
Jornal O Regional – O que leva uma técnica administrativa a apaixonar-se pela política?
Joana Dias – A minha paixão pela política nasceu na adolescência. Ainda era estudante, percebi que muitos dos problemas que vivíamos na escola – desde a degradação das infraestruturas, a falta de recursos e a desvalorização da escola como espaço de formação cívica e humana – só poderiam ser resolvidos com vontade política e luta estudantil. Foi aí que comecei a desenvolver a consciência de que a mudança exige participação ativa.
Mais tarde, antes mesmo de ser técnica administrativa, tive a experiência de trabalhar na Habitar S. João, diretamente na área social da Câmara Municipal de S. João da Madeira. Aí, confrontei-me com realidades muito duras das pessoas pobres da nossa cidade. Isto marcou-me profundamente e reforçou o meu compromisso com a justiça social.
Entretanto, abracei o desafio da CERCI de S. João da Madeira, onde trabalhei no Lar Residencial e permaneci durante quase 19 anos. Nesse percurso, paralelamente, exerci funções como dirigente sindical, o que me permitiu acompanhar de perto os problemas laborais do setor social, dando voz aos trabalhadores e, a par deles, lutando por melhores condições.
A verdade é que estive sempre ligada à intervenção social e acompanhei, no terreno, as enormes dificuldades do setor social – desde a escassez de recursos à falta de reconhecimento profissional.
O meu envolvimento desenvolveu-se em várias frentes: enquanto adolescente na escola, enquanto mãe membro ativo de associações de pais e enquanto trabalhadora interventora social no sindicalismo.
A vida tem-me dado a convicção, cada vez mais clara, de que não basta assistir à realidade – é preciso intervir onde as decisões são tomadas. Por isso, abraçar a política foi um passo natural, coerente com o meu percurso e com a minha vontade de fazer a diferença. Tento estar com os pés bem assentes na realidade. Esforço-me por escutar sempre as pessoas.
O que motivou a sua candidatura à Câmara Municipal de S. João da Madeira?
Na CDU, as candidaturas surgem do debate coletivo. A nossa coligação, cujos ativistas são do PCP, do PEV e, em grande número, independentes, é um espaço de grande debate sobre a vida da nossa cidade.
Temos um compromisso profundo com a cidade, com as pessoas e com o serviço público.
Eu nasci, vivo e trabalho em São João da Madeira.
Conheço de perto a realidade das escolas, das instituições sociais, das famílias e dos trabalhadores.
Ao longo da minha vida profissional e cívica, estive sempre próxima das pessoas e dos seus problemas concretos. O meu percurso de vida deu-me uma consciência muito clara: muitas vezes, os problemas não se resolvem por falta de ideias, mas por falta de vontade política e coragem para agir.
Foi essa consciência que me levou a abraçar este desafio dos meus camaradas. No entanto, esta candidatura não é uma ambição pessoal – eu sou apenas o rosto de um projeto coletivo, com identidade, história e provas dadas: o projeto da CDU.
A CDU apresenta uma proposta séria, coerente e profundamente enraizada na vida da cidade – um projeto interventivo e ímpar, construído com base na proximidade à população, no respeito pelo serviço público e na defesa dos direitos sociais e laborais. Candidato-me porque acredito que é na política local que mais se pode transformar a vida das pessoas – com sensibilidade, trabalho sério e determinação.
É por isso que aqui estou: para dar corpo a esse projeto, para escutar, propor e agir. Porque São João da Madeira merece mais. E porque a CDU faz a diferença – com as pessoas e para as pessoas.
Afirmou que “não são políticos por profissão”. Como é que isso se traduz na prática do dia a dia autárquico? Qual será o papel da participação cidadã no vosso mandato?
