Opinião

O País enlouqueceu?

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1. O país político e mediático anda há dias a discutir uma “magna” questão: António Costa pediu a Marcelo para chamar a Belém a Procuradora-Geral da República? O PM confirmou em Conselho de Estado que fez esse pedido? Ou foi o PR, ele próprio, que tomou a iniciativa de chamar Lucília Gago?
Salvo o devido respeito pelos protagonistas, esta querela não interessa à generalidade dos portugueses. É mais uma prova de que a política portuguesa está senil e decadente. Discute-se o acessório; ignora-se ou desvaloriza-se o essencial.
O PR chamou a PGR a Belém. Com pedido do PM ou sem pedido do PM, fez bem. Cumpriu a sua obrigação. Num caso desta delicadeza, um comunicado lacónico não chega para decidir. É preciso uma confirmação oficial dos factos.
O PM, que anda desesperado e de cabeça perdida, faz mal em passar os dias com insinuações. Devia ter a coragem de confirmar o pedido que fez ao PR ou então a clareza de o desmentir. O meio termo especulativo é indigno de um PM.
2. O que mais surpreende nesta história rocambolesca é o tempo que se perde com verdadeiras inutilidades. Não há noção das prioridades e dos problemas que verdadeiramente importam ao país real.
Os hospitais, de norte a sul do país, estão a entrar numa situação de caos. As urgências rebentam pelas costuras. Os doentes esperam, desesperam e mergulham em angústias sérias. As negociações do Ministro com os sindicatos arrastam-se penosamente. Enquanto isto, a bolha político-mediática arrasta-se a discutir tricas e banalidades.
A economia está próxima de entrar em recessão. O investimento estrangeiro retrai-se com a ideia de corrupção e falta de transparência nos licenciamentos em Portugal. As empresas estão preocupadas porque há menos encomendas que no passado. A própria taxa de desemprego está paulatinamente a aumentar. Enquanto isto, o país político entretém-se na intriga e na especulação política.
A pobreza aumenta. Os sem abrigo crescem. Os jovens emigram. Os pensionistas veem-se gregos para viver com pensões de miséria. As famílias “torcem-se” para se conseguirem aguentar com os magros orçamentos que têm. Enquanto isto, o país político e mediático distrai-se com as guerrilhas em torno da PGR e da sua chamada a Belém.
Esta falta de sintonia entre o país político e o país real é assustadora. Uma autêntica loucura. A prova mais inquietante de um divórcio entre os políticos e a sociedade. Não admira que, neste quadro de decadência e senilidade política, os populismos cresçam e os extremos aumentem de importância. É assim que se mina a qualidade da democracia.

PS: Sou Conselheiro de Estado. Por isso, conheço bem os factos. Mas nunca violarei o dever de sigilo. Apesar das regras absurdas que impedem a divulgação das atas durante 30 anos. São regras completamente absurdas e exageradas. Um tempo de sigilo de 5 ou 10 anos, no máximo, era mais do que suficiente. Quando lerem as atas perceberão que tenho razão. Não há nenhum segredo de Estado a defender.

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