Opinião

Por alguma coisa se tem de amar a terra...

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José Cerqueira de Vasconcelos, o diretor do ‘Castilho’, afiançava que a Mocidade estava segura e acautelada na sua medula. Enquanto chefe do ‘Centro número cinco’, com sede no colégio da nossa vila, Vasconcelos era um galanteador do sistema. Não conseguia adormecer sem juntar aos seus afazeres domésticos, na escola, a chefia local da novíssima organização criada por Salazar em 1936. Quando anunciou no jornal da nossa vila a festa da ‘Mocidade’, prevista para o aniversário de António Feliciano de Castilho, Cerqueira advertiu então os pais e os professores que todos os alunos com idade entre os sete e os catorze anos, ou que estivessem a preparar-se para os exames até ao primeiro ciclo dos liceus, deviam obrigatoriamente fazer o seu alistamento nos quadros da ‘Mocidade Portuguesa’. Um aluno que não o fizesse não poderia ser submetido a exame, uma vez que na sua caderneta escolar devia constar essa inscrição e a regular frequência das atividades da ‘Mocidade’. Os filiados seriam eliminados desde que, num ano letivo, sem motivo justificado, dessem mais de seis faltas consecutivas ou dez interpoladas. Entre as atividades praticadas desde 1936, com a religião de permeio, as crianças e os jovens de ambos os sexos, mesmo para os que não aspiravam a grandes prazeres musculares, tinham preparação militar e atividades desportivas, entre o escutismo e a instrução e formação política e religiosa. Os modelos fascistas da saudação romana e dos uniformes foram adotados. Às camisas verdes e aos calções e às saias castanhos, juntava-se na farda um cinto cuja fivela tinha um S: o esse de Salazar e o esse de Servir. Tornou-se rotina e tradição os jovens, de pé, sempre com o braço estendido e pancadas na nuca, gritarem em coro, a uma só voz: ‘Quem vive? Portugal, Portugal, Portugal, Quem manda? Salazar, Salazar, Salazar’.
O aniversário do poeta cego foi escolhido a dedo por Cerqueira. Tinha preparado um longo discurso, a anteceder o programa da festa no nosso teatro. Duas ilustres atrizes interpretaram, magistralmente, a peça ‘A rosa de todo o ano’. Tinha sido tão boa a interpretação que uma das protagonistas, a que desempenhava o papel de freira, proporcionara aos espetadores uma casta ilusão da realidade. Ainda se ouviria um dueto de piano e de violino; e alocuções de alguns alunos, leitura de poemas como o de Beatriz Tovar, professora do colégio, com o seu ‘O sonho de um infante da Mocidade Portuguesa’ a ser lido por um dos seus discípulos mais dotado, Valdemar Correia. O espetáculo não eclipsara o discurso prévio de Cerqueira. O nosso diretor olhou a plateia com o seu olhar penetrante. Não se sentia empenhado em ocupar outro lugar, acreditava genuinamente nos seus sermões doutrinários. Dirigiu-se primeiro aos estudantes, para que ‘o Anjo da Guarda vos guarde nas encruzilhadas, defendendo-vos dos maus caminhos da vida’... O nosso diretor estava habituado a surpreender plateias tão arrebatadas como as que tinha diante de si no ‘Teatro Avenida’, era sempre um orador louvado e aplaudido, acompanhado com prolongadas salva de palmas. Normalmente, no uso da palavra, José Cerqueira de Vasconcelos não dizia tudo o que lhe vinha à cabeça. Tinha estudado Letras em Paris, anos que foram inauditos e primorosos, já sabia quase tudo, olhos seguros e vivacidade; mas, para escapar às prisões de ventre, tinha sempre um papelinho amassado, cheio de cuidados, sem margens de erro, para ser escutado. Conseguiu, assim, mais uma brilhante oração no sarau em que S. João da Madeira, na noite de 26 de janeiro de 1940, juntou Castilho e a ‘Mocidade’.
Deixemo-lo falar, com os olhos postos na plateia, no padre Pinho, no deputado Querubim, nos representantes do município e do jornal da terra, continuamente a saudar os ilustres representantes do Estado Novo. Cerqueira era um bom observador das qualidades da nossa juventude. O fio condutor do seu discurso era para ela, porque ‘a mocidade marcha sempre para o oriente, cantando hinos de amor, de fé e de esperança’. A narrativa prosseguia, como o rolar de uma onda, com todos aqueles ‘hinos de amor à terra abençoada que lhe doou a seiva da sua vida; hinos de fé nos destinos providenciais da sua Pátria; hinos de esperança na crença de um Portugal maior’. Cerqueira era um patriota de gema. Na verdade, já sabia tudo acerca do nacionalismo ideal das crianças e dos jovens filiados na ‘Mocidade’ de que era diretor do ‘centro número cinco’. O sentimento mais profundo era o de humanidade e de lealdade, que desabrochava ‘como uma branca açucena na haste da Tradição, enraizada profundamente no seio purificador da Terra-Mater de Portugal’. Cerqueira sabia que todos iriam estar concentrados nele, inebriados com a temperatura elevada do ‘Avenida’. A caixa de Pandora tinha sido aberta com mil cuidados. As coisas caminhavam numa boa direção, com princípios éticos sólidos e consistentes e com bons hábitos e rotinas físicos. Fiquemos com o nosso diretor e as suas frases compridas, empolgando os seus patrícios: ‘O heroísmo moral da Mocidade Portuguesa consiste na servidão voluntária da sua alma disciplinada na grandeza passiva da abnegação, que é a nobreza do dever imperativo do sangue, que faz subordinar as vozes e os gestos do indivíduo, a ancestralidade da Família, da Raça e da Nação, que são as únicas realidades humanas que sobrevivem nos séculos, como projeções terrestres da eternidade de Deus’.

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