A luz sem calor do sol poente, faiscava em betas coloridas pelas chapadas e pendores, onde se reclina o Porto. Brandamente vagueou indecisa, esmaltando de oiro e safira as torres e claraboias da cidade, e atufou-se nas ondas para o lado da Foz, amortalhando-se na penumbra pacífica do crepúsculo.
Neste expirar suave da tarde, revestiram-se as casas das roupagens geladas e flutuantes da neve, que parecia vir ofertar nestes fins de dezembro aos dois anos rivais, a um, o sudário do
passado, ao outro, a faixa alvissareira e cândida com que sorria ao futuro.
Os clérigos projetavam o elegante perfil da sua torre célebre, no fundo do céu, progressivamente esmaecido.
Sumiram-se as derradeiras claridades do dia, e a Rainha do Douro, com os monumentos de que se alinda, com as agulhas e capitéis das suas igrejas e palácios, também se ia a afundir de todo no seio escurecido da noite, quando os focos elétricos, numa explosão de luz, como sentinelas solícitas e vigilantes, laminaram em cintilações trémulas, os lençóis de neve.
Através das ruas povoadas, iluminaram-se os rasgões compridos e fundos, que os automóveis abriam em todas as direções, na deslumbrante e imaculada alvura desta noite serena.
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Dos estudantes que constituíam o nosso “Estado Livre”, seis auferiam, a estas horas, junto aos poiais paternos, na província, as delícias discretas da família. Os outros, uns dez, menos bafejados, esse ano, pelos Lares distantes, passaríamos as férias na cidade da Virgem.
Futuros engenheiros, médicos em embrião, industriais incipientes, quinhoara-nos, a todos, a Providência com o tesouro inapreciável da educação cristã.
Foi a este fogo de amor, que se forjou o elo de oiro, que nos congregava a todos. Aqui, era-nos lícito professar às claras, sem notas discordantes, e com plena liberdade, as crenças religiosas que se nos cristalizavam em convicções sagradas no fundo do coração.
O “Estado Livre” de S. Luís (Gonzaga, é claro) era um estado católico. Não digo que fosse modelo de estados, tão gastas andam hoje estas expressões de modelo e de liberdade; nem seríamos nós rapazes novos, se nos não agitassem a monotonia da vida ondas não raro alterosas, de falatórios e disputas. Mas eram dissidências ou prélios meramente verbais, uma ou outra vez de doutrina, nunca de vias de facto.
Quem conhece as «repúblicas» clássicas do In illo tempore, fica a saber o que era esta, excetuadas as brincadeiras pesadas e cruéis, que baníramos irremissivelmente do nosso código penal.
Estudantes e rapazes, sim; mas cavalheiros, sempre!
O código administrativo, esse, era, sem divergências sensíveis, o mesmo. Cada mês se encarregava um, do meneio da casa. Tinha carta branca no tocante à mesa. Neste pontoo seu poder era absoluto. Era um ditador económico; e nesta ocasião achava-se investido destas funções supremas o José Lira, rapaz de 23 anos, terceiranista de medicina.
Era a honradez e a modéstia personificadas. O primeiro dos seus ucasses, foi exigir para si, a fim de se aboletar e instalar nele o seu quartel general, um dos quartos piores de toda a habitação, no segundo andar, à esquerda.
A casa em que vivíamos era um vasto prédio, sem nada que atraísse a vista. Por fora, azulejos simples; por dentro, cal extreme. O rés-do-chão ocupava-o um armazém de móveis de luxo e no primeiro sobrado, distribuíam-se os quartos e dependências do “Estado Livre”, o qual se estendia também pelo segundo, até ir lindar com uns pequenos aposentos com comunicação interna, cedidos a um antigo professor, que vegetava ali, sem trabalho, com a mulher doente e uma filha dos seus sete anos, engraçada e viva.
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Às 20 horas, já todos os cidadãos do “Estado Livre” nos preitejávamos, portas adentro do nosso território em festa.
