Opinião

O tempo do socialismo

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Após 25 de Abril de 1974, os partidos divulgaram os seus programas políticos. Era um tempo de muitas expectativas para a juventude. Lutávamos pelo fim da guerra colonial. Liamos com muito interesse os documentos divulgados pelos partidos.
Havia uma grande sede de leitura. Às mesas de café discutíamos politica, economia e literatura. Para um grande número de jovens da década de 1970, o futebol tinha uma audiência muito baixa, não havia craque que os deslumbrasse.
A “Declaração de Princípios e Programa do Partido Socialista” de 1973, na sua versão originalmente escrita num país estrangeiro, numa máquina de escrever que não tinha til (~) e o substituiu pelo acento circunflexo (^), andava nas minhas mãos. Juntamente, o “Programa do PCP” e o “Rumo à Vitória” de Álvaro Cunhal.
Causavam-me enorme confusão as propostas dos dois partidos - do PCP e do PS - serem tão parecidas. Numa sessão de esclarecimento do Partido Socialista, no Sindicato de Calçado, questionei Carlos Candal, fundador do PS e antifascista muito prestigiado, sobre as muitas semelhanças programáticas do PS e do PCP. No seu estilo de experiente tribuno, com a voz grave que o caracterizava, respondeu-me com poucas palavras (cito de memória) “tens razão nas semelhanças, mas nós [PS] queremos ir mais devagar”. Ou seja, a diferença entre o PS e o PCP era o ritmo. Os objectivos eram semelhantes.
Na Declaração de Princípios, no ponto 2, o PS dizia que tinha “por objectivo a edificação em Portugal de uma sociedade sem classes” e apontava como meio para chegar lá a “colectivização dos meios de produção”.
No ponto 6 da declaração o PS propunha-se combater “o sistema capitalista e a dominação burguesa” e no ponto 7 repudiava aqueles que, “dizendo-se social-democratas ou até socialistas, acabam por conservar deliberadamente ou de facto, as estruturas capitalistas”.
No programa, do PS daqueles tempos propunham-se medidas muito revolucionárias na economia. Realço duas (subcapítulo 2):
- o estabelecimento do “controle dos trabalhadores dentro da empresa”;
- a abolição do direito dos “patrões de despedir, devendo qualquer decisão de despedimento, individual ou colectivo, ser discutida e aprovada pela comissão de trabalhadores”.
Na Politica Industrial (subcapítulo 5) o PS defendia a “planificação socialista”.
Nas Nacionalizações (subcapítulo 6) apontava um plano de nacionalizações “dos bancos, dos holdings financeiros, das empresas necessárias à promoção e arranque de regiões atrasadas” e outras mais como as “dependentes de privilégio politico, e das grandes empresas que exploram a produção e distribuição de energia, o armamento, as comunicações e os transportes, nomeadamente o grupo CUF, a siderurgia nacional, o complexo petroquímico de Sines e a SACOR”.
Na Reforma Agrária (subcapítulo 7) o PS defendia de modo claro “a expropriação” do latifúndio.
Não quero aborrecer os leitores, mas não resisto a mais uma citação, no capitulo da Politica Internacional onde o PS anunciava a “desvinculação do País relativamente aos compromissos militares com o Pacto do Atlântico” (subcapítulo 3) e defendia o “desarmamento”. Lembro que em 1974 estávamos em plena Guerra Fria, ainda existia o Pacto de Varsóvia.  Neste assunto, o PCP era muito menos radical, limitava-se a apelar ao fim dos blocos militares, exactamente como ainda o faz hoje.
Por fim em 1977 o PS decidiu, pela voz de Mário Soares, meter o “socialismo na gaveta” onde até hoje o manteve. Será que algum dia o vai tirar? Um amigo garantiu-me que Pedro Nuno Santos o fará.
Não acredito. Mas oxalá esteja enganado!

O autor escreve segundo o antigo Acordo Ortográfico

 

 

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