Opinião

Onde o som ganha futuro – O impacto do projeto AcáMúsica

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A música arrepia. Mais do que o frio.
Essa união de sons e silêncios organizados no tempo expressa emoções, ideias e experiências. Pode ser ritmo, melodia, harmonia, timbre ou intensidade. A certeza é que, para além da técnica, ela representa expressão cultural de cada povo, comunica o que não dizem as palavras, leva a memórias e identidades. Por isso se sente.
Poderemos assumir que a filosofia pergunta o sentido da música e a ciência explica como é que ela funciona? Gosto de pensar que sim, que a música é uma espécie de ponte entre a “matemática do mundo” e a emoção humana.
A Academia de Música de São João da Madeira (AM) tem vindo a afirmar-se como capaz de assumir essa ponte, porque significa um espaço de formação artística, cultural e humana, desempenhando um papel essencial na vida educativa da cidade.
Desde outubro de 1981, a AM, oficialmente fundada, assumiu a missão do ensino e promoção da música no nosso concelho, reforçado, em 20 de julho de 1990, com a autorização definitiva de funcionamento.
Mas mais do que ministrar o ensino da música, sabemos que a AM ensina a escutar, a persistir e a crescer — valores que encontram uma expressão particularmente significativa no Projeto AcáMúsica.
Este projeto surge em 2021, objetivando comemorar os 40 anos de existência da AM e mantém-se até ao momento, em parceria com a Câmara Municipal. Apresenta-se ao público no Auditório Marília Rocha, no primeiro domingo de cada mês, estruturando-se como uma ponte entre a música e a comunidade educativa, aproximando alunos, professores, famílias e nunca fechando portas aos que nele querem entrar. Já com quatro edições no seu currículo e a entrar na quinta, este projeto, sob a direção artística de Joana Raposo, integrou, na primeira edição, os comentários do Professor Mário Azevedo e, nas seguintes, os comentários do Professor José Luís Postiga.
Tenho a certeza de que quem assistiu a uma ou mais sessões do AcáMúsica, reforçou a ideia de que a música não é apenas um saber reservado para alguns. É, antes, algo capaz de contribuir para o desenvolvimento global, não só dos estudantes, mas de todas as pessoas que participam em cada sessão. Será, porventura, o grande feito deste projeto, acreditem, porque promove a diversidade da oferta formativa, contribui para a formação de públicos e qualificação das comunidades, incentiva projetos emergentes da música, e, através dela, estimula a sensibilidade artística, a reflexão e o pensamento crítico.
Por isso é uma atividade pedagógica, estruturada de forma leve e fluída. Nela existe o desenvolvimento de competências musicais através da possibilidade de assistir a grandes atuações (dezenas, já), mas também do despertar das capacidades de concentração, da confiança, da apropriação de um espaço que, sendo coletivo, incorpora em si as impressões de quem o recebe.
O quotidiano da AM ganhou uma nova dimensão com este projeto. Os corredores, imagino, continuam preenchidos com sons de teclas, cordas, sopros e vozes muito para além do que acontece às 11 horas dos primeiros domingos de cada mês. A música deixa de ser apenas um percurso individual e passa a ser vivida como uma experiência comum, numa contribuição para um resultado maior, acontecendo, assim, um coletivo mais forte, alicerçado pelo interesse dos alunos e pela prova de que aprender música pode ser exigente, mas também profundamente motivador. A aprendizagem torna-se próxima, dinâmica e ligada à realidade.
Num mundo marcado pela rapidez e pela dispersão, a AM, através deste projeto, oferece um tempo diferente: o tempo da escuta, do cuidado e da construção. Ensina que a música exige atenção e compromisso, mas devolve sentido, expressão e pertença – experiências que deixam marca e podem despertar vocações, mas que, acima de tudo, criam uma relação estável e persistente com a arte.
Desta forma, a AM continua a cumprir a sua missão educativa e cultural. É muito bom constatar, no início de cada sessão deste projeto e antes da primeira nota, aquele (tão bom) silêncio partilhado que preenche o auditório Marília Rocha. É um silêncio cheio de possibilidades de descobertas, de aprendizagens e de vivências — e é, também, nele que o Projeto AcáMúsica ajuda a construir o futuro.
Há! Já agora que (infelizmente) o cinema saiu do espaço cultural do nosso concelho, aproveitem e tentem colmatar a lacuna assistindo ao AcáMúsica…

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