Quando digo que não somos políticos por profissão, refiro-me ao facto de que todos nós, na CDU, temos o nosso trabalho, a nossa vida profissional e o nosso envolvimento na comunidade fora da política. No meu caso, venho da área social, do sindicalismo, das instituições – e é com base nessa experiência real que me apresento. Isso traduz-se numa forma diferente de estar na política local: com os pés bem assentes na realidade, com sentido de responsabilidade e com foco no bem comum – não em carreiras políticas. Estamos aqui para servir e não para nos servirmos.
Quanto à participação cidadã, para nós, não é só uma ideia bonita – é mesmo para pôr em prática. Queremos envolver as pessoas nas decisões que afetam a sua vida: ouvir as associações, os moradores, os trabalhadores, os jovens e os mais velhos.
Vamos apostar em reuniões descentralizadas, consultas públicas com sentido e em formas de participação acessíveis e próximas. E, acima de tudo, garantir que o que as pessoas dizem tem impacto real nas decisões.
Em resumo: somos pessoas comuns com vontade de fazer a diferença. E acreditamos que governar com as pessoas e para as pessoas é a única forma de fazer política com seriedade e com resultados.
A CDU tem defendido a habitação como um direito fundamental. O que distingue a vossa proposta de habitação económica e social das soluções que têm sido implementadas pelo atual executivo?
A habitação é um direito fundamental. Está perfeitamente assim estabelecido na Constituição da República. Entendemos que não pode ser tratada como um negócio especulativo, mas sim como uma necessidade social prioritária.
Por outro lado, não há varinhas mágicas para resolver este problema. As autarquias não têm verbas e o quadro legal onde se podem mover não é o melhor. O município tem que estudar soluções, mas nenhuma Câmara Municipal, só com os seus próprios recursos, poderá resolver o problema. A competência para construir habitação social é do Poder Central.
Queremos ampliar a oferta de habitação social, mobilizando o património municipal – nomeadamente imóveis devolutos – para criar soluções acessíveis e duradouras. É fundamental que as casas públicas sejam mantidas para quem realmente necessita e não vendidas, garantindo uma resposta concreta a quem enfrenta dificuldades. No passado, foram vendidas centenas de habitações. Estivemos anos sozinhos a denunciar este erro. Felizmente, no mandato de Ricardo Figueiredo, fomos ouvidos.
Além disso, a CDU aposta numa política de proximidade, onde as pessoas e as suas necessidades sejam ouvidas. Para nós, a habitação deve ser construída com a comunidade e para a comunidade, assegurando que as soluções são eficazes e adequadas à realidade local.
Contudo, sem a participação empenhada do Governo, não será possível resolvermos o problema.
Esta é a forma como queremos continuar a fazer a diferença em S. João da Madeira – com responsabilidade, compromisso e intervenção real no terreno.
A CDU também tem defendido a reabilitação de imóveis para habitação social e económica, como o caso dos antigos edifícios da PSP e GNR. Concretamente, que metas define para os próximos quatro anos em número de fogos disponíveis e como pretende garantir financiamento estável sem depender exclusivamente do Estado central ou de fundos europeus?
A CDU entende ser muito importante aumentar significativamente o número de fogos destinados a habitação social em S. João da Madeira. As iniciativas tomadas vão no bom sentido, mas para termos uma cidade onde se viva melhor, são precisas muito mais.
Estimamos que sejam necessárias, no curto prazo, 400 habitações de habitação social, para além do que está em construção – nomeadamente os edifícios da PSP e da GNR; as novas construções na Devesa Velha; as da antiga fábrica da Vieira Araújo; e as do gaveto da Rua Oliveira Júnior com a Rua Conde Dias Garcia.
O Município tem imóveis que podem ser reabilitados e/ou disponibilizados para habitação. Há no concelho muitas casas devolutas, propriedade privada, que, se houver iniciativa da autarquia e políticas do poder central adequadas, será fácil conseguir acordos com os proprietários.
O mercado imobiliário está a crescer, mas faltam habitações económicas a preços que alguns setores da população possam comprar. No passado, tivemos alguns bons exemplos – lembro a construção cooperativa e a construção a preços controlados.
