Opinião

Por alguma coisa se tem de amar a terra...

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Naquele primeiro domingo de julho de 1940, da ação de graças na matriz às palavras perfeitas do padre Almeida Pinho nos paços do concelho, parecíamos uma nação poderosa. A pátria era respeitável, suscitava apreço num continente em guerra, seguindo a moral estrita e fechada do nosso ditador, mais tartaruga que lebre, diferente de outros cúmplices tramados, a começar pelo vizinho do lado. Nós e eles, comparações vulgares, cínicas e cruéis, não eram todos a mesma coisa? Mesmo que muitos de nós fossemos pobres, éramos limpos e castiços, como se assim nos tornássemos melhores. Mas não nos ocorria ser afoitos, com chalaças tiradas da cartola ao preço da água da chuva. Avesso a facécias, Salazar era honesto até à medula, a sua retidão era proverbial e afamada. O mundo com ele não cairia na balbúrdia. Estava tudo nos livros da escola. Anos mais tarde, enquanto corriam os anos quarenta e outros a seguir, por mais persistentes e desdenhosos que fossem os opositores, acostumados a tirar nabos da púcara, que os havia na nossa terra, haveríamos de lembrar como a sua carreira de condutor estava para durar, atravessando gerações atrás de gerações. A nossa, que esteve nos paços do concelho no dia 4 de julho, só podia ecoar patriotismo. Ficaram vagas notas das nossas conversas diáfanas depois de ouvirmos o segundo presidente da câmara municipal, António Henriques, a abrir a sessão solene antes de passar a palavra ao padre Pinho e ao comandante da Legião, que encerrou a sessão. Pela vila, todo o santo dia se ouviu o estoirar de foguetes e o rufar de tambores. Quem passasse junto do Colégio Castilho, fartamente embandeirado, teve ensejo de acompanhar as cerimónias ocorridas no berço da nação. À sua custa e expensas, Manuel Luís Leite Júnior mandara colocar um alto falante numa das varandas do edifício. Quem não se recordava do discurso, em Guimarães, sempre na mesma corda, do presidente do conselho de ministros?
Naquele mês de julho, o jornal dirigido por José Soares da Silva não se poupou a esforços. O número quinhentos e oitenta apareceu graficamente renovado e profusamente ilustrado. O proficiente diretor esmerou-se a inserir nas suas páginas a colaboração de gente ilustre e distinta. Alguns eram da terra ou vizinhos, como Serafim Leite ou Domingos Arede, o abade aposentado do Couto, Belmiro Silva ou José Cerqueira de Vasconcelos. Alguns textos tiveram de ficar fora, aguardando outra oportunidade, mas conseguimos ler os do padre Jaime Boavida, de Carlos Corte Real, de António Francisco Nogueira, de Ramos Norte... Ou o poema de Beatriz Tovar dedicado a Portugal, com versos que cantavam os oitocentos anos de uma pátria geradora das fortes panaceias, com as suas raízes seculares, inesgotáveis, a nutrir as mesmas flores e os mesmos frutos. Escreveu Beatriz: em todos os tempos, oito séculos de sóis, Portugal disseminara-se na voz das epopeias. A nossa gazeta esteve presente em todas as cerimónias e cobriu tão bem as festas do duplo centenário que foi alvo dos maiores elogios da imprensa nacional e local.
Numa carta enviada à redação, o capitão Firmino da Silva, da Ala Infante Santo, da Mocidade de Aveiro, fez-nos ver quão duradouro foi o seu espanto com tão bela e arrojada iniciativa num jornal da província. O capitão emocionou--se com todos aqueles textos carregados de fé arraigada nos destinos do Império, patriotismo exaltado, nacionalismo puro. D’ O Povo de Ovar veio o louvor a um jornal que com o mesmo ardor e fé com que defende os interesses nacionais pugna também pelos interesses da sua terra. Aquele número quatrocentos e oitenta foi um brilharete, celebrado n’ A Voz e no Diário da Manhã, de Lisboa, no Flor do Tâmega, de Amarante, no Defesa de Espinho, no Democracia de Aveiro ou n’ O Correio de Azeméis. O nosso jornal multiplicou-se com uma larga distribuição gratuita por consultórios médicos, hotéis de várias cidades, organismos públicos, entidades oficiais... Na nossa vila, a venda avulsa aumentou significativamente, a tiragem quase esgotou. O desfecho e os bons resultados não iriam ficar por ali. Durante todo o verão de 1940, o nosso jornal dedicou muitas das suas manchetes mais vistosas ao duplo centenário. Ao apogeu da ordem e da pátria, a Salazar e a Carmona. À Legião e à Mocidade. E também a seguir, com algum detalhe, os trilhos do nosso historiador jesuíta, um inesgotável poço de cultura e erudição, membro da Academia Brasileira, que nos enobrecia com o seu labor intelectual. Durante o verão de 1940, a notícia correu célere: no Congresso do Mundo Português, dirigido por Júlio Dantas, Serafim Leite iria presidir a uma das sessões, a do descobrimento e colonização até à crise nacional de 1580. Era uma graça, para o nosso jornal, ter aquele padre como o seu colaborador mais distinto e abalizado. A nossa estrela de primeira categoria.

 

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