Opinião

Por alguma coisa se tem de amar a terra...

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De então para cá, no seu buraco negro, muita água correu por baixo das pontes. Ao nosso nível, os nossos patrões eram muito diferentes entre si na sua condição, papel e estatuto. Havia entre eles um abismo de fartura e de notoriedade, como acontecia entre Oliveira Júnior e o seu estilo de vida, o patrão que empregava na sua fábrica centenas de operários habituados ao ruído das máquinas a vapor e aos ritmos enfadonhos do trabalho mecanizado, e os microscópicos sapateiros, habituados a trabalhar a obra com um, dois ou três companheiros, a mulher de preferência, que os tratavam por tu e com quem tinham mais tarefas e recomendações entre si do que com o magnata, às vezes mandachuva, da primeira fábrica mecanizada da nossa terra. Acontecia que muitos desses nossos patrícios nunca tinham ido à escola. Não entendiam a narrativa da alfabetização forçada e obrigatória. Talvez, a maioria desses pequenos patrões enjeitasse a cominação dos que queriam forçar as crianças mais pobres a deixarem de trabalhar para se irem sentar, à força, nos bancos das salas de aula, não ajudando a alimentar a família. Muitas ponderações e evidências, indícios desmoralizadores: a maioria dos nossos trabalhadores não sabia ler nem escrever. Se fossemos rigorosos, também a maioria dos nossos patrões. O próprio senhor A, que não se resignava com os índices e as tabelas tão elevados de analfabetos na nossa terra, tinha estudado muito pouco na sua infância. Infelizmente, perfiladas, as novas gerações iriam continuar a vexá-lo, amesquinhando-o. O seu espírito podia ser esforçado e competitivo, mas ficava a impressão de que a maioria dos nosso patrões dava pouca relevância à escola. A procissão ainda ia no adro.

