
Um homem que adota como lema de vida a frase “Alcança quem não cansa!” e escolhe o epitáfio “Mais não pude!” tem que ser um homem especial.
Quando, há dias, decidi escrever uma “hortalice” sobre Aquilino Ribeiro, comecei por me dirigir à minha biblioteca. Pensava que teria uma dúzia de livros dele, alguns dos quais lidos de enfiada há uns anos, no tempo das intermináveis viagens ferroviárias entre o Peso da Régua e o Porto. Surpresa: contei 26 lombadas.
Alguns volumes têm mais do que uma obra, tudo somado, entre ensaios, novelas e contos, encontraria mais de cinquenta obras. Aquilino foi um extraordinário lavrador de palavras. É certo que a sua obra e a sua vida circulam preferencialmente entre a giesta, o tojo e a urze pelos campos da Beira Alta, mas também circula nela o mundo multifacetado do seu tempo: memórias, negócios do volfrâmio, histórias de guerra, História de Portugal, literatura infantojuvenil… há muito por onde escolher.

Mas Aquilino, tal como alguns outros grandes escritores portugueses, é um autor esquecido, ou quase. Por vezes aparecem nos manuais escolares uns textos dispersos, mas pouco mais. E, no entanto, a obra de Aquilino é um imenso celeiro de personagens, de situações e de palavras. Comecemos pelas palavras: a obra aquiliniana é um tesouro onde se guardam palavras ditas por pouca gente e desconhecidas por muita, regionalismos, provérbios, dichotes e rifões. Sem o trabalho do escritor, muita dessa linguagem estaria irremediavelmente perdida.
Dizem que o seu vocabulário é difícil e limitado a uma região, o que não é verdade, mas vocabulário fácil só o podemos encontrar nos espampanantes escaparates das nossas livrarias, onde hoje se vendem, a quilo, livros mal escritos e mal traduzidos.
Abrir o celeiro de Aquilino é entrar no mundo áspero e maravilhoso de aldeias perdidas na charneca beirã. Mas, com alguma sorte, poderemos também ganhar direito a uma viagem até Aveiro, atrás dos machinhos do Malhadinhas, para vender azeite e comprar sal. E, se a viagem correr mal, poderemos viver com ele alguma das suas inomináveis aventuras, para gritarmos também, “com toda a força dos pulmões anchos de Liberdade:
- Ó cagaréus de Aveiro, vinde agora para cá … vinde!”
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