A iniciativa e a vontade de progresso nunca faltaram aos sanjoanenses. Temos confiança no futuro!
Propõe também a redução do IMI para o mínimo legal e, em simultâneo, o aumento da derrama para o máximo legal para empresas com grandes lucros. Tem estudos que comprovem que esta mudança não levará à fuga de investimento ou à penalização de empresas que já operam no concelho?
A nossa proposta para a redução do IMI para o mínimo legal visa aliviar a carga fiscal sobre as famílias, tornando a habitação mais acessível e incentivando a fixação das pessoas no concelho.
Porém, não são só as famílias que pagam IMI. As empresas também pagam – por isso, também seriam beneficiadas. E mais: as empresas pagam derrama se tiverem lucros; se não tiverem, não pagam. Mas o IMI pagam sempre.
A nossa proposta é justa e equilibrada. É prática em muitos municípios – alguns deles próximos de nós. Para além de mais justa, é mais amiga das empresas!
Afirma que a SANJOTEC não é suficiente para garantir o impacto económico desejado. Qual é, então, a proposta concreta da CDU para potenciar o parque de ciência e tecnologia? Pretende expandi-lo, reformulá-lo ou criar uma nova estrutura? E com que modelo de financiamento?
A CDU sempre defendeu políticas que promovem a inovação e o desenvolvimento tecnológico, especialmente em áreas que beneficiem a comunidade local e regional.
Não há, da nossa parte, nenhuma posição negativa relativamente à Sanjotec, mas não embarcamos na posição de alguns que pensam que a Sanjotec é o alfa e o ómega do progresso económico. Não é verdade que assim seja.
A CDU pensa que temos que apostar em soluções diversificadas – e há necessidade de se apostar mais na indústria transformadora.
“O município necessita de falar mais com os comerciantes”
Fala em apoiar o comércio local e a indústria transformadora. Que medidas concretas propõe para esse apoio? Incentivos fiscais? Apoio à digitalização? Redução de burocracia? E como assegura que esses apoios não beneficiam apenas empresas já instaladas, mas também novos projetos?
A todas estas questões podemos dizer sim, mas não temos uma fórmula que responda a tudo. Repare que apoiar o comércio local é contraditório com a facilitação de grandes superfícies – e isso foi feito desmesuradamente nos últimos 25 anos. O município necessita de falar mais com os comerciantes, ouvi-los e, com eles, construir soluções.
Na indústria, há que ser facilitador. O espaço e as infraestruturas são onde o poder local pode ajudar. É com os industriais que cá estão que urge estabelecer diálogos – sem, contudo, esquecer quem eventualmente queira para cá vir.
Na questão fiscal, haverá alguma coisa a corrigir, mas não achamos que o poder central é quem tem que falar.
Um dos lemas da CDU é a “humanização da cidade”. Que políticas sociais concretas considera prioritárias para o próximo mandato?
Humanizar a cidade é um lema que nos acompanha desde as primeiras eleições locais em 1976. É uma preocupação que pomos em tudo o que fazemos.
A cidade conquistou, ao longo de 50 anos de democracia, um conjunto de soluções sociais muito valiosas. Estamos empenhados em defender o que foi conquistado. O Estado social é uma conquista do 25 de Abril.
Ouvimos ao longe o ruído das moto-serras neoliberais e as fanfarronices dos populistas. Dizemos: não passarão!
É fundamental continuar a apoiar as medidas sociais criadas, acompanhá-las com sentido crítico e melhorá-las. É preciso estarmos atentos às novas realidades!
A sua candidatura propõe uma cidade mais acessível e com maior mobilidade pedonal. Que medidas concretas pretende implementar nos primeiros 12 meses de mandato para melhorar passeios e acessos, sobretudo para idosos e pessoas com mobilidade reduzida?
A mobilidade pedonal da nossa cidade tem muitos problemas. O espaço do peão está inaceitável para o século XXI.
