
A história da Cortadoria Nacional de Pêlo (Cortadoria) apresenta-se bem documentada no livro, da autoria de Maria Fernanda Rollo, encomendado a propósito dos 75 anos da empresa, cumpridos em 2018. A impressão surgiu em 2023 e pode-se exclamar que: esperar foi gratificante.
A ideia de reformar a atividade de cortadorias de pelo remonta a 1938, com a criação da Comissão Reorganizadora da Indústria de Chapelaria. Os centros destas indústrias eram Braga, Porto e São João da Madeira. Em 1941, essa comissão passou a incluir no seu trabalho a indústria de cortadoria de pelo. Até à formação da Cortadoria ainda passariam mais dois anos. Chegados a 1943, constituída a sociedade, surgiram dúvidas dentro da Assembleia Nacional pela interferência do Estado numa atividade económica. Este meu resumo do primeiro capítulo do livro é demonstrativo das dificuldades portuguesas em traçar planos económicos e em aceitá-los, independentemente da validade dos mesmos e do regime político.
Imune à critica, a atividade da Cortadoria prosseguiu em São João da Madeira e em Braga durante os 17 anos seguintes, sem instalações próprias. O conceito foi difícil de acatar pelos demais industriais de chapelaria, pois apesar de serem todos sócios constituintes, foi frequente em Assembleias Gerais da empresa a referência à compra de pelo por parte de alguns sócios a diferentes cortadores, alguns ilegais, outros estrangeiros. Desavenças expressas na sociedade local e que outros livros, retratando a época, de diferentes autores, já relataram episódios semelhantes.
Em 1960 é a inauguração das instalações fabris, situada no lugar das Travessas em São João da Madeira. A Cortadoria concentra a sua atividade na então vila e encerra a laboração em Braga. O exemplo da Cortadoria, concentração de produção, servirá para traçar a política industrial para a década iniciada nesse ano, que mudaria o tecido social de Portugal, fruto da empregabilidade proporcionada pela indústria. Nesse mesmo ano, Portugal adere à EFTA – Associação Europeia de Comércio Livre. Com novas instalações, com desenvolvimento laboratorial, capacitando o produto e procurando novos mercados para o colocar, a Cortadoria passou a encarar a exportação como um desígnio, sendo reconhecida pelos méritos do artigo produzido.
A instabilidade da moda, a guerra colonial, a forte emigração da população portuguesa – não absorvida pelas poucas indústrias, reflexo do condicionalismo industrial em vigor e também por uma teimosia em manter uma política agrícola obsoleta – não permitiram um desenvolvimento sem momentos difíceis. No entanto, a diversificação de investimentos, para produção de outros produtos permitiu manter o negócio ativo. É neste período que surge a constituição da FEPSA, que passa a ser o principal cliente da Cortadoria, agregando na nova sociedade seis dos fabricantes nacionais de chapéus.
Nos anos seguintes, é retratado, no livro, a sucessão do fundador António Oliveira Figueiredo por seu filho Fernando Figueiredo, mantendo a Cortadoria “o rumo traçado”.
A entrada de Portugal para a Comunidade Económica Europeia, ofereceu novas oportunidades para o sector, ainda assim o espetro de crise pairou sempre, com alguns resultados operacionais de prejuízo. Uma demonstração de resiliência da empresa e sobretudo, ao expor em livro estes dados, uma capacidade de divulgação da sua história sem truncar os momentos menos felizes e no balanço destes, traçar oportunidade com projetos para o futuro.
É neste clima, com entrada para a administração da empresa de Nuno Figueiredo, “neto do fundador e filho do então presidente”, que se implementaram alterações com “reorganizações e reestruturações dos serviços” e racionalização do processo fabril, partindo a empresa para a produção de pelo com melhor qualidade, dando assim resposta às exigências do mercado de chapelaria.
Os últimos capítulos do livro, retratando os últimos 25 anos da empresa, demonstram a perspetiva acentuadamente exportadora da empresa, sob o título “de São João da Madeira para o mundo” e como a Cortadoria se reestruturou para ultrapassar a crise global de 2008, através de investimento em Investigação e Desenvolvimento, contrariando a escassez do mercado de peles e as dificuldades do mercado da chapelaria.
Para este texto usei o mesmo título do livro, que é também uma das suas derradeiras secções da história da Cortadoria, expressando as inovações no processo e em produção de curtumes e como a indústria de chapelaria do mundo inteiro recorre a esta empresa de São João da Madeira, tornando-a líder mundial.
A edição do livro “Na Cabeça do Mundo” contou com a parceria da Câmara Municipal de São João da Madeira, incluindo o Turismo Industrial, o Museu de Chapelaria e Centro de Memórias da Indústria. Espera-se que desta última, este livro seja o primeiro de muitos trabalhos em que esta entidade esteja envolvida, procurando-se reunir as memórias dos mais variados tipos de indústrias que laboraram nesta localidade.
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