Opinião

Por alguma coisa se tem de amar a terra...

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A festa dos centenários e as histórias de vida dos dois maiores heróis vivos da pátria, o professor Salazar e o marechal Carmona, começaram a ocupar, com letras gordas, flamantes e vistosas, as manchetes do jornal da nossa vila. Olhemos a colorida e alegre ilustração de Beatriz Tovar, a professora do Castilho, para a capa do número quatrocentos e oitenta d’ O Regional, de 16 de junho de 1940. Em primeiro plano, andando à volta dos catorze anos, um vanguardista da Mocidade perfila-se, acrisolado no seu estandarte, diante de um mapa de Portugal continental. No retângulo tinham sido hasteadas, de cima para baixo, as três bandeiras mais conceituadas da nação: no topo, a de 1140 e do fundador do reino; no meio, a de 1640 e do primeiro dos Bragança a ocupar o trono; mais abaixo, flutuando serena, haurindo familiaridade e fiabilidade, a de 1940, a bandeira herdada por Carmona e Salazar. Aquela edição inteira do nosso jornal foi consagrada ao duplo centenário, pensado muito e repetidamente por António Ferro: o dos oitocentos anos da fundação de Portugal e o dos trezentos anos da sua restauração. António Ferro, o diretor do inventivo e corretivo Secretariado da Propaganda Nacional, era considerado um dos melhores intérpretes da vontade coletiva e do sentimento nacional. Metódico e construtivo, António Ferro pensara muito a conceber uma ideia, a elaborar os detalhes de um plano geral, a redigir um programa sugestivo e atraente para as festas. Ferro era um intelectual muito ambicioso, que raramente se contentava com pouco. Estava determinado a fazer, com o beneplácito de Salazar, uma celebração de arromba que correspondesse à grandeza, à harmonia e à universalidade do génio português. De dois de julho a dois de dezembro de 1940, com a pegada criativa do homem do SPN, espantando uma Europa inteira a braços com mais uma guerra feia e medonha, o país iria demonstrar publicamente a sua alegria, patriótica, nacionalista, periférica, em festas nacionais, locais e privadas.
No ano anterior, quando tudo ainda parecia estar por fazer, Júlio Dantas apareceu aos microfones da Emissora Nacional. Dantas, que presidia à comissão dos centenários, dirigiu-se à metrópole, ao império e ao mundo para reafirmar, uma vez mais, quanto aquela empresa estava empenhada na dignidade nacional. Não podia ser feita de qualquer maneira, iterava Dantas, de forma que satisfaça a consciência da nossa nobreza histórica. Como era vulgar e trivial no autor d’ A ceia dos cardeais, as palavras estavam à altura das boas intenções: Realizaremos a vasta mobilização pacífica de todos os valores, de todas as capacidades, de todas as aptidões criadoras. Que os ouvintes ficassem convencidos: à partida, durante a festa, ninguém iria ficar de fora. Infelizmente, a ideia de contiguidade do passado no presente nem sempre tem em conta as vozes discordantes e divergentes. Mas, olvidando os negligenciados, aquela boa dezena de milhares de presos que, entre 1933 e o fim da guerra, de forma sumária, foi parar aos calabouços da polícia política, consolemo-nos com o transmissor único e oficial. Para ouvir, advertidos e seletivos, o arrebatamento de Júlio Dantas: Não esqueceremos nenhum daqueles homens – sábios, artistas, historiadores, pensadores, poetas, técnicos de todas as especialidades, cultores de todas as ciências – que, pela profunda virtualidade do seu talento ou do seu saber, são capazes de revelar a nação a si própria, não apenas na sua imagem refulgente do passado, mas – através do contínuo dinamismo da história – na projeção das linhas de força que nos conduzem do passado ao presente.
Antes de se ir embora, aos microfones da rádio, Júlio Dantas sabia que alguma coisa ainda tinha de ser dita para que o discurso fosse ainda mais convincente e categórico. Os ouvintes sabiam que Dantas, com pressa de voltar ao terreno, na metrópole, no império e no estrangeiro, não podia deixar de se dirigir mais diretamente ao povo. Ninguém podia ficar surpreendido: depois das elites ainda faltava falar do povo, das massas anónimas. Ficava menos incerta e imprecisa a incumbência, segredada a Dantas por Ferro: Não esqueceremos sobretudo o povo, húmus vivo da raça. Dantas tinha olhado para ele, o povo, com muita atenção, de modo a saber dizer como era o seu aspeto. O povo não era só gente rude, primitiva, desenxabida, sem graça. O povo era também uma entidade idílica, era o fons gentium do Império, povo rico de energias e de virtudes, que é o herói supremo da formação e da expansão da nacionalidade. Imaginamos que o diretor do nosso colégio ou o diretor do nosso periódico, que publicara n’ O Regional um texto do polígrafo sobre os malefícios, pessoais e sociais, de não se cobrir a cabeça com um chapéu, escutaram, na rádio, com a atenção devida, a alocução patriótica de Júlio Dantas. Se perderam a emissão, puderam ler o discurso de Dantas no número um da Revista dos Centenários, publicada na simbólica data de 31 de janeiro de 1939. Estávamos num ano de exaltação patriótica, na capital e nas províncias urbanas e rurais. As dezasseis páginas do número 480 do jornal dirigido por José Soares da Silva, com a colorida capa da poetisa Beatriz Tovar, arregimentaram a opinião pública da nossa vila para a grande festa. Na página dois, alteando o tom, Serafim Leite escreveu sobre a vocação histórica de Portugal. A combinação era admirável e exemplar: a do sangue latino com o território e com aquela língua suavíssima que fala o nosso povo. Um elo tríplice, criador de novas gentes e cabeça improvável de um dos maiores impérios da terra. Assim era: desde a América juvenil às nascentes do Sol, através da África e da Índia maravilhosas, Portugal resplandeceu para a perenidade da história e dos tempos.

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