Opinião

Por alguma coisa se tem de amar a terra...

• Favoritos: 124


A nossa opinião pública, guiada pelo jornal da terra, era cada vez mais indulgente com Salazar e o seu ‘Estado Novo´. O nosso ditador reluzia com as lisonjas frenéticas. Não precisávamos de simular perguntas arriscadas e, valha--nos Deus, de refutar as soluções. Quando nuvens negras toldavam os céus da Europa, o nosso ditador descobrira um purgante ativo para a nossa autossatisfação. Era o ano da morte do nosso conde e era o ano por excelência, a começar pelos mais pequenos, de glorificação da pátria. Em Lisboa, sobretudo, a preparar-se para mostrar na ‘Grande Exposição do Mundo Português’ todo o nosso passado histórico – o esforço magnânimo dos lusos, as suas ações brilhantes em todas as eras... –; e, mais modestamente, obviamente, por todos os lados da província, nas cidades, vilas e aldeias. Eram anos que pareciam os melhores das nossas vidas. O mundo ia perceber quem nós éramos: como fundámos a nacionalidade e como consolidámos a independência; como lutámos com galhardia patriótica e como nos libertámos do jugo estrangeiro; como difundimos o ´lusitanismo´ e propagámos a nossa língua e a nossa fé; como fizemos crescer, mais ainda agora, com os trabalhos e os dias de Salazar, a nossa agricultura, a nossa indústria e o nosso comércio. Naquele ano de 1940, com Salazar e Carmona a transformarem-se nos herdeiros incontestados das virtudes lusitanas e a apontarem com o indicador os dias felizes que nos aguardavam, todos estávamos convocados para o delírio patriótico. Encontrados os pretextos mais congruentes para as evocações da grandeza passada, a hora era de ressurgimento. Lemos, no jornal da vila: ‘não haverá português digno deste nome que não queira associar-se de alma e coração a esse coro ingente de hossanas que vão erguer-se no templo grandioso da Pátria’... Foi eivado desse espírito que ‘O Regional’ se associou às patrióticas comemorações da fundação e da restauração.
Revelando-se aos poucochinhos, aqui na terra já tínhamos a ‘Legião Portuguesa’ instalada em casa própria, com o contributo líquido do nosso conde para as suas despesas e cuidados intensivos; e, pela mesma altura, para manter arrumadas as crianças e os jovens, também contávamos com a ‘Mocidade’. A história das duas organizações patrióticas começou a consumir as páginas dos nossos jornais. Em grande parte, graças ao trabalho do dirigente do centro número cinco da ‘Mocidade Portuguesa’, José Cerqueira de Vasconcelos. Diplomado em Paris, o fundador do ‘Colégio Castilho’, em 1929, adquirira desde então um grande encanto entre os membros da nossa elite: tinha sido a inteligência e a competência de Cerqueira, enquanto diretor, que tornara o ‘Castilho’ num dos melhores estabelecimentos de ensino particular no norte do país, o que era demonstrado pelas altas classificações nos cursos de instrução primária e secundária e nos exames de admissão ao liceu. A admiração pelo nosso diretor havia de chegar à capital, como se pode ler no número de ‘O Século’ do dia 12 de dezembro de 1939. Mas vamos ao que interessa: o nosso diretor, na sua função de dirigente da Mocidade, era o melhor representante do ‘Estado Novo’ entre as nossas crianças e jovens, apontando-lhes o rumo certo da vida e ensinando-os a serem homens e mulheres úteis à pátria. Todos nos lembramos da alegria e satisfação do nosso diretor na noite de 26 de janeiro de 1940, quando o ‘Teatro Avenida’ se encheu de gente para assistir à festa da ‘Mocidade Portuguesa’ e do ‘Colégio Castilho’ nos cento e quarenta anos do aniversário do seu patrono.
A festa do nosso colégio foi encantadora e elegante, cheia de graça e beleza, juntando a arte ao nacionalismo. Eram vinte horas quando a multidão, recebida pelos filiados da ‘Mocidade’, em formatura, começou a chegar às portas do teatro. Num lado, a banda de música; no lado oposto, o nosso diretor e diversas individualidades; o povo ao redor. Todos aguardavam a chegada das autoridades vindas de Aveiro, principalmente Querubim Guimarães, o deputado da nação e dirigente da ‘União Nacional’, que vinha acompanhado de uma delegação da ‘Mocidade’ de Aveiro. Os braços estenderam-se aos primeiros toques do hino da organização, todos de cabeça descoberta, aprumados e silenciosos, à espera de entrarem para a sessão solene. Sobe o pano, vê-se o palco cheio: os ilustres visitantes, algumas individualidades da vila, os alunos do ‘Castilho’. Ouvem-se, primeiro, as notas estridentes de um clarim, a seguir o orfeão do colégio a cantar os hinos da ‘Mocidade’ e do ‘Castilho’, escutados de pé. Querubim preside à sessão, no centro da mesa, com Manuel Leite Garcia à direita e o representante da autarquia à esquerda. Também ali estavam o tenente Natividade, da ‘Ala Infante Santo da Mocidade Portuguesa’, o professor e vereador Carlos Aleluia, e muitas outras sumidades, onde se incluíam o inefável padre Pinho, o representante d’ ‘O Regional’, Belmiro Silva, ou Joaquim Almeida, da ‘Legião’. Tinha chegado a hora dos discursos, em especial o de Cerqueira. Outro dia, havemos de voltar ao diretor. A noite estava para durar: durante horas, a casa cheia acompanharia com entusiasmo as aptidões culturais e artísticas dos alunos e alunas do colégio, os homens e as mulheres válidos do futuro.

124 Recomendações
1440 visualizações
bookmark icon

Farmácias abertas

tempo