Opinião

O S. João e a pioneira embarcação do rio da Ponte

• Favoritos: 13


Há volta de 75 anos foi quando terão começado os festejos do S. João da Ponte. Isto é, já com ornamentações e iluminações a sério e sob o pioneirismo de Zulmiro da Mota Santos.

Mas as origens remontam a muito antes, quando, ainda muito jovem, o Zulmiro, nascido e criado no demolido (há uma década) casarão cor-de-rosa em frente à Ponte Nova, de seus pais (Zulmiro e Eulália), desviava, não pacificamente, a maceira lá de casa, transformando-a em pequena embarcação, para seu recreio no rio. Paralelamente, pelo S. João, montava atraente cascata nos degraus da escada de granito, a menos usada da sua casa e virada ao rio. Tempos em que sua mãe colhia viçosos agriões no rio, junto à Ponte, ali, com água baixa.
A cascata e a maceira/barco, embrião e fórmula do que viria a ser o célebre S. João da Ponte dos anos 50/60, onde as grandes atracções eram uma bateira e dois barquitos a remos. Zulmiro Santos deslocava-se ao Carregal (Ovar) contratando o aluguer dos barcos e o homem que, durante os dias de festa, à vara, fazia navegar uma bateira pejada de gente, percurso entre uns 30 metros a montante da ponte nova e o provisório açude de tábuas a uns 60 metros a jusante da ponte velha.
Entretimento maior, que fazia a Ponte Velha encher-se sobretudo de raparigas, era assistir às peripécias de entusiastas, animados por uns copitos, ao fazerem, em pé, gingar os barquitos até os virarem e eles mergulharem no rio, de fato e gravata. Para gáudio da grande assistência.

Zulmiro Santos (Orim Luz), em S. João da Madeira, emitindo rádio, na Estação. Início dos anos 40

A par de Zulmiro Santos, entre outros, referência para Artur Bastos, seu cunhado e colega nas comissões da festa e seu continuador. Outro bairrista, a merecer, em 1957, dedicação de versos de autoria de Zeca Quintino e lembrados na recente edição de O Regional de 30 de Junho.
Na mesma edição deste jornal e a propósito do S. João da Ponte, permitam-me que realce fotografia assinada Orim Luz (inverso de Zulmiro) pelo punho do próprio, pseudónimo que usava nas colaborações em O Regional, de que destaco acesa polémica com Belmiro Silva sobre o local para construção da futura piscina de S. João da Madeira. Orim Luz, puxava a brasa para a sua sardinha; defendia que deveria ser na Ponte, argumentando com o rio e a água necessária; Belmiro Silva esgrimia com o lugar das Corgas (sua sardinha…).
Zulmiro da Mota Santos (1915-1963), precocemente falecido, vivia intensamente as coisas ligadas à sua terra. Com 25 anos foi eleito para a Mesa administrativa da Santa Casa da Misericórdia de S.J.M.; criativo, emitiu rádio em “estúdio” na Estação, pertenceu, como exímio dançarino, ao Rancho Regional Laborânea, fundou a primeira pastelaria de S. João da Madeira, a Confeitaria Labor, foi dirigente da Banda da Música e elemento da Irmandade do Santíssimo Sacramento.
Neste âmbito, com suas ideias avançadas e com o aparecimento da Televisão, propôs ao então pároco, Padre António Aguiar, que na igreja, durante as novenas de Maio, em grande ecrã, em comunhão com Fátima, fosse transmitido o Terço da Cova da Iria. Tendo o Padre Aguiar reagido azedamente, Zulmiro Santos, não resignado, por escrito expôs ao Paço a sua ideia, claro, em vão.
Volvidos anos, como intermediário da Agência Abreu, o Padre Aguiar (como bastantes párocos) passaria a publicitar viagens turísticas ao estrangeiro, inicialmente a locais religiosos, e a exibir vídeos das mesmas. Como (até) o Padre Aguiar tinha mudado... Então, o vanguardista Zulmiro já não era vivo.
Um dos seus últimos envolvimentos nos acontecimentos sanjoanenses aconteceu aquando dos Jogos Luso-Brasileiros e nas jornadas disputadas no recém Pavilhão de Desportos da ADS. Reminiscências dos anos, embora poucos, que, conjuntamente com Augusto Moreira (Padaria do Souto) tinha trabalhado no Rio de Janeiro. Entusiasmado, na sua viatura, com grande bandeira de Portugal de um lado e do outro, ainda maior, a brasileira, cedida pelo “Salão Brasil” (R. Jaime Afreixo), disponibilizou-se para engrossar a caravana que se deslocou ao Picoto, fronteira dos distritos do Porto e de Aveiro, na recepção à comitiva brasileira.
Assim, desvenda-se o enigma, para muitos, de Orim Luz, e faz-se luz sobre a origem e primórdios do nosso S. João da Ponte.

13 Recomendações
66 visualizações
bookmark icon