Opinião

Falem verdade e levantem-se do chão

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A 13 de Maio de 1940, Winston Churchill proferiu o discurso onde repetiu as famosas palavras que tinha dirigido horas antes aos novos membros do seu governo de unidade nacional: “Não tenho nada a oferecer senão sangue, trabalho, lágrimas e suor”. Uma frase que continua a inspirar milhões em todo o mundo.
Mas há uma outra frase, bem menos conhecida, que Churchill dirigiu ao General Ismay nesse mesmo dia: “Pobre gente, pobre gente. Confiam em mim, mas não lhes posso oferecer nada senão um desastre, durante bastante tempo.”
Passaram 82 anos e, em plena crise internacional, ouvimos, nos últimos dias, a Presidente da Comissão Europeia e o Presidente Macron proferir discursos no Parlamento Europeu. Discursos esses que, infelizmente, praticamente nenhum cidadão europeu ouviu sem a mediação das elites (onde se inclui o jornalismo feito em Bruxelas) - se é que até isso ouviu.
Ursula von der Leyen descreveu nesse discurso o novo pacote de sanções e a estratégia de redução da dependência energética face à Rússia. E acrescentou os lugares-comuns do momento sobre a defesa dos valores europeus. Macron, por seu turno, ofereceu um caminho muito inteligente e viável para um novo desenho institucional da União Europeia – com a criação de uma Comunidade Política Europeia em torno da União e a possibilidade dos países do Euro e Schengen poderem acelerar a sua integração, sem estarem sujeitos a vetos de outros países, como a Hungria.
Macron, o único verdadeiro líder do sonho europeu ainda em funções, afirmou que não estamos em guerra contra a Rússia. Formalmente, é verdade. Mas na prática, é falso. E é uma guerra com consequências.
Nenhum destes governantes europeus teve coragem churchillIana para nos dizer a verdade. Não disseram uma única palavra sobre os custos que nós, europeus, vamos ter que suportar. Não explicaram como o futuro será diferente, mesmo depois da guerra acabar ou da Rússia ser derrotada. Ignoraram o aumento do custo de vida, pela inflação e pelos custos energéticos - não só nas contas domésticas, mas no agravamento da competitividade das nossas exportações, tornando-nos mais pobres. Não alertaram para as dificuldades acrescidas que empresas europeias enfrentarão em mercados menos eurocêntricos. Nem avisaram quanto ao aumento da intolerância e impaciência com profissionais europeus. Ou sequer anteciparam a diminuição do respeito pelo ocidente nas sociedades mais jovens e populosas do mundo, e como isso reduzirá o valor de tudo o que fazemos, dizemos ou publicamos, proletarizando-nos à escala mundial. Não sublinharam que enfrentaremos um aumento de custos transacionais em vários sectores, devido aos riscos decorrentes da desconexão em curso nos sectores financeiro e tecnológico. Ignoraram as dificuldades que famílias transnacionais vão enfrentar – desde crimes de ódio, até ao ruir de projetos de vida, até agora assentes num ideal construído pelas gerações passadas e que já não será possível (nem sequer para sonhar com pensões dignas).
No fundo, falharam em nos mobilizar para um necessário esforço coletivo. Que todos teremos que fazer para defender o que restar do nosso modo de vida, vencendo a guerra em que estamos metidos. Um esforço que devemos assumir e aceitar – e para o qual nos devemos mobilizar. Porque estamos em guerra. Mesmo que ela só apareça no televisor que controlamos com o comando na nossa mão. Aos nossos líderes, pede-se que se libertem da sua rotina burocrática (ou da banalidade das selfies) e se levantem do chão. Como Churchill. Dizendo a verdade.

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