
Se eu perguntasse aos leitores desta crónica, em que época viveu o autor do quadro que aqui se reproduz, provavelmente os leitores teriam a mesma dificuldade que eu tive, quando observei, pela primeira vez, um quadro de Archimboldo.
Foi pelos poemas de Cesário Verde que o estranho pintor italiano chegou ao meu conhecimento, ou não fossem ambos amantes das coisas das hortas, cada um na sua arte e na sua época.
Quando abordávamos Cesário Verde nas aulas, procurávamos apresentar contexto, fundamentação, relações… A leitura de Cesário sugere sempre muitas coisas, desde o ambiente urbano da loja de ferragens da rua dos Fanqueiros, à ruralidade da quinta de Linda a Pastora e, sobretudo, à sua simpatia para com os pobres e os desprotegidos. Era obrigatório ler “Num bairro moderno”, esse extraordinário poema sobre o qual nada mais haveria a dizer além do que ele diz.
E era a imaginativa visão de Cesário que nos levava ao dito pintor renascentista italiano, de seu nome Giuseppe Archimboldo (1527-1593). Um dos seus quadros mais famosos, retratando Rodolfo II, imperador do Sacro Império Romano-Germânico, é inspirado em Vertumnus, o deus romano da mudança, e é composto por uma enorme variedade de frutas, flores e hortaliças: uvas, maçãs, cerejas, romãs, melancias, abóboras, espigas, cebolas, alhos, alcachofras, couves, alfaces, rosas, lírios e alguns outros difíceis de deslindar. Além da gravura aqui reproduzida, procurávamos apresentar aos alunos mais alguns quadros do pintor: rostos com flores, hortaliças, bichos, livros e o que mais fosse sugerido pela personagem retratada. Por seu lado, Cesário, ao poetizar a giga da hortaliceira, imaginou “uma cabeça numa melancia”, “nuns repolhos seios injetados”, “os nabos - ossos nus”, “as azeitonas…tranças dum belo cabelo…”, “um melão, que… lembrou um ventre”. E, com mais alguns legumes, compôs Cesário “um novo corpo orgânico, aos bocados.”
Cesário e Archimboldo ensinam-nos que, para se fazer Arte, não são necessárias paisagens grandiosas, florestas verdejantes, ou ardentes desertos: basta a giga de uma humilde hortaliceira ou um açafate cheio de frutas…
Nunca saberemos se Cesário terá contemplado algum quadro do italiano, mas tenho a certeza de que, se fossem contemporâneos, teriam fundado uma empresa dessas que estão agora na moda, unicórnio, ou bicórneo, neste caso. Até sugerimos um nome: Cesário & Archimboldo, frutas e legumes SA.
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