Opinião

Os três Salazares e outras coisas

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Abriu-se o armário. O cheiro a bafio é imenso. Os salazaristas, após tantos anos de democracia, perderam a vergonha do passado repressivo, obscurantista e belicista que impuseram ao povo Português durante 48 anos. O “sistema” permite que possam falar e agir em liberdade. Agora já não basta um Salazar – querem três.
O líder da extrema-direita está sempre na TV. A sua gritaria em voz aguda e estridente, abafa todos oponentes. A falta de respeito pelas instituições e pelos outros intervenientes políticos é indecorosa. A má educação e a mentira são uma arma recorrente. Alguns tentam desvalorizá-lo dizendo que em breve se vai “normalizar”. Nós não acreditamos nesse milagre.
O crescimento actual das forças neofascistas nas democracias tem como principal causa o descontentamento económico e social. A pobreza, os baixos salários, a precariedade laboral, o aumento das desigualdades, a degradação do Serviço Nacional de Saúde (SNS) e as dificuldades com a habitação e a educação são os seus fertilizantes.
Porém, não sejamos ingénuos e não pensemos que estas forças reaccionárias apareceram de natureza espontânea originadas só por razões domésticas dos países. As condições de cada país são mais ou menos propícias. O seu aparecimento é uma ocorrência complexa não alheia a instituições transnacionais organizadas em rede com ligações em quase todo o mundo.
Uma rede que promove o discurso de ódio e o descrédito da democracia e das suas instituições. O demagógico ataque aos 50 anos do 25 de Abril são um exemplo perfeito disto.
Falam de corrupção como se antes, durante a ditadura, o País estivesse incólume a este mal. No salazarismo a corrupção era imensa, mas estava protegida pela censura. Os portugueses não foram informados de milhares de casos de corrupção porque a censura não deixava que essas notícias fossem dadas pela comunicação social.
Os populistas de extrema-direita tentam desacreditar o regime que o 25 de Abril construiu.
Falam contra do SNS como se antes houvesse algo melhor, mas não havia. Os doentes se tinham dinheiro pagavam os cuidados de saúde. Se não tinham dinheiro rezavam para não morrer. Às vezes, com um bocado de sorte, dependendo do local onde viviam, havia uma instituição de beneficência que os ajudava, mas só às vezes. Mesmo já no final da ditadura a maioria dos partos ocorriam em casa e eram feitos, na maioria das vezes, por pessoas não habilitadas. A mortalidade infantil envergonhava o País.
Mas podemos falar sobre muitos mais assuntos. No salazarismo o analfabetismo era muito grande.
A escolaridade obrigatória passou a ser de 6 anos só no ano 1967 (antes era 4 anos). Nessa altura vários países tinham 9 ou 10 anos e discutiam a possibilidade de aumentar. Em 1974, na nossa cidade, mais de metade das habitações não tinham casa de banho. Apesar das dificuldades dos dias de hoje a pobreza actual é incomparavelmente menor à daquele tempo.
Não havia liberdade. Durante a ditadura foram presos, por pensarem de forma diferente da salazarista, mais de 35 mil homens e mulheres. Muitos milhares de opositores (homens e mulheres) foram sujeitos a torturas. Várias centenas foram mortos às mãos da polícia política. E, como se não bastasse, Salazar obrigou cerca de 900 mil jovens portugueses a combater em África. Durante os 13 anos de guerra colonial cerca de 9 mil morreram e pelo menos 12 mil ficaram mutilados.
Poderíamos continuar a listar temas para desmascarar a falácia argumentativa da extrema-direita, mas seria demasiado para o espaço deste artigo.
Há um rol sem fim de factos que abona as virtudes da Revolução do 25 de Abril. A tentativa de a ofuscar com a campanha dos acontecimentos de 25 de Novembro de 1975 não passou. A parada militar não teve apoiantes. Não houve rosas brancas nos canos das espingardas e Povo não desceu a Avenida da Liberdade no dia 25 de Novembro de 2025.
Para nós, a melhor maneira de combater as narrativas que a extrema-direita propaga é defender a Liberdade e lutar: pela erradicação da pobreza, pela melhoria dos salários, pela diminuição da precariedade laboral, pelo reforço do SNS, pelo direito à habitação, pela educação e pela Paz.

O autor escreve segundo as normas anteriores ao Acordo Ortográfico de 1990.
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