Opinião

Hortalices - Obrigado, cegonhas!

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Percebemos recentemente pelas notícias, e por observação direta, que estão a construir um supermercado por baixo da grande chaminé, “sobrevivente da extinta chapelaria Nicolau da Costa & Cª. Lda”, como escreveu um dia o saudoso amigo Eduardo J. Duarte, numa das suas crónicas sobre biodiversidade. Os construtores comprometeram-se a não tocar na chaminé. E de outra forma não podia ser, porque a chaminé das cegonhas é património sanjoanense. E as cegonhas também.
Mesmo assim, temi pela permanência dos inquilinos. Hoje passei lá, vi máquinas e montanhas de destroços, mas, em cima, o casal continuava a tratar dos seus afazeres, talvez a chocar os ovos, ou a alimentar algum implume. Bom sinal.
A história das cegonhas começou há muito tempo. Um dia, sem que ninguém o previsse, apareceram em S. João da Madeira umas aves não habituais. De estranhas não tinham muito, porque toda a gente conhece as cegonhas. Mas não era expectável que surgissem no cimo daquela chaminé.

Cegonhas
Na altura do seu aparecimento, há umas dezenas de anos, organizaram-se autênticas excursões à “chaminé das cegonhas”, porque, entretanto, o casal começou a fazer o ninho. Se o poiso das pernaltas já era um acontecimento, a construção do ninho ainda o foi mais. Ora, onde há ninhos há ovos e onde há ovos há aves, é esta a lógica natural das coisas, as pessoas foram acompanhando o evoluir dos acontecimentos. Um dia, houve descendentes e o “cegonhário” foi prosperando. Nunca se percebeu muito bem onde era o restaurante das pernaltas. Acredita-se que o principal refeitório é a ria de Aveiro. A distância não é grande, o combustível é barato, daqui à ria são quinze quilómetros.
Mas as cegonhas não esgotam o universo das voadoras sanjoanenses. Poderíamos também falar das pombas que debicam restolhos roçados recentemente; das pegas que grasnam por aí roubando tudo o que brilhe; dos morcegos que ainda fazem voos rasantes ao cair da noite; dos melros atrevidos cantando refinadas melodias… Conheço bem os pardais que me encharcam de ninhos o telhado da casa, sei de um rouxinol que monta palanque num dos loureiros do jardim e há pintassilgos a completar a orquestra. Para meu espanto, já avistei uma poupada poupa na Rua de Arouca. E, para maior espanto ainda, vi uma circunspecta perdiz numa horta, a bem poucos metros da via-férrea.
Miguel Torga, esse grande especialista de “Bichos”, acusa-nos: “Dedicamos horas infindas a tratar dos nossos cães e dos nossos gatos”, “passamos pela terra como espectros, indo aos jardins zoológicos”, mas mantemo-nos indiferentes à natureza que nos rodeia. Já tinha falado aqui de outros bichos, mas estava em débito com as voadoras. Obrigado, cegonhas!

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