
Quando ofereciam um braço, mulheres como a condessa Libânia Pinto Leite e homens como Francisco Luís Ribeiro ou o padre António Maria Pinho sentiam que não era necessário gastar muito tempo para arranjar inspiração e explicar o seu modo simples e austero de existência. Os três tinham andado na mesma escola, nos lugares da frente, onde se podiam sentar menos estorvados e prender mais a atenção. Os nossos três conterrâneos tinham sido construídos pelas circunstâncias. Há muito tempo que, mais crescidos e à força de muitos pedidos, à chuva e no frio, Libânia, Francisco e António ofereciam refúgios aos mais pobres e às suas trágicas histórias pessoais; eles admitiam, mesmo sem palavras, com uma atenção meticulosa, que uma voz longínqua, mas consequente, os chamava todos os dias para ler e cumprir desígnios simples, discretos e dignos. Eram, Libânia, Francisco e António, pessoas atentas e recetivas. Se der jeito aos leitores, podemos encontrá-los à porta de uma casa não muito longe da praça, (aquela praça a que viriam dar o nome de Francisco), a resolver assuntos relacionados com a saúde precária dos seus conterrâneos e a sua dureza extrema. A cena põe a mulher e os dois homens frente a frente e o propósito do encontro parece um regalo de boas intenções. Ouçamos a condessa com atenção, a falar sem tiques excessivos dos seus projetos de um hospital para Cucujães; e atentemos em Francisco, numa leitura difícil, quase sem coragem para olhar a condessa, a limitar-se por enquanto a ouvir. Um ano possível para o encontro em S. João da Madeira o ano de 1911, quando Francisco regressara há pouco de Rosário, com vagas esperanças e em plena turbulência nacional, atrapalhado, mas cheio de amor e caridade para dar. O padre António, dos três, era o que tinha viajado menos pelo mundo. Mas o trabalho também lhe corria bem, convencido da sua fé inabalável e dos efeitos do seu bom senso.
Nenhum dos três comia, complacente e egoísta, as palavras. Nenhum deles, ainda que pudesse dizer-se aliviado, gostava de prolongar o tilintar das moedas ou declarar perdas irremediáveis de rendimento. Por serem finos, nenhum tinha pressa de chegar ao fim de um caminho cheio de percalços. Mas quando se tratava de levar a vida a fazer dinheiro havia muitos episódios para lembrar, sem grosserias e desgostos. A calvície de Francisco tinha algumas dessas experiências de vida para contar. Como se sabe, quando se sentiu muito apertado na sua terra natal, sem ideias, Francisco decidiu partir. Francisco não era um caso raro ou excecional. Não pôs a boca de lado, não ficou com a cara torcida, mas guardou para sempre, no balanço de uma existência mais ou menos longa, as marcas do caminho. Partiu como muitos outros, a pensar regressar um dia. Estamos a vê-lo a cismar com o Brasil. Alguém lhe perguntou o que estava ali a fazer, apreensivo e quase milagroso. Nos primeiros tempos, quando acordava nas manhãs de domingo com poucas coisas para fazer, a tentar refazer a vida, Francisco sentiu-se como um sobrevivente de um naufrágio simples e discreto. Parece certo que trocou correspondência com um ou outro conterrâneo, constrangido e triste, deprimido com as vicissitudes da existência do outro lado do mar. Ainda hoje, tanto tempo volvido desde a sua partida, desconhecemos se o Brasil não foi, no coração do jovem Francisco, uma deceção trágica e violenta, uma espécie de praga.
A andar daqui para ali, surpreendemos Francisco a chegar a Rosário, na margem direita do rio Paraná. A perspetiva de investimento numa cidade a crescer a olhos vistos seduziu o nosso conterrâneo. Abriu uma loja para, merecendo o elogio, enriquecer depressa, a olhos vistos. Francisco não teve de insistir muito até se tornar num cidadão português muito prestantíssimo na província de Santa Fé. Fora ali, em Rosário, pela primeira vez, içada a bandeira de mais um novo país americano. Era tudo uma questão de ideias quando, às 6:30 horas do dia 27 de fevereiro de 1812, foi hasteada no novo país uma bandeira com virtudes curativas. Era a oportunidade para Manuel Belgrano fazer as suas promessas e os seus juramentos solenes perante essa bandeira amada, absoluta e extravagante. Belgrano sentiu-se então bem acompanhado pelos seus soldados. Rosário compôs-se muito aperaltada, digna e corajosa, e ganhou fama enquanto berço da bandeira. Alguns anos passados, Francisco atravessaria muita terra através do mar até chegar a Rosário. Estava inclinado para, quando abrisse finalmente os olhos, numa das margens do Paraná, se sentir um homem muito rico. Nessa condição, sem amuo, começaram a olhá-lo mais seriamente. Tornou-se tão insigne que foi nomeado representante consular do seu país na Argentina.
