
Num feliz acaso, a morte do nosso conde António coincidiu com a grande festa dos dois centenários sugerida por um outro António, o presidente do conselho de ministros. Por economia do texto, seguindo a máxima do dedo mendinho do então ainda jovem ditador, não nos apressemos. Sendo um homem que raramente arriscava uma piada ou um gracejo, evitando as poças de sangue, o antigo professor de finanças de Coimbra regalava-se em fazer da lentidão uma propriedade. Sendo assim, por maior que fosse o amolecimento da espinha, habituássemo-nos, em doutrina, a andar devagar, devagarinho. Depois de algum estudo e mania, eram cada vez mais os que pensavam que Salazar tinha carradas de razão. A estupidez podia ser maldosa e perversa; os olhos torvos de receio e aflição; as perturbações penosas, as afrontas veladas, com muitos de nós desavindos e irritados: em quase todas as circunstâncias, com a propaganda colorida, o ditador andava a aproveitar-se com acerto dos filtros da sintonia. Com sete anos de existência, corria o ano de 1940, o Estado Novo movia-se nas boas graças do povo. A nossa terra e as suas elites que o confirmem, a começar pela sua imprensa. Aos dezanove anos de existência, sem polémicas e escaramuças, ‘O Regional’ mudou de agulha e de capelinha política. O jornal nascera durante a democracia, uma matéria agora insignificante e deprimente, acriançada, de pouco valor; por dar aquela palha, assediado e com ajuste de contas a fazer, o nosso jornal pendia agora para o outro lado do extremo, juntando-se a todos os que viam Salazar como um poço de qualidades, incluindo a castidade, a honestidade e a hombridade. Tinha acabado o tempo das dúvidas simultâneas, a pachorra para as divergências.
Quando o jornal nasceu, em 1922, compreendia-se a abstinência política: em tempo de desorientação e de falta de estatura, de bagunça e barafunda, de falta de governo, bastara-lhe servir a terra, sem amuos ou deserções, ancorado à verdade, à razão e à justiça. E a um amor apegado pelo torrão natal, por onde andávamos todos afeiçoados naqueles anos, com mestria e prazer dos sentidos.
Nessa altura, a orientação do quinzenário era sensata e comedida: ‘... primeiro abstermo-nos por completo de toda a política, o que não quer dizer que deixemos de referir-nos, com a devida imparcialidade, a casos políticos de maior monta’. Os redatores não queriam pecar por exagero: a época, diziam, era ‘agitada por lutas políticas, em que os partidos se digladiavam, e serviam para justificar a posição de independência que o jornal se propunha ocupar’. Toda a gente na redação acreditava que, pelos anos fora, o jornal manteve íntegra a sua índole e natureza. Entretanto, com o tempo a correr, pareceu necessário à redação do nosso hebdomadário justificar-se: ‘Rejeitamos sempre caminhos ínvios, de torvo trilho, e procuramos atingir a nossa finalidade com atitudes francas e de límpida transparência’. Dezanove anos depois, no número 468, de 1 de janeiro de 1940, o ponteiro parecia o mesmo, com o jornal a apresentar-se como o defensor acérrimo e indefetível das prerrogativas, dos anseios e das aspirações da comunidade local. Mas, quase duas décadas depois, numa lufa-lufa, acabadas as boémias, a vida airada e irresponsável, para delícia bruta dos ordeiros, como o mundo tinha mudado... Para, à falta de melhor, muitos se dobrarem, renunciarem, cederem e se deixarem guiar. Com Salazar e o Estado Novo, a orientação do nosso jornal evoluiu, acompanhando o estilo da elite local, que incluía o nosso conde, até se integrar ‘nos princípios do Estado Novo, que são, afinal, os princípios do Amor da Pátria, política apregoada, desde a sua fundação, pelo nosso jornal’. Evoluir, enfim, visado pela comissão de censura, mas sem se viciar e abastardar. A inclinação era natural, a propensão pacífica.
Com algumas pancadas e alguns agravos, as pérolas começaram a multiplicar-se em favor de Salazar e de Carmona, da ‘Legião’ e da ‘Mocidade’, do autoritarismo. O devagar, devagarinho, de Salazar, soltava-se no modo de andar. Cuidar da pátria era o selo de garantia no ano do duplo centenário da fundação e da independência da nacionalidade. Um ano jubilar, de folia intensa, um brado entusiástico, fervorosamente patriótico, que irrompeu dos lábios de todos nós, a pulsar de alegria intensa e desejo de mudar a sorte. Salazar não se distraia com a guerra na Europa enquanto dava o tiro de partida: ‘Salvé, nobre Portugal!’ 1140, 1640, eram os dois eixos da celebração do duplo centenário, juntando D. Afonso Henriques e Carmona, Nuno Álvares e Salazar, quatro dos filhos mais seletos e percetíveis de Portugal. Destemidos e de têmpera tesa, nascidos todos numa pátria de heróis e de santos, de conquistadores e de guerreiros, de aventureiros e de missionários, de pintores e de poetas, de políticos e de oradores, até de mulheres cristianíssimas, como a nossa melhor rainha, Isabel de Aragão. A hora era a da ressurreição de uma pátria cuja história pasmara o mundo inteiro. Toda a gente reconhecia o nosso papel: que outro povo tinha atravessado tantos mares até chegar a terras tão afastadas, conquistadas, colonizadas, civilizadas? O nosso jornal, com a seriedade da época, sem frieza, esgotava-se à volta do que, em 1940, quando o nosso conde morreu no outro lado do mar, iríamos alcançar: ‘Portugal, no decurso do ano que hoje alvorece, vai recordar festivamente os seus pergaminhos, o património sagrado que herdou dos seus maiores, as virtudes rácicas que lhe transmitiram os seus avoengos’. Por maior que fosse o amor à pátria, o caminho não podia ser toldado e opaco: daqui para diante, com Salazar, já não podíamos chorar apenas os caídos pela pátria.
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