
Mas continuemos a ler o nosso jornal do dia 16 de junho de 1940, no começo das festas centenárias. Te Deum laudamus, a ação de graças era como uma lei física agarrada ao âmago de uma das nações mais velhas da Europa. O amor à pátria como o do casamento: indissolúvel desde o altar. Rebobinando a fita: oitocentos anos de história, nascendo à sombra da cruz e da visão de Cristo em Ourique, crescendo e fazendo-se grande ao calor ardente da fé. Era esse o estado de espírito, a coisa certa de JOC, preenchendo quase toda a página quatro do nosso jornal. Censuradas e condenadas as cronologias dos anos abatidos e nefastos, funestos no seu fulgor catastrófico, vicissitudes que a pátria venceu a custo e superou, providencialmente, com dignidade e decência, voltávamos a sentir-nos regenerados. De JOC, a seguir com atenção, porque assim devia ser a nossa missão: Portugal tem motivos bastantes para, a oito séculos de distância, recordando todo o seu passado de grandeza e glória, entrar no templo, e, joelhos em terra, olhos fitos no altar, a alma vibrando de patriotismo, o coração alvoraçando de júbilo, entoar ao Deus das Nações, que tudo rege e domina, um hino de louvor, um cântico sublime de ação de graças. Assim devia ser Portugal em 1940. Assim como, retirados os anos do desvario, desde que houvera gente para comandar e fazer da lei ditados para seguir à risca, sempre o fora ao longo dos tempos. Os mais letrados tinham a memória fresca da assinatura, no início do mês de maio, da concordata e do acordo missionário de Salazar com o Vaticano. 1820 e o liberalismo,1910 e o republicanismo, foram atirados para o rodapé da história.
Assim devia voltar a ser Portugal, dilatando a fé e o império. Em Lisboa, por todas as colónias e pela província, na nossa terra. O amor da pátria era uma versão alongada do amor à terra. Alguém escreveu no nosso jornal: o destaque imprimido a esta comemoração é-nos imensamente grato pelo bairrismo que defendemos e pelo nacionalismo que sustentamos com firmeza, que é o mesmo espírito ampliado à Terra Portuguesa, muito acima de malsinações que só podem servir derrotismos, mas que não vincam o fim puramente renovador trazido pelo Estado Novo. A história e a sua memória legitimavam os valores ideológicos do regime e a sua capacidade de emendar a pátria. As duas datas cativantes – a de 1140 e a de 1640 – pertenciam a Portugal e, por isso, deviam projetar-se nos mais recônditos lugares da nossa terra. O bom senso retornava aos nossos leitores e à exiguidade do seu meio natural e humano. Não estávamos em Lisboa, em Belém, na Exposição do Mundo Português, um dos pontos mais altos da dupla comemoração. Não tínhamos pavilhões, desde o da fundação ao do jardim dos poetas, mas iríamos ter as nossas pequenas festividades. São João da Madeira, lembrou um dos nossos colunistas, também guardava os anais de uma história de longa duração, quase tão antiga como a de um dos mais velhos reinos da Europa. A nota de J. Tovar avivou-nos a memória: fomos mencionados com o nome de freguesia da Madeira em 1258, quando Afonso III mandou realizar as Inquirições Gerais. Pelo menos desde então, escreveu Tovar no seu brevíssimo apontamento, S. João da Madeira comunga também na mesma Fé e significado das comemorações que se celebram, ajuntando-lhe, religiosamente, a mesma memória que poderia ofertar--lhe: a do culto constante do ‘génio empreendedor’, do ‘amor ao trabalho’, à energia e coragem de seus habitantes... Podemos dizer, com o velho legitimista Pinho Leal, que eram esses, o nosso génio empreendedor e o nosso culto do trabalho, os maiores carimbos que conseguíamos gravar nas armas do velho Portugal.
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