
Hesitei algum tempo, antes de me decidir a escrever sobre a pera, sobretudo depois de o malfadado acordo ortográfico lhe ter roubado o chapéu. E nem imaginava a alhada em que me ia meter: uma alhada linguística, botânica, alimentar e até… musical.
Há dias, no final do espetáculo "UM SECRETO REGRESSO por JACARANDA", Pedro Lamares gracejou que o compositor francês Eric Satie, criticado porque a sua música não tinha forma, decidiu compor “Três peças em forma de pera”. Já ouvi uma das peças, não encontrei pera nenhuma, mas a música é bonita e tranquila. Já agora, talvez Satie tivesse uma razão suplementar para atribuir a forma desse fruto a uma peça musical: a madeira de pereira é muito apreciada na construção de instrumentos musicais.
Mas a forma da pera tem muito mais que se lhe diga. Camões, no episódio da Ilha dos amores, Canto IX de “Os Lusíadas”, chama-lhes “peras piramidais” e aconselha-as a entregarem-se aos bicos dos pássaros. Mas há classificações formais para todos os gostos. Um dicionário francês refere-se à sua “forma oblonga”, outro diz que tem a forma “alongada e barriguda”, os portugueses dizem que é um fruto “arredondado na base e mais estreito na outra extremidade”. Tanta forma de dizer a mesma coisa. Bastava dizer que têm a forma de pera!
Há, ainda, o problema linguístico, porque os lisboetas e seus vizinhos arranjaram um parceiro masculino para a pera – o “pêro” – uma fruta que, cá no norte, se chama maçã. Ou seja, em Lisboa as maçãs dividem-se em duas classes: umas são “pêros”, outras são maçãs. Mas não me perguntem a diferença… As peras, essas, são iguais de norte a sul.
Do ponto de vista botânico, fiquei estarrecido ao saber que existem mais de 3.000 variedades de peras cultivadas em todo o mundo. A que eu conhecia melhor era a pera-rocha do Oeste, e fiquei a saber que foi descoberta em 1836, na propriedade "Terra da Rocha" de Pedro António Rocha, em Sintra. Mas adoro as peras de S. João, pequeninas e docinhas, e já terei ouvido falar da pera D. Joaquina e da Carapinheira. Aqueles grãozinhos minúsculos que dão graça à polpa das peras têm o terrível nome de “esclereídeos ou células pétreas”.
Mas as virtudes semânticas da pera também não são de menosprezar: há peras que servem para acender e apagar candeeiros, há outras que dão um aspeto mais circunspeto ao rosto dos homens que as usam. Se a refeição foi muito boa, exclamaremos que foi um “jantar e peras”, mesmo que a sobremesa tenha sido melão. Mas podíamos ter escolhido pera bêbada…
E, para concluir, sempre vos digo que escrever esta crónica não foi pera doce.
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