Opinião

O caixote…

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O meu amigo Luís Moreira, o meu irmão de armas. A pessoa que pôs no meu mapa mental o nome de Castelo de Paiva, e outras coisas, para além da estrada sinuosa para lá chegarmos. Castelo de Paiva era onde vivia o meu amigo que me tratava como o irmão de S. João da Madeira. Estávamos em Carmona, Uíge, Angola, tínhamos direito a enviarmos um caixote com os nossos pertences para a metrópole. Olhamos para as nossas coisas e chegamos à conclusão de que um caixote servia para as juntarmos. Foi por esta altura que também decidimos que o caixote seria enviado para casa do Luís em Castelo de Paiva. Para quem não sabe, um quartel militar tem oficinas das várias especialidades que são necessárias no dia a dia, tal como as encontramos numa cidade. Claro está, que tinha uma carpintaria. E, foi o nosso passo seguinte, ir falar com os carpinteiros.
Como éramos uns tipos de fácil relação, logo nos brindaram, apresentando-nos as melhores madeiras africanas para a execução do nosso caixote. Nas mãos de especialistas, a coisa tornou-se simples, depois dos carpinteiros, vieram os pintores, os carregadores. Nós parecíamos dois mestres de obras. Limitámo-nos a colocar os nossos objetos dentro do caixote: garrafas de Whiskys, volumes de maços de cigarros (eram mais baratos), livros, peças de artesanato (que no meu caso tinham sido feitas especialmente para mim). O despacho foi fácil, aliás chegou a Castelo de Paiva muito tempo antes de nós regressarmos.
Curioso, como aquele nosso caixote viajou sem ninguém o incomodar! Quando já em Paiva, eu e o Luís o abrimos e ao olharmos um para o outro, ficamos com a triste sensação de que tínhamos sido uns totós demasiado honestos. A sensação era de que podíamos ter metido Angola dentro do nosso caixote, que ninguém, mesmo ninguém nos iria incomodar. Nos dias de hoje, ao lembrar-me daquele tempo e fazendo a retrospetiva e ouvindo o ruído enorme que vão fazendo os nossos políticos, de quem tem de dar a quem o quê, de há quantos dias, meses, anos, séculos. Eu penso que uma coisa eu não consegui meter no caixote: os amigos que perdi e os anos que lá deixei de 71 a 74. Eu e o Luís Moreira mantivemo-nos irmãos estes anos todos.
O Luís decidiu partir… Frio, perspicaz, extremamente inteligente. É um orgulho imenso ter-te tido como meu amigo, como meu irmão de armas. Descansa em paz, Luís! Nunca mais falamos do caixote. Na música, vamos até Cuba. O Luís iria adorar! Nos livros, “A escola e a repressão dos nossos filhos”, de Ivan Illich. Há caixotes para todos os gostos, só não queremos é sentirmo-nos dentro de um, ficando á espera que alguém o destape…

 

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