Opinião

Hortalices - As metamorfoses da Buciqueira

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O primeiro sinal visível desta ribeira é uma fonte da Rua da Várzea, em Arrifana, no seguimento da Av. do Corgo. Um copioso jorro de água brota de um cano para o tanque, formando um conjunto fontanário, que muito ganharia se estivesse mais cuidado (f. 1). Depois, a água some-se por caminhos subterrâneos por casas e propriedades, atravessa o talude da Avenida da Buciqueira e entra em Sãow João da Madeira. O lugar da Buciqueira, no dizer de João da Silva Correia, fica na “estrema de Arrifana” e foi aí que, em 1809, setenta e um mártires foram fuzilados pelas tropas napoleónicas. O dito riacho (corgo), que, nessa época, ainda correria a céu aberto, tinha a nascente na zona da Feira dos Quatro e terá sido testemunha de tão horrendo massacre.
Mais abaixo, quando nos dirigimos ao Centro de Arte da Oliva, reparamos que, ao lado do edifício, corre um riacho, saído dos subterrâneos da Buciqueira, cinquenta metros antes.
Logo a seguir, a água volta a desaparecer, desta vez sob os escombros da Oliva, para surgir no descampado das Corgas, ao lado da via férrea, onde recebe um pequeno afluente, vindo da horta das Ribes. Mas o talude da Av. Arantes Oliveira barra-lhe o caminho: um buraco atulhado de ervas fá-la mergulhar de novo no mundo subterrâneo.  A viagem, apesar de sombria, torna-se agora mais variada. Primeiro, passa debaixo da piscina municipal. Logo a seguir, percorre o subsolo de um bairro, de duas ruas e de uma escola. O fim do périplo subterrâneo está marcado para o lugar mais lógico, o cemitério nº 3.
Quando sai desta estranha travessia, o leito é cinzento e a água aparece olfativa e visualmente emulsionada com esgoto (f 2). Em tempos idos, alguém tentou construir ali uma comporta para regadio dos férteis terrenos que vão até Cucujães. Não sei se o projeto alguma vez funcionou; hoje apenas são visíveis as ruínas.
A ribeira da Buciqueira é mais uma das vítimas de um urbanismo que considerava a superfície da cidade terreno exclusivo de edifícios e equipamentos. As ribeiras eram um óbvio empecilho, por isso, havia que enterrá-las. Pensava-se que, uma vez enterrados, os cursos de água deixariam de criar problemas. Há bastantes anos, durante um temporal mais violento, a água desta ribeira chegou a ameaçar os fornos da Oliva. A instabilidade estrutural das piscinas municipais, com as consequentes fugas de água, são, para já, a única “vingança” da Buciqueira. No outro extremo da cidade, no Pavilhão das Travessas, o rio Ul já fez das suas. Em tempo de alterações climáticas e de fenómenos extremos, talvez seja importante recordar que “a água encontra sempre o seu caminho”, mesmo quando pensamos que o conseguimos esconder.

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