Condessa de Penha Longa com Afonso Costa

Mas a guerra contra o analfabetismo tinha de ser combatida a sério, reconhecia-o António Francisco Nogueira. António era o diretor das escolas da nossa terra no ano de 1922. Naquele ano, o professor António não beneficiou pessoalmente com o decreto de 9 de março, que regulamentou a preferência pelos professores casados que concorriam a escolas da mesma localidade. Entrementes, podemos imaginar como se sentiu ditoso e afortunado o nosso diretor, no dia 22 de março, quando o ´Lusitânia´, de Gago Coutinho e de Sacadura Cabral, abalou para o meio do Atlântico, com o Rio a ficar a uns escassos dias de Lisboa. Na semana anterior ao voo bem-sucedido, o nosso diretor tinha divulgado uma severa lista que fazia disparar, de rajada, o número de crianças em idade escolar que, em S. João da Madeira, faltava às aulas. Fiemo-nos nos números de António Nogueira. Oitenta fábricas e oficinas, de dimensão desigual, empregavam mais de dois mil operários, homens e mulheres. Não era inesperada e surpreendente a realidade: não obstante o aumento dos salários, o custo de vida impedia que a féria das famílias operárias, homens e mulheres, chegasse para os apertos diários da vida. Eram poucos os pais, admitia o nosso diretor, que podiam olhar com zelo e cuidado pelos filhos. Os que, com muito pouco dinheiro líquido, lhes podiam fazer boa companhia, com ´a necessária alimentação, educação e instrução´. Assim se desculpava o miserável estado em que se encontravam mais de quinhentos filhos de operários e operárias da nossa terra. Em 1922, como era risível a falta de sensibilidade: num recenseamento de aproximadamente oitocentas crianças, apenas cento e setenta estavam matriculadas na escola oficial. Os culpados, como pensava o diretor das nossas escolas, não eram os professores. Eram apenas quatro, os professores, considerados abnegados, diligentes e cuidadosos, mas em número defeituoso para uma população em crescimento.
À procura da caixa negra da desventura escolar, não era a qualidade dos professores colocados em S. João da Madeira que dececionava o professor Nogueira. Pelo contrário, o nosso diretor interrogava-se, sufocado, com outras analogias: como explicar que o Couto de Cucujães, ali ao lado, com um número semelhante de crianças em idade escolar, tivesse mais dois professores a trabalhar anualmente na sua escola oficial? E ainda havia por lá a Gandarinha, da Condessa de Penha Longa, com a sua centena de crianças pobres a irem à escola e a serem bem tratadas. Uma história exemplar, a da condessa. A sua história de vida merecia ser estudada. Com apenas vinte anos, Clementina Libânia tinha redigido o seu primeiro testamento em 1860, quando o pai José morreu. Clementina tinha casado com o tio Sebastião cinco anos antes e recebera do pai, por dote, noventa contos de réis. Como alguém escreveu num número do ´Arquivo Bibliográfico´, de 1890, as prendas, a ilustração e a inteligência fizeram dela, enquanto mulher, ´uma pérola destacada do colar da Divindade´... Naquele testamento de 1860, Clementina Libânia tinha destinado uma parte dos seus haveres a uma instituição de caridade a edificar na terra do marido e do pai, ´para educação de crianças pobres aonde se lhes ensine em primeiro lugar a amarem Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmas, e em segundo lugar algum emprego com que possam granjear a vida logo que tenham idade para isso´. Dezasseis anos depois, no dia 6 de janeiro de 1876, quando Sebastião e Libânia já eram viscondes cosmopolitas e requintados, nasceu para perdurar, no Couto, o Asilo da Gandarinha.
Em 1922, no ano da inauguração do hospital do nosso conterrâneo em Rosário, nove professores a dar aulas no Couto, incluindo os da Gandarinha, apenas quatro professores oficiais em S. João da Madeira. Tinham passado dez anos desde que os nossos homens mais ilustres no Rio, o visconde Albino e o comendador Garcia, tinham mandado dinheiro para que, a expensas suas, fossem acrescentados mais dois salões na escola do ensino primário oficial. Uma década passada, não só havia falta de salas para dar aulas como não sobravam verbas para organizar a assistência escolar aos filhos menores dos operários da terra. Por aqueles anos, o diretor das escolas não tinha problemas em deduzir, nas preocupações dos notáveis da terra, a supremacia do hospital. Da sua abertura e dos cuidados vitais a prestar aos primeiros enfermos. A elite local andava então atarefada à volta da eleição dos primeiros irmãos que deviam gerir a Misericórdia até 1924. Para evitar atos traumáticos, a imprensa da terra atava as recomendações: todos os eleitores deviam refletir, com competência, sobre os nomes que iam escolher para dirigir a Santa Casa. O raciocínio era elementar: ´Se o que está feito... deu muitas canseiras e não poucos desgostos´..., o que estava para vir, apesar de todos os esforços, auxílios e boa vontade, ´deve preocupar muito o espírito e a atenção dos conselheiros que forem escolhidos para ocupar os lugares da mesa gerente´. Aptidão profissional dos eleitos a conjugar com o amor ao próximo e o espírito de sacrifício. Oliveira Júnior dixit, o primeiro provedor no apelo ao voto com ciência e consciência, apartando a afeição pessoal e a inclinação política, ´se querem ver próspera e engrandecida essa bela obra de caridade, a primeira da nossa terra´.
Três filhos de S. João da Madeira, industriais radicados no Porto, tinham doado o belo portão da entrada principal do hospital; os dois outros filhos mais ilustres a viver no Rio, o visconde e o comendador, tinham oferecido todo o mobiliário e roupa para a enfermaria. Os eleitores da mesa que seguissem os modelos. Ou seja: ´Deviam votar, pois, com ciência e consciência; e depois de eleita a mesa, ajudá-la com toda a lealdade e franqueza a vencer as dificuldades futuras, que não vão ser poucas nem pequenas, devido sobretudo à terrível situação económica que atravessamos, completamente anormal e cheia de imprevistos´. Parente desfavorecido, o nosso diretor das escolas também apareceu para falar na urgência de abrir novas salas de aula e de organizar a assistência escolar aos filhos menores dos operários, a maioria dos quais não ia à escola. A fim de aprontar algum dinheiro, António Francisco Nogueira apresentou à opinião pública uma sugestão módica e acessível para resolver o problema: a de ´cada operário contribuir com trinta centavos por cada feria, ficando em depósito na empresa. Esta, por sua vez, adicionará dez por cento do mesmo depósito´. Para quê? As verbas obtidas seriam destinadas à compra dos livros e vestuário dos filhos menores dos operários enquanto frequentassem a escola; e a dar-lhes uma refeição diária nos dias não feriados. Num primeiro momento, como acontecera com o hospital de Luiz Ribeiro, as somas recebidas de operários e patrões, assim como os donativos de outros beneméritos, seriam aplicadas na construção, montagem e equipamento de um novo edifício escolar, higiénico e adequado para dar aulas, e só depois despendidas no vestuário, nos livros e na cantina com refeições gratuitas. O diretor das escolas procurava ser insinuante e persuasivo: aqueles tostões, tirados da féria semanal de cada operário, resumiam-se, durante o ano, a uma soma de três ou quatro dias de trabalho. Coisa pouca, sendo assim.

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