Opinião

O antigo lugar das Vendas – III

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Sobre a origem do nome “Vendas”, diz Maurício Antonino Fernandes, na sua obra “S. João da Madeira – Cidade do Trabalho”, que vem de VENDAS, do verbo VENDER, para exprimir lugar onde ficava o antigo centro cívico e comercial e onde havia de tudo para comprar e vender. Chegou a ser a praça principal da vila, hoje Praça Luís Ribeiro, mesmo no coração da autarquia, com lojas típicas e servido por uma estalagem, já existente em 1600, um coche de aluguer, etc. Recorda, por isso, velhos tempos.

Edifício do Central Hotel, em 1930. À sua esquerda, a casa de Francisco Luís da Costa. (Foto de Carlos Alberto da Costa)

Mais velhos do que possamos imaginar, diremos nós. Ninguém é capaz de dizer ao certo quando e por que razão se desenvolveu ali o centro da povoação.
É muito provável que aquele ponto do planalto, por onde serpenteava a velha Estrada Militar Romana, depois Estrada Real, fosse o local ideal para repouso e retempero das forças dos viajantes, antes de empreenderem a subida em direção ao monte Parada de Joaz (Mourisca) ou, no sentido contrário, em direção ao ponto mais elevado da Estrada (Quintã). Não é, pois, de estranhar que, nos antigos documentos consultados pelo nosso professor Maurício Fernandes, houvesse referência a uma estalagem, a uma ermida, um cruzeiro e também a uma fonte que dava de beber a quem por ali passava. Depois surgiram, naturalmente, os negócios de rua, os mercados, as feiras e as “vendas”, que eram pequenas mercearias, muitas vezes associadas a uma taberna.
No início do século XX, a “venda” do Serôdio – alcunha conferida ao proprietário do estabelecimento – destacava-se das outras três ou quatro que existiam no lugar, pela sua dimensão e, sobretudo, pela sua excelente localização. Nos andares superiores funcionava uma hospedaria, à época explorada por Francisco Luís da Costa Cardeiro, importante comerciante e proprietário local. Muito pouco para uma terra que crescia e se desenvolvia a um ritmo frenético.

Anúncio publicado no jornal “O Regional”, em 1923

Genuíno José António da Silva percebeu essa lacuna e, no seu espírito empreendedor, germinou a ideia de construir um hotel. Depois da morte de seu pai, Francisco José António da Silva, em fevereiro de 1907, as instalações dos “Grandes Armazéns” tinham dado lugar a uma “Fábrica a Vapor de Moagem”.
Em 1912, o proprietário fez erguer ao centro da fachada do edifício um andar, encimado por uma grande empena, que dava lugar a um espaçoso sótão. Genuíno Silva adaptou a parte baixa para nela ser instalado um salão de festas e a sala de jantar do estabelecimento que idealizara e que iria chamar-se “Central Hotel”.
No início dos anos 20 do século passado, o hotel de Genuíno Silva continuava a garantir qualidade de alojamento a clientes de passagem, na sua maioria homens de negócios, enquanto o salão de festas e a sala de jantar funcionavam como espaços privilegiados de lazer e de convívio das pessoas influentes da terra. Era lá que reunia o Grupo Patriótico Sanjoanense e foi lá que se tomaram, porventura, as mais importantes decisões para o futuro de S. João da Madeira.
Em 4 abril de 1928, o jornal “O Regional” publica um pequeno anúncio: Central Hotel – S. João da Madeira – Passa-se ou arrenda-se parte do prédio. Dois meses depois, o jornal publica uma notícia sobre o Hotel Central que é, ao mesmo tempo, um esclarecimento: HOTEL – Desde o dia 1 de Maio que encerrou as suas portas o Central Hotel desta vila. Porque não desse resultado ao seu proprietário? Nada disso. O Central Hotel encerrou as suas portas porque a falta de saúde dos seus proprietários não lhes permitia dirigi-lo convenientemente. E o jornalista acrescenta: São muitos os transtornos resultantes da falta de um hotel em S. João da Madeira, mas de um hotel limpo e asseado como o que acaba de fechar.
Oxalá que muito em breve apareça algum amigo de ganhar dinheiro a montar um bom hotel, suprindo assim a enorme falta que se está sentindo actualmente.
Rei morto, rei posto. Não passou mais de um ano até se concretizar o desejo do jornalista. Em janeiro de 1929, Aurélio Rodrigues Calado inaugura uma nova unidade hoteleira em S. João da Madeira. Chama-se “Hotel Sanjoanense” e ocupa a totalidade do edifício pertencente aos herdeiros de Domingos Ferreira de Oliveira, com “amplas e arejadas divisões”, “ordem e asseio”, “tendo anexa uma secção de café, bilhar, etc.”. O prédio de Domingos Ferreira de Oliveira ficava na atual Rua Oliveira Júnior, no mesmo sítio onde se encontra agora o “Edifício Castilho”.

Anúncio publicado no jornal “Defeza Local”, em 1915

Com o agravamento progressivo do seu estado de saúde, Genuíno Silva decide, em finais de 1933, pôr à venda todas as suas propriedades, incluindo o edifício onde funcionara o “Central Hotel”. Como não aparecesse ninguém interessado no negócio, o velho empresário recua nas suas intenções e, em janeiro de 1936, constitui uma sociedade com duas das suas quatro filhas, Maria Emília da Silva e Dulce Emília da Silva, com a denominação “Pensão Guarany, Limitada”.
Ocupando as antigas instalações do “Central Hotel”, a pensão acabaria por ter uma existência curta. No dia 10 de setembro de 1939, aos 26 anos, morre Maria Emília da Silva. A sociedade é dissolvida e Genuíno volta a pôr à venda as suas propriedades. Em março de 1940, Artur Alves Amorim adquire o velho edifício e dá início às obras que iriam alterar profundamente a fisionomia primitiva, dando-lhe uma nova vida.
Genuíno José António da Silva faleceu com 76 anos, a 12 de janeiro de 1941.

 

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