
Conta-se que os primeiros cravos surgidos nos canos das espingardas dos soldados do 25 de abril foram oferecidos pela D. Celeste Caeiro, uma empregada que, vendo adiada a festa de aniversário do restaurante onde trabalhava, resolveu oferecer os cravos a soldados que lhe pediam cigarros. Depois, as floristas do Rossio, a praça das “ondas pretas e brancas” de Rodrigues Miguéis, resolveram imitar-lhe o gesto: e os cravos foram ocupando os canos das espingardas.
Talvez eu me tenha cruzado com a D. Celeste, no Chiado, quando aí passei ao final da manhã do dia 25 de abril de 1974. Os comunicados do Movimento das Forças Armadas apelavam aos cidadãos que não saíssem de casa. Mas…caramba, quando cheirou a queda do regime, quem é que aguentava em casa? Desde 1972 que o ambiente nas faculdades era sufocante. Na altura, a perspetiva dos jovens chamava-se guerra… África, metralhadoras, minas, mortes, corpos amputados, vidas destruídas. Restava a revolta.
Depois do assassinato, pela pide, do estudante Ribeiro Santos, a 12 de outubro de 1972, as faculdades transformaram-se em prisões. Boa parte delas estavam entregues aos “gorilas”, agentes de segurança recrutados nas tropas de elite. Prisões arbitrárias, confisco dos cartões de estudante, cercos policiais às cantinas universitárias eram o dia a dia. A Alameda da Universidade era um campo de batalha.
Quando, naquele princípio de tarde, subi o Chiado à procura das novidades do Carmo, podia ter visto algum soldado já com um cravo na espingarda. Mas não vi, porque, a essa hora, o Carmo ainda não estava resolvido. Entrei pelo lado da Trindade, porque não me deixaram subir a Calçada do Sacramento. Quando entrei no Carmo, já havia buracos de balas na fachada do quartel. Aí assisti aos esclarecimentos de Salgueiro Maia sobre o que se estava a passar, vi a chegada de Spínola e a saída do Chaimite Bula, onde viajava Marcelo Caetano. Saímos dali para a António Maria Cardoso. Vi o agente da Pide surgir à varanda. Vi-o disparar. Abriguei-me atrás de um carro. Depois, ajudei a transportar feridos e talvez mortos. Entretanto, chegaram os militares, a situação acalmou. Durante muitos meses, o som daquela metralhadora não me saiu dos ouvidos… Os cravos não têm espinhos, mas alguém se encarregou de lhos enxertar…
A horta que deu os cravos da D. Celeste sobreviveu ao sufoco de um país triste, mas sedento de Liberdade. Por vezes, as flores mais belas são as que nascem entre pedras e em terra queimada. Quando as regam, explodem em cor e alegria. E podem enfeitar o que quiser a nossa imaginação, até o cano da espingarda de um soldado.
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