro na Oliva Creative Factory. Existem condições nessa altura para a realização deste evento, que reúne vários nomes da comédia num só palco? Ou vai ser adiado para o próximo ano?
Por mim o Festival Gargalhão continuará este ano. Tive tempo de o ajustar a esta nova realidade e já comuniquei ao município em que moldes o poderemos fazer. O festival de comédia continua agendado para a última semana de outubro.
Em abril do ano passado, foi convidado por Jack Canfield para ir a Los Angeles, nos Estados Unidos da América, gravar uma entrevista ao programa Hollywood Live, que depois foi transmitida na CNN, CBS, NBC, Fox e afiliados. Como é que surgiu este convite?
Eu sou o único trainer português do Jack Canfield e agradou-lhe o facto de ser uma pessoa que trabalha com empresas misturando ferramentas de desenvolvimento pessoal com muito humor e Stand up Comedy.
“O coaching ajuda a clarificar uma série de situações”
Tem vindo a fazer, desde 2013, várias certificações internacionais em coaching e programação neurolinguística. Aliás, em 2018, fez o Trainer Internacional com Jack Canfield. Como é que o coaching surge na sua vida?
Por culpa da minha mulher. Gostamos muito de aprender. Estudamos muito.
A Ana achou, em bem, que estava numa altura da minha vida em que precisava de aceder a mais e melhores recursos, que me permitissem alinhar a minha vida, estruturar o meu pensamento e criar novos horizontes. Fui com ela fazer uma certificação em PNL e isso mudou a minha vida.
Mas viu o coaching sempre como uma boa oportunidade de carreira?
Na altura não, mas hoje sim. Gosto muito de trabalhar nesta área com empresas, empresários e atletas.
Como é que este método pode ajudar na geração de resultados, por exemplo, dentro de uma empresa?
O coaching ajuda a clarificar uma série de situações e permite de forma muito eficaz melhorar a comunicação interna das organizações.
Quando bem trabalhado, permite uma extraordinária melhoria na performance dos colaboradores e, consequentemente, na performance da própria empresa.
Pessoas felizes e motivadas geram mais e melhor valor e o coaching pode ter um papel determinante na construção desta realidade.
Existem muitos empresários em S. João da Madeira abertos a este desenvolvimento pessoal nas empresas?
Não.
Vamos imaginar que entra numa fábrica onde o empresário tem já uma idade avançada. Como é que explica todas estas estratégias e o que faz para que ele possa acreditar no sucesso das mesmas?
Depende da intenção com que ele me chama à fábrica. Se esse empresário quer reunir comigo, já teve informações relativamente ao meu trabalho e, se ainda assim (depois disso) quiser reunir comigo, então estamos perante um empresário com uma mente muito aberta, com o qual não terei qualquer problema em conversar.
Que lugar ocupa neste momento o ensino na sua vida?
Neste momento só dou formação em empresas e faço algumas palestras em instituições de ensino superior. Já não dou aulas no ensino secundário.
Perdeu dois dos seus quatro heróis em apenas nove meses. O pai e o padrinho. Como é que se dá a volta à saudade?
Não dá. Aceita-se a perda e a dor vive-se com ela. Tomamos consciência de que nos lembramos deles muito mais vezes do que quando estavam fisicamente entre nós.
O meu padrinho deu-me mundo, o meu pai deu-me presença e ambos me deram muito amor.
Do muito que me deram sempre, tento passar ao meu filho estas duas pérolas que me deram, Mundo e Presença.
O slogan vá para fora cá dentro nunca fez tanto sentido, concorda?
Sim, mesmo.
As férias serão, este ano, na Serra da Estrela?
Obviamente. Em Folgosinho. Com piqueniques no Covão da Ponte e banhos de fim de tarde no Poção. Com a maravilhosa Gastronomia do Albertino, em casinhas de turismo rural, na aldeia de Viriato com um castelinho incrível, a preços tão baixos que a malta não sabe o que perde.
António Gomes Costa
