
Qualquer pessoa mais ou menos atenta às notícias saberia responder os mínimos: coletes amarelos, greves contra o aumento da idade da reforma, revoltas massivas contra assassinatos cometidos pela polícia. Muita bala de borracha e caixotes do lixo em chamas. Sobre tudo isso, paira a ameaça da extrema-direita, sempre mais próxima da conquista do governo.
Há todavia uma parte da realidade francesa que é deixada numa sombra persistente. Essa realidade faz da França uma exceção, uma exceção incómoda para o sistema europeu e portanto escondida. Essa exceção é o crescendo das lutas sociais num país em que aumenta o número de sindicalizados e onde o Partido Socialista, castigado por mau governo, foi relegado à insignificância. Esse processo fez da França o país com a esquerda mais forte da Europa. À cabeça do bloco popular mobilizado está o partido França Insubmissa, que saiu de uma posição minoritária para hoje a liderar a oposição. O seu líder, Jean-Luc Mélenchon, ficou a apenas 1% de ultrapassar Marine Le Pen nas presidenciais do ano passado e conseguiu uma coligação que junta 133 deputados (logo atrás do partido do presidente), juntando insubmissos, verdes, comunistas e socialistas remanescentes, eleitos sob um programa de rutura com as imposições neoliberais europeias que definem o governo Macron.
Na primavera, é bem sabido, decorreu a maior mobilização popular dos últimos 50 anos em França, contra o aumento da idade da reforma. Uma longa série de greves levou às ruas milhões de pessoas. Entre manobras parlamentares, repressão brutal e assédio à esquerda (como se a “ameaça à democracia” fosse a França Insubmissa e não o partido de Le Pen), no final do primeiro round, o presidente conseguiu manter a reforma. Mas o último ano já deixou bem à vista dois elementos políticos com grandes consequências para toda a Europa.
Em primeiro lugar, as políticas neoliberais de desmantelamento da proteção social e de concentração da riqueza conduzem forçosamente a derivas autoritárias e à repressão. Já se vira isso contra o movimento dos “coletes amarelos”, contra a ação ecologista, contra as greves; em junho, o assassinato de um jovem por um piquete policial, seguido de prolongadas revoltas em todas as regiões de França, teve como resposta de Macron uma verdadeira militarização do país, um apelo “à ordem” que visa manter intocadas todas as discriminações sociais e reforçar a impunidade do racismo policial. Prefigura-se uma convergência reacionária entre o campo presidencial e a direita extrema sob a mesma linha autoritária: os trabalhadores que paguem a crise - à força de casse-tête, naturalmente.
Segunda conclusão: há caminho pela esquerda. A força da exceção francesa vem de um percurso de coerência no combate contra as políticas liberais (venham elas da direita, do extremo-centro ou mesmo da “família socialista”, como é o caso em Portugal) e da ambição de unificar, em torno de respostas verdadeiras à vida das pessoas, um campo político e social que lute pela maioria.
A primavera francesa deixou um presidente isolado e um combate por concluir. Depois do verão, quando novas lutas chegarem de França aos nossos ecrãs, saibamos que vemos o combate europeu contra as políticas liberais, o único combate que constrói maiorias populares contra a extrema-direita.
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