Sem combinação prévia fomos invadindo a morada do Lira, e também, sem prévia combinação, o atanazávamos para que nos desvendasse os altos segredos e disposições culinárias acerca da consoada iminente.
O banquete daria que falar! Havia dinheiro, não que sobrasse (impossível!), mas suficiente. As respetivas famílias, como compensação à nossa abnegada aquiescência em não ir a férias, fora generosa e enviara, a cada um, alguns escudos complementares.
Às nossas impertinentes inquirições, respondia invariavelmente o Lira, fleumático:
- Estas coisas não se preguntam; comem-se! O quarto do Ditador era estreito e frio, e, ainda que se ia tornando tépido com a aglomeração de tanta gente, o fumo dos que sacrificavam a Tabacina, e de que se impregnava o quarto, quase que nos afugentava para baixo.
Resolvíamo-nos já a abandoná-lo, quando o Lira nos deteve com um gesto:
- Calem-se um instante e oiçam! ...
Fez-se silêncio e escutámos pela porta entreaberta. Ninguém pensou na indiscrição que cometia. Uma voz pura de criança alternava com palavras quebradas e sumidas de homem, ao parecer, de idade.
- Papá, não diga isso! Porque diz que o Menino Jesus não vem este ano!
- Não vem, não! Este ano não vem! ...
- Mas veio o ano passado e trouxe muitos doces e brinquedos para a Mariinha (a Mariinha era a filha dum vizinho).
- É porque ela é melhor que tu!
- Isso é ela! Na escola está sempre a ser castigada pela mestra; não olha nunca para a pedra e mete os dedos no tinteiro...
- Ontem ainda julguei que o Menino Jesus nos traria alguma coisa . . .
- Então para que diz que ele não vem este ano?
- Ainda tinha esperanças; mas ontem fui ver se vinha, e não veio!
- E depois deitamo-nos sem cear!...
- É verdade – respondeu o homem num gemido. Tinha encontrado o pai do Menino Jesus, e ele disse que o Menino Jesus havia dado tudo o ano passado; que lhe não ficou nada para este ano...
Houve um silêncio.
Depois tornou-se a ouvir a voz da petiza
- Papá! Hoje também vamos para a cama sem comer?
- Não. Hoje o pai do Menino Jesus trazia consigo um pão e deu-mo para nós todos. E acrescentou, com uma voz que soava a agonia:
- Olha, Riquinha, pega na infusa e vai lá baixo ao pátio buscar água...
*
Nós escutávamos, imóveis, sérios. Compreendemos. O pai afastava a filha para não
chorar diante dela.
Reunimo-nos em conselho não de guerra, mas de família. Foi um conselho espontâneo, expedito, unânime. O Lira pegou num subscrito, que encontrou ali à mão, apontou nas costas dele uma quantia e apresentou o papel e o lápis à roda. Todos inscreveram alguns escudos. Um, mais abastado, completou a soma até chegar a 100.
O nosso ecónomo tirou da gaveta uma nota nova e desceu as escadas rápido e decidido.
Decorrido um minuto voltou, ofegante. Pusemo-nos a ouvir:
- Papá! - exclamou a pequena, ao entrar de novo - o papá falou com o pai do Menino Jesus, eu vi agora o irmão mais velho dele. Olhe o que me entregou ...
- Uma nota! Cem escudos! - estranhou o pai, aturdido: quem te deu isso?
- Estava a encher a infusa na torneira, chegou-se um homem ao pé de mim e disse:
- Toma lá, Riquinha, é o Menino Jesus que to manda. Eu preguntei-lhe: o senhor é da família dele? - sou o seu irmão mais velho.
E foi-se embora.
Donde virá isto? ... pôs-se a refletir o professor sem discípulos, e logo acrescentou - e na sua voz espontaram subitamente cintilações vibrantes! - Alegra-te, Riquinha, o Menino Jesus também virá para nós!...