Um dia, sem filhos e sem mulher, Francisco voltou à pátria. Deu uma volta em contramão. Felizmente, sem cores sombrias, regressou afortunado. Depois do cinco de outubro, apesar das alfaiatarias e para provar não ser verdade dizer que não havia mais nada para fazer, uma das experiências consideradas mais satisfatórias era fugir para outras zonas geográficas. Longe de Lisboa, da província e de Portugal, para voltar a combinar bem os prazeres da boa vida. Conhecemos mal a vida de Francisco em Rosário, junto às águas do Paraná. Muito pouco sabemos também das suas viagens memoráveis, até ao inesperado regresso à terra natal. Em princípio, a viagem foi dura, desgastante e aborrecida, mas sem sabor a improviso. Tendo tempo, Francisco deve ter posto o dedo em cima da ferida.
Tinha três anos para conhecer melhor o limbo, enquanto toda a gente tentava perceber a sua obra prima. De Rosário trouxera consigo o protótipo de um hospital; e, dispensando o cheiro da hipocrisia, queria dar à sua planta um protagonismo absoluto. Sendo um homem metódico, piedoso, sem peruca postiça, Francisco não queria regressar a casa dos pais sem um sonho por acabar. Um hospital para construir com paciência, como se fosse um peão laborioso, como se dizia da gente da sua terra, de um jogo de xadrez. Não foi um ato de presunção Francisco ter esperado pelo 5 de outubro para voltar, quando, à luz tíbia de plateias vazias e de ruas mal iluminadas, muitos conterrâneos preferiam partir, indisponíveis para assistir às ruidosas e traumatizantes peças de estreia republicanas.
Um jornal como A Defesa Local não podia ficar indiferente à indumentária colorida do nosso benfeitor. Se o primeiro número, de 31 de janeiro de 1915, fora para declarar o amor natal ao visconde de S. João da Madeira, benemérito que todos conheciam - das crianças pobres aos ricos todos tinham ouvido falar da nobreza dos sentimentos de Albino; se o terceiro número, de 28 de fevereiro, era para o conde Garcia, um verdadeiro soldado da luta contra a indigência; last but not least, enfim, era chegada a vez de, em março, no número quatro, com a data de 14, o jornal retratar com perfeição o primeiro dos beneméritos nativos, de nome Francisco José Luís Ribeiro. Falecido há pouco tempo, Francisco era considerado o mais abençoado dos mortos. Porque, consumando o amor infinito pelo torrão natal, Francisco tinha com alívio deixado toda a sua fortuna, ganha à pressa nas lojas de Rosário, para a construção e exploração de um hospital onde os enfermos e miseráveis recebam tratamento e conforto nas suas doenças e misérias. Não era preciso sair à rua para beijar a mão a quem tanto tinha trabalhado, lutado e economizado em prol dos seus irmãos e dos seus patrícios. As coisas que tinha para dizer correspondiam bem à verdade. Ter dinheiro não era mostrar um anel nos dedos, como bem o sabiam Francisco, Libânia ou o padre António Maria, que também seria um dia, por virtudes móveis e inumeráveis, capa do jornal.
Tinham gasto muito do seu entusiasmado, a tarefa era extenuante, mas os três pressentiam que não podiam mexer muito com o final da história. Seja quais forem as circunstâncias, a cena punha-os quase sempre diante dos pobres; que, para evitar suspeitas, estavam quase sempre doentes, sujos e mal alimentados. Em última análise, passado muito ou pouco tempo, a narrativa não seria um breve conto de fadas. Sobreviveu a alguns de nós, como as sedas ou as porcelanas.
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