Pandemia deixa 124 sanjoanenses no desemprego em março

Pandemia deixa 124 sanjoanenses no desemprego em março

Há mais de um mês que o país vive uma nova realidade imposta pela Covid-19. Escolas, restaurantes, centros comerciais e serviços públicos fecharam portas. Os hospitais tiveram que se reinventar. As pessoas foram obrigadas a ficar em casa. A pandemia não veio sozinha. Trouxe consigo incertezas quanto ao futuro e desemprego.

As primeiras notícias sobre um novo vírus identificado na China, em dezembro do ano passado, passaram ao lado, ou mesmo despercebido, a Manuel, de 48 anos. “Nunca pensei que algum dia chegasse a Portugal ou que fosse causar tantas alterações na vida das pessoas”.
Também nunca lhe passou pela cabeça que, meses depois, perdesse o emprego numa imobiliária justamente por causa do coronavírus. “Entrei em novembro para um novo desafio profissional e, como o ramo imobiliário também encerrou a sua atividade, fui dispensado, com a promessa de poder retomar logo que possível as minhas funções”, o que garante ainda não ter acontecido.
Manuel diz que teme o futuro. O seu futuro. “Não sei quando é que a economia vai voltar ao que estava em 2019. Apesar de esta semana já terem aberto alguns espaços comerciais, e até as do meu ramo, está tudo limitado a uma ou duas pessoas”, enfatiza.
Verónica Santos começou a trabalhar numa loja do Centro Comercial 8ª Avenida, em S. João da Madeira, no dia 18 de fevereiro. “Estava a correr tudo ótimo, tinha-me adaptado muito bem e o ambiente era incrível, mesmo sendo shopping”.
Nas primeiras semanas de março começaram a ouvir falar da Covid-19 e o assunto era recorrente entre os trabalhadores e alguns clientes. “As vendas estavam a diminuir. Não fazia ideia que ia ser mandada embora, mas foi a decisão tomada, uma vez que estava no meu mês experimental. No dia 17 avisaram-me que me iam cancelar o contrato”, uma situação que apanhou Verónica de surpresa.
Esta sanjoanense explicou a ‘O Regional’ que, no dia seguinte, o Primeiro-ministro, António Costa, ia falar aos portugueses, e “ainda tentei que não me mandassem embora, a ver se teria hipótese mediante as medidas que seriam impostas pelo governo. Não houve hipótese porque disseram que tinha de ser até ao final do mês experimental, que era no dia 18”.
José Lopes trabalhava numa pequena empresa e, apesar de desempenhar funções fixas, encontrava-se numa situação de falso recibo verde. No início de março, mal se começou a falar em encerrar temporariamente os negócios, “fui uma das primeiras pessoas a ser dispensada”. O relato foi feito a ‘O Regional’ por este jovem de 27 anos, que trabalhava numa empresa na Zona Industrial das Travessas, que fazia distribuição para várias zonas do país. “Não me deram grandes explicações para justificar o meu despedimento. Chamaram-me ao escritório e disseram-me que não necessitavam mais dos meus serviços”, realçando apenas que não estava em causa o “meu profissionalismo, mas a situação em que vivíamos no momento”, confidencia, acrescentando que, depois da sua saída, já mais dois colegas foram suspensos das suas funções e a empresa ainda se mantém encerrada.
Maria Rosa trabalhava a dias, a fazer limpezas em várias casas em S. João da Madeira. Sem qualquer tipo de contrato, recebeu a informação de “todos” que, enquanto a situação da pandemia não estivesse mais calma, “não me queriam lá em casa, para não correrem o risco de contágios”. Uma decisão que Maria diz até perceber, mas faz-lhe falta o dinheiro ao final do mês para pagar as contas. “As pessoas estão em casa e acabam por tratar das coisas”. Agora só pode contar com o ordenado do marido, que ficou reduzido, porque a empresa entrou em lay-off.
Numa altura em que a curva da pandemia parece estar a abrandar em Portugal, Maria não perde a esperança de, a qualquer momento, ser chamada por algum dos “patrões” para ir trabalhar. “Sei que vou ter cuidados redobrados, mas só quero ganhar algum para comer e pagar as contas”, enfatiza.

