
“Estás a comer amoras? Vou dizer ao teu pai que já namoras.” Esta era a lengalenga que dizíamos entre nós, crianças de silvestres brincadeiras, quando víamos alguém a comer amoras. A ideia veio de Camões, para quem as amoras “têm o nome de amores”. Lembramo-nos, também, do encantador poema popular a que Zeca Afonso colou um não menos encantador arranjo musical que por aí trauteamos.
Ó minha amora madura
Diz-me quem te amadurou?
Foi o sol foi a geada,
Foi o calor que ela apanhou.
Os frutos silvestres só recentemente ganharam proporções nos nossos hábitos alimentares. Antes da invasão dos mirtilos, das framboesas e das bagas quase só havia um fruto silvestre: a amora. E esse é verdadeiramente silvestre, porque nasce da silva, uma planta espinhosa (Rubus sp.) que os agricultores não gostam muito de ver nas suas plantações. É invasora e pica “que tem diabo”, como diz o povo. Havia até a tradição de cortar as silvas no dia de S. Silvestre, 31 de dezembro, porque só voltariam a crescer no ano seguinte.
Mas a verdade é que nem todas as amoras são assim.
Há amoras que nascem de árvores grandes e frondosas (Morus nigra), nativas da China e do Japão. É das folhas dessas árvores que também se alimenta o bicho-da-seda. Apesar de serem frutos de plantas de espécies tão diferentes, quis a natureza que a sua forma fosse muito semelhante, por isso, o povo, esse grande nomeador das coisas, deu-lhe o mesmo nome.
As amoras da amoreira são mais carnudas do que as amoras silvestres, mas, para compensar, também há variedades de amora silvestre de cultura (Rubus fruticosus) cujas amoras são mais volumosas do que as silvestres
Mas voltemos à amora silvestre que espreita entre paredes de muros velhos ou terrenos abandonados. A palavra “resiliência” é muito antiga no nosso léxico, mas apenas começou a ser utilizada de forma generalizada já no século XX: “propriedade de um corpo de recuperar a sua forma original após sofrer choque ou deformação”, ou “capacidade de um indivíduo de superar traumas, adversidades ou grandes desafios”. A silva é o melhor exemplo de resiliência que conheço: cortamo-la, vergastamo-la, queimamo-la e, daí a uns meses, aí está ela de novo, com o seu gavião espinhoso e verdejante, pronto a espetar-se num dedo ou numa peça de roupa. Na primavera nascem-lhe flores de um lilás esbranquiçado e, quando o calor começa a apertar, vemos despontar pequenos frutos, primeiro de um rosa avinhado e, mais tarde, de um negro brilhante e apetitoso. Vamos colher estas deliciosas amoras.
Fiquemos com o exemplo espinhoso, mas resiliente, da silva que as gerou, e com um fim de boca a saber a amoras silvestres. Delícia!
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