Opinião

Por alguma coisa se tem de amar a terra....

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. João da Madeira não era ainda uma cidade industrial, por melhor que fosse o pulsar e o espelho das chaminés das suas chapelarias ou das suas microscópicas oficinas de sapatos a cumprirem, intencionalmente, o seu dever. Não era ainda um aglomerado, com dimensões no seu crescimento demográfico e na dimensão das suas fábricas, semelhante ao de outras cidades europeias, como Lyon ou Manchester. Apesar das suas limitações, com as suas indústrias tinha transformado algumas aldeias à sua volta, nos caminhos como os do Orreiro, para quem vinha do couto, em locais de recrutamento de mão-de-obra operária. Pelos censos realizados há cem anos, com a população a aumentar mais solidamente, o número de habitantes atingiu a cifra de 4407. Portugal continuava a ser um país de pequenas vilas e aldeias, com poucas cidades. Aveiro tinha pouco mais de dez mil habitantes, Guimarães não chegava sequer àquele número. Com a sua dimensão demográfica e com a sua bicefalia, mais a primeira do que a segunda, as cidades portuguesas continuavam a ser Lisboa e o Porto.
Com um silêncio bem alto à sua volta, contrastando com o barulho que vinha do seu interior, sobretudo quando chegavam ao fim as noites mal iluminadas e truculentas de sexta feira, a maioria das habitações dos operários de S. João da Madeira era humilde e modesta. Muitas delas eram insalubres e sujas. No fim da estrada, começava a falar-se em construir bairros operários com condições mínimas de habitabilidade, de higiene e conforto. Mas tendo alguns casos de situações graves de alojamento operário, pela sua reduzida dimensão territorial e demográfica não contava, a olho nu, com tantos casos de miséria da habitação característicos de centros industriais como Lisboa, o Porto ou Setúbal. Foram muito divulgadas, nos finais do século XIX, as denúncias dos higienistas sobre as situações de risco. Um dos mais notáveis, Ricardo Jorge, não se cansou de dizer que, no caso das ilhas do Porto, não estava em causa apenas a saúde das famílias que ali viviam, mas também a de todos os outros habitantes da cidade, ameaçados de ficarem contaminados pela propagação de bactérias infeciosas.
Apesar da pobreza geral, graças à fortuna e ao destino da sua colónia brasileira, S. João também possuía algumas belas vivendas. As fotografias daqueles dois ou três palacetes brasileiros tinham sido uma das rubricas mais vistas do primeiro jornal publicado na terra, A Defeza Local. As escassas edições deste jornal, como alguns anos depois também o faria o duradouro O Regional, ficaram sempre muito gratas aos homens ilustres da terra que tinham mandado construir, com a segurança do dinheiro, aquelas enormes e garbosas casas. Por mais incertas e hesitantes que tenham sido as suas origens antes da chegada ao Rio de Janeiro, não havia ninguém na terra que, na volta dos brasileiros, conseguisse ficar indiferente às casas do visconde Albino ou do conde Garcia.
Há anos que Albino e Garcia viviam no Rio a enriquecer com os negócios das suas lojas comerciais. Lançado para a rua no dia 31 de janeiro de 1915, A Defeza Local tinha sempre uma flor na boca quando queria lembrar e relembrar o papel daqueles brasileiros no desenvolvimento da terra. O jornal de Domingos Oliveira personificava no visconde e no conde o mais perfeito amor ao torrão natal, seu berço e lar durante infâncias mais ou menos severas e penosas. Nunca perdendo o ânimo, Albino e Garcia eram almas genuinamente caridosas. Contrariamente ao que podiam fazer crer algumas más línguas, habituadas há pelo menos cinco anos aos comentários mais hostis e intolerantes, Albino e Garcia eram homens altruístas e filantropos e estavam sempre na linha da frente no combate à indigência e à ignorância. Era difícil encontrar alguém, vivendo tão longe, com tanta vontade de abrir as portas de S. João à civilização moderna e com ela subjugar duma maneira mesmo brusca a letargia em que temos vivido.
Leia-se a propósito, no número três, do dia 28 de fevereiro de 1915, o elogio do dono da Dias Garcia & Companhia, a próspera casa de ferragens situada no número dezanove da rua General Câmara, no Rio de Janeiro. Institucionalizada por homens honestos e com qualidades interiores, ilibados do remorso e do saco roto a quem nada falta, a caridade podia tornar mais leve alguns dos fardos mais pesados da pobreza e da miséria. A este cavaleiro – escrevia-se sobre António Garcia, o futuro conde - deve a nossa terra os mais importantes melhoramentos. A indigência na nossa terra é socorrida com cerca de cinquenta escudos mensais que a generosidade e filantropia deste nosso amigo distribui. E, logo a seguir, a notícia constatava como seria um desaforo para a consciência calar no íntimo os benefícios que recebem dia a dia os que têm fome desta alma caridosa para que exemplos destes se repitam por essa terra fora muito principalmente no momento atual. Era uma pequena verdade, pondo de parte a leviandade da astrologia: as cabeças estavam cada vez mais pesadas com as circunstâncias vividas.
Em 1915, não era difícil alvitrar os males que estavam para vir nem esquecer muitos dos que já tinham chegado. A guerra começara no ano anterior e Portugal, por causa das colónias, da Espanha e do seu lugar no desafinado concerto das nações, preparava-se para entrar no conflito. A Defesa Local tinha nascido vinte e quatro anos depois de uma primeira tentativa de revolução republicana em Portugal, quando só a França e a Suíça o eram na Europa. O mesmo dia, 31 de janeiro, mas em contextos e conjunturas muito diferentes. Em 1915, o desejo de projetar, na República, qualidades políticas, económicas, socias, culturais regeneradoras, tinha-se desvanecido. A República concreta de 1915 já não dispunha do prestígio da República de 1891, quando ainda era uma quimera mal esboçada. No primeiro número do jornal, com destaque de primeira página, o padre Oliveira evocou os acontecimentos de Santo Ovídeo e as movimentações de regimentos como os de infantaria 10 ou caçadores 9, da guarda fiscal ou do batalhão 18, todos a saírem de madrugada para as ruas de Gaia e do Porto a fim de proclamarem, na domus municipalis, a República e a deposição dos Bragança, hasteando uma nova bandeira e anunciando um governo provisório para começar a tratar dos males da pátria envergonhada e humilhada.
Meditando nas desgraças anunciadas para o ano de 1915, com tantos comportamentos violentos, a República de 1891 não era, na opinião do padre Oliveira, uma república sectária. Também não era, escrevia o padre, neutra nem nada. Olhada com alguma distância e parcimónia, era o que devia ser: só uma república e mais nada. O padre Oliveira não demorava a ter saudades. Quis comentar: De aí a grande infelicidade de não haver triunfado esse movimento que teria servido e aproveitado assim à grande causa nacional, sem abalos de maior com que não pode a nossa esgotada economia, e sem pruridos de extravagante e amalgamada legislação que só serviram para sobressaltar e pôr em perigo as bases fundamentais da sociedade portuguesa, a família, a religião e a propriedade. Bastaram cinco anos para se perder toda a vontade de brincar. De desilusão em desilusão, a República já não era a reencarnação da beneficência. Um quarto de século decorrido, com alguma flexibilidade mal preparada para o silêncio, as cabeças ficavam menos pesadas com a lembrança triste do capitão Leitão, das manchas de sangue coagulado no chão, das montras com os vidros partidos, com os candeeiros crivados de balas...00

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