Opinião

Hortalices - Manual do espantalho perfeito

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Há quem pense que as hortas e os campos são apenas lugares de trabalho e de produção, sem direito a uma vertente artística que lhe amenize a dureza. Ideia enganadora. O espantalho é a suprema criação artística dos agricultores, lavradores, hortelãos e ofícios correlativos. E, além da imaginação criadora que envolve, tem um fim útil. Muitas pessoas que visitam exposições e museus, ao contemplarem certas obras mais abstratas e enigmáticas, perguntam “que é que isto representa, para que é que isto serve?”. Com o espantalho isso não acontece. O espantalho, além de ser fruto da criatividade, serve para afugentar a bicharada voadora e substitui o agricultor nas suas ausências.
É certo que mentes maldosas se têm dedicado a denegrir esta forma de criação artística campesina. É conhecida a frase meio insultuosa “o que é que estás aí a fazer, meu espantalho?” Mas, se virmos bem, muitos dos grandes pintores, escultores e escritores têm sido alvo de incompreensões, próprias de quem não alcança a alma da criação artística. Quando uma criança faz um desenho mais anguloso ou desconchavado, lá aparece a frase fatal “isso parece uma pintura do Picasso”. Há ainda quem diga que José Saramago não sabia escrever, ou que as estátuas do Cutileiro não têm ponta por onde se lhe pegue… Por isso, insultar alguém chamando-lhe “espantalho”, não é propriamente uma forma incomum de apreciar objetos artísticos. Neste contexto, pode até ser considerado um elogio.
Espantalho

Mas há graves ameaças à sobrevivência do espantalho: a revolução digital não perdoa. Os espantalhos estão a ser substituídos por discos de CD ou DVD que deixaram de ter utilidade e terminam assim a vida a enlouquecer as pegas e a assustar os melros. Também há quem aproveite sacos de plástico e balões-coração das festas e aniversários. Sinceramente, não sou adepto destas modernices. Para mim, espantalho que se preze tem que ter um chapéu esfiapado, uma cabeça feita com uma meia cheia de farrapos, dois paus a servir de braços e coluna vertebral e duas pernas de calças remendadas, cheias de palha centeia e atadas no fundo.
Quem compreendeu bem a dignidade do espantalho foram os nossos vizinhos da freguesia de Macinhata da Seixa, Oliveira de Azeméis, que, no ano 2000, concentraram 113 espantalhos no seu território, ganhando, por isso, direito a inscrição no Guiness Book.
Se não tem horta nem jardim, se não sabe onde colocar o espantalho, não perde nada em construir um. Mas siga as regras canónicas. No final, olhe para ele, ria-se e ofereça-o a alguém que precise.... Vai ver a satisfação que lhe dá.

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