Opinião

Hortalices - Cármen Miranda, o Carnaval e outras frutas

• Favoritos: 116


“O que é que a Baiana tem?” A baiana tem Cármen Miranda cantando. A baiana desfilava na Bahia, com a sua saia engomada, a sandália enfeitada com berloques, que faziam dela uma figura única, digna dos louvores a Iemanjá. E, na cabeça, Cármen Miranda tinha um chapéu com frutas tropicais, bananas, ananases, maracujás… Cármen vinha do Marco de Canavezes, onde não havia toda essa fruta, não passou por S. João da Madeira para aprender a fazer chapéus, mas aprendeu a fazê-los na “La Femme Chic”, loja em que trabalhou na baixa do Rio de Janeiro. A música estava-lhe no sangue. A fruta trouxe-a a sua imaginação e a sua criatividade.
Hoje falamos de frutas tropicais e de frutas autóctones com a facilidade com que passamos por uma prateleira de frutas num hipermercado. Cármen Miranda não precisaria hoje de ir para o Brasil para as encontrar e, provavelmente, até encontraria algumas que nunca conheceu. O Kiwi só foi introduzido em Portugal em 1973 e a manga apenas aparecia em lojas de produtos exóticos, apesar de ser abundante nos territórios coloniais e no Brasil. O mirtilo terá sido sugerido pelos países nórdicos, grandes consumidores de bagas, mas vulgarizou-se rapidamente e transformou-se numa produção emblemática de muitos concelhos do país. Outras frutas, como as anonas, os abacates e as fisálias começaram também a ser produzidas em território nacional e estão hoje razoavelmente disseminadas.
Numa última categoria estão frutas exóticas dos quatro cantos do mundo, muitas delas comercializadas na época natalícia, como as líchias de Madagáscar, um dos países mais pobres do mundo. Há ainda um lote de nomes impronunciáveis, visualmente muito atraentes, mas, nem sempre simpáticas para as papilas gustativas. E não faltam morangos e cerejas pelo Natal, vermelhinhos, a condizer com o fato do Pai Natal. Para saber da sua origem, basta ler os rótulos das caixas. É a globalização frutícola! Podem faltar outras coisas, até o dinheiro para a comprar, mas não falta fruta.
Dizem os médicos que comer fruta faz bem à saúde. Como acaba de se demonstrar, o que mais há é fruta. E mesmo a fruta a que dantes chamávamos “da época”, hoje em dia é fruta intemporal: maçãs, peras e laranjas todo o ano. Já não têm o mesmo sabor, dizemos nós, mas, como em tudo, a quantidade compensa as outras falhas.
Por isso, aproveitemos a inspiração dos chapéus de Cármen Miranda e, enquanto ouvimos os seus sambas desfilando no Carnaval que se aproxima, comamos fruta. Com música, ainda é mais saborosa.


Nota: Ao texto da crónica “A horta de Alexandre Herculano”, publicado na versão em papel no Regional de 25 de janeiro de 2024, faltam três ou quatro linhas. Para lerem o texto na sua integridade, os leitores poderão consultar a respetiva versão digital.
116 Recomendações
984 visualizações
bookmark icon