*
Poucas vezes houve no “Estado Livre” de S. Luís, consoada tão alegre como esta.
O Lira esteve à altura das suas atribuições ditatoriais. Foi um anfitrião digno de tal noite. Não se esperdiçaram delícias panglossianas, mas foi consoada que não desdiria do seio amado da família.
Deliberámos serandar até horas da meia-noite, para a impreterível missa do galo. Iríamos à igreja dos Congregados que demorava perto, e onde se celebrava com brilho a tradicionalíssima função.
Dada a ação de graças, sem respeitos humanos - já dissemos que o nosso “Estado”, por isso que gozava da prerrogativa de “Livre”, era católico! - instalou-se cada qual como pode, nos canapés anti diluvianos que guarneciam a casa de jantar, trasvestida logo, como por qualquer deus ex-máquina, numa sala de ópera, que até invejaria S. Carlos.
Estudantes sem artistas, é roseiral sem rosas. Dois, sobretudo, eram verdadeiros virtuosos do violão e bandolim. O Lira garganteou com expressão, e logo outros entoaram em coro, aqueles versos então muito em voga:
Nossa Senhora faz meia,
Com linhas feitas de luz;
O novelo é a lua cheia,
As meias são pra Jesus.
O sarau animou-se. Houve protestos.
Correu-se a cantiga pela fieira da crítica:
- Estes versos não fazem sentido! ...
- Pobre do Menino Jesus se tivesse que andar com tais meias! ...
Um dos da roda, não só cantor mas poeta, improvisou com a voz sonora e quente dos seus 19 anos, indomáveis de fé, duas quadrinhas, dirigidas, uma à Mãe Divina, outra ao Filho suavíssimo, cujo nascimento se celebrava:
Toda a terra é noite escura,
Nenhuma sombra me espanta:
Levo sempre a alumiar-me
Os olhos teus, Virgem Santa.
E logo a seguir
Quando nasce ao longe o sol
Sorri a urze na serra,
Nasceste ao mundo, Jesus
Pôs-se a sorrir toda a terra!...
E todos entoaram em coro:
Nasceste ao mundo, Jesus,
Pôs-se a sorrir toda a terra!...
- Truz-truz!
- Entre quem é - responderam muitos a um tempo.
Era o infeliz professor.
- Queiram desculpar. É noite de Natal, bem sei, e é dia de alegria, mas a minha mulher está doente, muito doente. O médico veio hoje pela primeira vez e recomendou descanso e silêncio. Peço mil desculpas: sou impertinente, mas não é por mim, é por ela...
A Riquinha veio com o pai e enfiou a cabecita pela porta semiaberta.
- Fique descansado! Daqui a um quarto de hora saímos para os Congregados. A casa vai ficar mais silenciosa que um Saara – respondeu o Lira.
- Papá! – exclamou a criança, é a voz do irmão mais velho do Menino Jesus. É ela mesma. O professor ficou um instante perplexo e compreendeu tudo. A comoção foi mais valente que o seu orgulho de pobre. As lágrimas marejaram-lhe os olhos.
- Meus senhores - balbuciou ele, como para agradecer...
- Quais senhores, qual nada! – bradámos todos. Não o deixámos falar. Obrigámo-lo a sentar-se e a tomar qualquer coisa.
E, entretanto, parte da sobremesa e do mais que restava de sólido -e desta vez era abundante - deslisava com a rapidez incrível de vinte mãos prestidigitadoras, embrulhado à pressa nos jornais do dia, para as algibeiras e o avental da Riquinha, que estava muito vermelha, mas muito alegre e deslumbrada.
A ela parecia-lhe aquela casa, a do Menino Jesus, um palácio encantado, onde tudo surgisse sobre as mesas, como milagres da criação de Deus.
O pai desenhava-se em agradecimentos.
Ninguém o escutava. Ou antes ouvíamo-lo todos para o persuadir de que lhe havíamos de achar um lugar de repetidor.