“Mandaram-me uma mensagem a dizer que as minhas funções ficavam suspensas”
Na casa onde Luísa (nome fictício) trabalhava, também a dias, cozinhava ao almoço e cuidava de um bebé de dois anos, a rotina também mudou sem ela contar. “Quando se começou a falar do vírus, tomei logo todos os cuidados. Deixava o calçado na entrada, lavava muito mais as mãos e desinfetava sempre tudo com álcool”.
Apesar de todos estas precauções de higienização, que decidiu implementar com o devido conhecimento dos pais do bebé, teme que o seu posto de trabalho, também sem qualquer contrato, possa ter chegado ao fim, com o aparecimento desta pandemia. “Mandaram-me uma mensagem de telemóvel a dizer que as minhas funções ficavam suspensas temporariamente, devido à situação da pandemia e que, mal seja oportuno, entravam em contato comigo. Não sei se isso, na verdade, vai acontecer, pois o bebé vai ficar certamente com os avós”, já que “não querem arriscar o contato”.
Luísa sabe que outras pessoas que são baby-sitters ou cuidadores de idosos estão na mesma situação que ela. “Conheço muitas pessoas, mesmo de empresas de limpezas, que estão como eu, com o futuro de trabalho incerto. Está tudo parado. A adiar a entrada de trabalhadores e os que vão são muito reduzidos”.
Uma sanjoanense, que nos pediu reserva de identidade, trabalhava como empregada de balcão numa loja de roupa do centro comercial. Assinou um contrato de meio ano, a terminar a 30 de julho, que depois efetivava.
Com o início da pandemia, tudo começou a mudar.
Durante o fim de semana de 14 e 15 de março, a empresa optou por reduzir o horário. “Foi uma medida de prevenção. Começámos a fechar às 20 horas. Mas, logo depois, na segunda-feira, decidiu a redução do pessoal. Primeiro ia ser descontado banco de horas, depois as férias de 2019 (que eu não tinha), e depois as férias já de 2020”.
Perante esta situação, foi enviada para casa na terça, dia 16, e, entretanto, a entidade empregadora ficou de enviar um horário alterado. “Já não fui trabalhar nesse dia. Na quarta-feira, já recebi a carta de despedimento, em casa, ainda antes de entrarmos em estado de emergência e de os apoios do Estado, nomeadamente, o lay-off simplificado, terem sido divulgados”.
Revela a ‘O Regional’ que apenas teve direito a um mês de subsídio de desemprego, porque antes já tinha usufruído. “Requeri-o através da plataforma Segurança Social Direta. No mês de abril, ainda recebi do fundo de desemprego. Agora estou sem rendimento, não sei se ainda receberei algum acerto de uns dias. Mas já me informaram que posso requerer um subsídio social de desemprego. E acho que vou tentar, mas não sei se me será atribuído”, questionando-se quanto ao seu futuro. “Ainda tenho alguma esperança de voltar a ser chamada para a loja em junho. Mas não há perspectivas se nos vão chamar logo. E se, entretanto, há outro surto? Agora tudo é uma incógnita”, remata.
A ministra do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social, Ana Mendes Godinho, anunciou, ontem quarta-feira, dia 6, que os trabalhadores informais (que pertencem à chamada economia paralela) também vão ter direito a apoios financeiros, no contexto da pandemia de Covid-19.
A informação foi feita ao Jornal de Notícias pela própria ministra, que explicou que as pessoas que não declaram rendimentos e não fazem descontos (como trabalhadores domésticos ou de biscates) irão ser ajudadas, em troca do compromisso de um “período de fidelização” à Segurança Social

Segundo dados do Instituto de Emprego e Formação Profissional (IEFP), 124 pessoas perderam o emprego em março em S. João da Madeira, sendo que 61 são homens e 63 mulheres.
Ainda nesse mês, eram 697 as pessoas que estavam inscritos, sendo que 287 são homens e 463 mulheres. O grupo mais afetado com o desemprego vai dos 35 aos 54 anos.
No entanto, o total de desempregados registados em Portugal em março “foi superior ao verificado no mesmo mês de 2019 (mais 9.985) e também face ao mês anterior (mais 28.199)“, refere o site do IEFP. O número de desempregados inscritos nos serviços de emprego subiu 3% em março, em termos homólogos, e 8,9% face a fevereiro, para 343.761.

António Gomes Costa

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