
Sentado, estou à mesa de um café, enquanto tomo a minha acostumada bica. Olho através da vitrina e observo os movimentos exteriores. À minha frente, noutra mesa, estava uma pessoa de cabelos brancos, e o rosto nas rugas de expressão. A seu lado, apoiada na mesa, está a sua bengala companheira das caminhadas. Reparo no seu olhar…
Olhar fixo, sombrio, olhando tudo e todos os que por ela passam do outro lado do vidro. Nesta associação de ideias, olho uma vez mais e reparo que nos seus olhos, há um certo brilho que veio iluminar aquele rosto cansado pelo peso dos anos. A sua boca se entreabre como quem vai dizer algo. Estático, ei-lo olhando duas crianças que na rua passam de mãos dadas vindas da escola, correndo, saltando, coisas próprias do tempo da infância. Nisto, as duas crianças com os seus sacos às costas abeiraram-se da vitrina, olharam para dentro do café, fitaram aquele homem, que parecia não deixar escapar o menor pormenor produzido por aqueles inocentes, que depois de lhe dirigirem algumas caretas feias correram em debandada, naturalmente com “medo” de não serem bem-sucedidos. Decerto que naquele momento, viveu um pouco da sua vida passada e pensou que fora também assim. E que anos maravilhosos teriam sido esses, os quais jamais voltarão!
Também pensei e meditei, como tudo isso tinha algo de belo, de maravilhoso. Sou “jovem” ainda, mas, nesse momento, encontrei-me entre as duas situações concentrado naquele olhar cheio de saudade e nas crianças que ao longe desapareceram ao dobrar da esquina.
Decorreram mais alguns minutos, o idoso levantou-se, pega na sua bengala, sai, e lá segue o seu caminho coxeando entregue ao seu destino… Eu continuei sentado, contemplando o ar místico que respirava. Veio-me à lembrança do que eu já fora e de como viria a estar nesse tempo - como o idoso com as suas rugas e seus cabelos brancos, se Deus permitir que eu lá chegue…
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