Entendemos que é preciso um mandato para lançar um plano municipal de mobilidade pedonal. É preciso começar quanto antes. Temos vindo a listar as situações mais urgentes, mas não completámos ainda a lista dos casos mais urgentes. Precisamos de melhores e mais passeios. É urgente deitar mão a este tema!
Considera que o TUS “funciona bem, mas pode ser melhorado”. Pode concretizar em que medida, com que investimento e para que número de utilizadores? E no que toca à ferrovia, que papel espera da Câmara num processo liderado pelo Governo e pela Infraestruturas de Portugal?
O TUS precisa de ser melhorado. Precisamos de maior frequência e que passe a mais sítios. Também precisamos que, de uma vez por todas, os autocarros sejam adequados.
A Linha do Vouga está há dezenas de anos à espera de soluções. É urgente que avance. Cabe ao Governo fazê-lo. Precisamos de aumentar a frequência das automotoras, melhorar o conforto dos passageiros com veículos modernos e eletrificar a linha.
Poluição do Rio Ul: “Não há só denúncias – há provas”
No que diz respeito à saúde, a CDU defende que o hospital local se deve manter no serviço público. Que ameaças identificam atualmente e como pretendem garantir esse compromisso? É a favor ou contra que a gestão passe para a misericórdia?
Sim. Sempre defendemos que o hospital se deve manter no serviço público. Sobre isso, a cidade não tem dúvidas. Por outro lado, não resistimos à tentação de lembrar que a CDU foi a única força política que, na Assembleia Municipal, em 2008, esteve contra a integração do nosso hospital no Centro Hospitalar Entre o Douro e Vouga.
O protocolo, aprovado em 2008 por todos os partidos com exceção da CDU, retirou a gestão de S. João da Madeira, fechou a urgência cirúrgica e transferiu as especialidades para a Feira. Passámos a ser um hospital satélite do hospital da Feira.
O exemplo de hospitais das misericórdias a prestar serviços ao SNS não é bom. Temos provas do que afirmamos. Não venham com as preconceituosas do serviço público agora acusar-nos de preconceito ideológico – o que dizemos é a realidade da vida.
A CDU é contra a atual gestão da água no concelho. Pode explicar porquê e o que propõe concretamente? A reversão para gestão pública é viável num mandato?
Convém lembrar que esta solução de vender 49% da empresa Águas de S. João ao parceiro privado teve o voto contra da CDU, do PS e do CDS. Parece impossível, mas é a realidade. Muitos já não se lembram.
Somos contra o atual modelo de gestão porque custa mais caro ao consumidor. Para além da água, pagamos um conjunto de extras (“fee de gestão”, rendas e dividendos) para sustentar o negócio.
Temos água pública desde 1952 e nunca precisamos de parceiros.
Agora, a reversão custa muito dinheiro. É preciso haver muita coragem para o fazer. Da nossa parte, achamos importante estudar a possibilidade de reverter o negócio.
Fala na ligação da população ao rio como uma questão ambiental e patrimonial. Que plano têm para a recuperação das margens do rio e para devolver esse espaço à cidade?
O nosso programa defende o prolongamento do Parque do Rio para jusante da ponte da Avenida da Liberdade. A lei impõe que as margens estejam acessíveis à passagem das pessoas. Assim era antigamente, mas deixou de ser. Isto não está certo. É preciso devolver esta parte do rio à cidade.
Há também denúncias de poluição. Que medidas concretas propõe para avaliar e combater essa situação?
Não há só denúncias – há provas. O município tem o dever de monitorizar com frequência a qualidade da água do rio. Defendemos isso há muitos anos.
O Jorge Cortez volta a candidatar-se à Assembleia Municipal. Qual será o papel dele, enquanto figura histórica do PCP, nesta candidatura mais alargada da CDU?
Contamos com ele. Esperamos que esteja connosco sempre!
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