E alcançou-se, não tardou muito.
*
Purificado pela barrela alvíssima da neve, o céu dum azul hialino de inverno seco, descobria-se amplo e distante, picado pelo enxame disperso das estrelas.
Quando descíamos para os Congregados, ao atravessar o pátio escuro da casa, uma estrelinha mais brilhante trepidava em lucilações misteriosas nos espaços indefinidos. Lembrámo-nos da estrela de maravilha, que ensinou, aos pastorinhos rústicos da Judeia, o caminho de Belém.
Nos Congregados a multidão, alegre e enroupada, entrava discretamente. Durante as sacras cerimónias ressoaram cânticos solenes e altos, que reboando pelos âmbitos sagrados do templo, feriavam de harmonia e paz o coração dos homens. As almas sentiam-se melhores, o órgão sabia desencantar sons verdadeiramente celestes, a oração voltava por si só ao redil da memória, e até Cristo no altar nem parecia crucificado.
Afigurava-se-nos que sorria com os braços abertos e que os cravos não eram senão grãos de incenso e mirra que depositaram outrora nas suas mãos tamaninas os Reis do Oriente.
Quando o Sacerdote traçou do alto do supedâneo alfombrado, num gesto sacrossanto e largo, o sinal da cruz, chamou o Lira a nossa atenção para um espetáculo singelo. Foi a recompensa que arrecadámos, e mais que avantajada, para o que muitos intitulariam generosidade e não passou de expansão natural de corações crentes.
Em frente do presépio, ajoelhava-se Riquinha ao pé do pai. O rosto transfigurava-se-lhe radiante e ressumbrava reflexos intensos de alegria e de fé profunda, avassaladora, triunfante.
- Veio! Veio! O Menino Jesus sempre veio - sentia ela com a certeza absoluta da verdade a refluir-lhe tranquila no coração ingénuo e puro.
- Veio! Veio! e há de vir todos os anos!...
- Não é verdade, papá?...
Serafim Leite – breve biografia
O Padre Serafim Leite nasceu em S. João da Madeira, a 6 de abril de 1890. Depois de frequentar alguns anos o Seminário dos Carvalhos, embarcou para o Pará e dedicou-se ao comércio no Amazonas. Aí trabalhou como caucheiro, convivendo muitos anos com os índios, aprendendo a sua língua geral.
Em 1914 entrou para a Companhia de Jesus. Tendo cursado Letras Humanas, em Múrcia, Filosofia em Granada, Espanha, e Teologia em Enghien, Bélgica, completou a sua formação religiosa e ascética em Paray-le-Monial, França, e professou, solenemente, em 1932.
Neste mesmo ano, meteu ombros à composição da «História da Companhia de Jesus no Brasil», obra monumental em vários volumes. No género histórico, publicou, ainda, outros trabalhos de que se destacam «Alão de Morais» (1929) e «Páginas da História do Brasil» (1937), bem como muitos livros e artigos dispersos por revistas portuguesas e estrangeiras.
Recebeu o Prémio Alexandre Herculano, em 1938. Reconhecendo os altos méritos de historiador de Serafim Leite, a Academia Portuguesa de História nomeou-o seu sócio honorário. Foi também membro de várias instituições portuguesas e brasileiras.
Recebeu o Prémio Alexandre Herculano, de 1938 e, nesse mesmo ano,
o Governo Português condecorou-o, com o grau de comendador da Ordem Militar de Santiago da Espada, Mérito Artístico, Científico e Literário.
Viveu grande parte da sua vida longe da terra que o viu nascer. Não obstante, teve um papel importante e decisivo nos momentos mais significativos da sua história, designadamente na Emancipação Concelhia.
Serafim Leite é o autor do brasão de S. João da Madeira.
A partir de 1949, passou a residir em Roma, onde viria a falecer, em 27 de dezembro de 1969.
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